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Outros dados, e cartas, no final da página

Naquele casal, se havia algo que tinham em comum, era uma aversão profunda pelas lides domésticas – limpar, arrumar, e voltar a limpar, era um suplício constante, como uma espada (suja) de Dâmocles a pender sobre as suas vidas. A louça ia-se acumulando em pilhas em alguidares de plástico, até não conseguirem encontrar um prato, um talher ou um copo por usar, e resignarem-se, num esforço conjunto a arrumar a louça na máquina e pô-la a trabalhar. O mesmo acontecia com a roupa, que usavam até ficar tão inteiriça que não dava para vestir, condição na qual a amontoavam numa dependência para arrumos, onde ficava a cozer no sal do suor, até um deles, ou ambos, chegarem á situação crítica de terem de sair de casa do mesmo modo inocente com que tinham vindo ao mundo. Com a limpeza da casa, nem se incomodavam a pensar, que se soubesse, nunca se vira um cotão de pó petrificado, e, como tal, não havia nada que os fizesse recear passearem-se nesse tapete macio e algodoado com a desenvoltura dum cisne a nadar num lago. Como em muitos casais e pessoas, foi a chegada dum filho que alterou por completo as mentalidades, as prioridades e outras idades. O filho pequeno, levou-os a empurrar o pó com uma vassoura para debaixo de móveis onde ele não chegasse, e a desfazerem-se das fraldas descartáveis, atirando-as em forma de bola com os adesivos colados, para um terreno baldio vizinho que ninguém sabia a quem pertencia. Um dia, admirando o filho pequeno que gatinhava pelo tapete ruço da sala, o pai, ou ambos, que os dois reclamavam a descoberta, teve a ideia inspirada de usar o filho para limpar a casa em vez deles. Enquanto ele gatinhava, prenderam com um alfinete de bebé as duas extremidades de um pano de flanela, que a criança arrastava atrás de si, dragando o pó que eles depois despejavam no caixote do lixo. Animados pelo êxito da iniciativa, os pais desdobraram-se em novas ideias criativas – escovas embebidas em detergente que eram fixadas á parte inferior do andarilho do rapaz, fazendo-o lavar o chão enquanto tentava aprender a andar, um body de tecido aderente que acumulava o pó enquanto o deixavam a brincar em cima de mesas e móveis, e uma bacia grande para o menino fazer tem-tem em cima da roupa suja, comprimindo-a para ocupar menos espaço. Cada invento era um pomo de discórdia para o casal, porque as ideias eram quase sempre dele mas a mulher teimava que pensara nelas primeiro, por ser o mais inteligente dos dois. O crescimento do rapaz, foi um processo intensivo de aprendizagem, aprendeu a limpar antes de saber o que era brincar, e entre as primeiras palavras que aprendeu a pronunciar com nitidez, estavam louça e vassoura. Quando ele ainda não tinha completado oito anos, o pai escapuliu-se de casa ás escondidas e correu até ao gabinete de patentes. Queria registar, sem que a mulher reclamasse de novo a autoria, a primeira patente mundial dum aspirador orgânico.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...