Maus fígados

Comprou a sua escrava num leilão no porto, junto ao amplo cais de pedra onde acostavam as naus, e levou-a para sua casa para a ter ao seu serviço, e talvez, cobrar as prerrogativas sobre o seu corpo jovem. Durante o caminho para a casa do amo, a escrava olhava constantemente em volta, curiosa, mas o seu novo dono não gostou. “Arrancar-te-ei os olhos para que não mires outros homens”, prometeu a si mesmo. Em casa, enquanto aquecia na chama a lâmina do punhal com que executaria o acto, uma outra escrava mais antiga, explicou á jovem as intenções dele, e ela caiu em pranto. Usando a outra como intérprete, a jovem escrava fez saber ao seu amo que não olharia mais em volta, mas sempre para cima, para as nuvens, para que ele não se sentisse ofendido. O seu dono aceitou, e a nova escrava ancorou o seu olhar no azul do céu, e assim cumpria as suas tarefas diárias, e mesmo no leito dele, era ao tecto que mirava, esse pálido céu encarvoado que ocultava a noite e as estrelas. O acordo foi respeitado pelo proprietário, as nuvens estavam distantes e as suas formas efémeras não eram suficientemente nítidas para lhe despertarem o ciúme ou a ira. Uma manhã em que passeava a cavalo pela propriedade, surpreendeu a escrava, que de joelhos escovava uns tapetes com o queixo e o olhar erguido. Quando parou a montada ao pé dela, não eram as nuvens que ela olhava, mas a ele, que se interpunha entre ela e o céu. Correu para casa, procurou o punhal, e esfaqueou-se a si mesmo de forma selvática, aliviando o seu ciúme violento.

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