Com a corda toda

Manter aberto ao público, uma pequena loja de antiguidades especializada em relógios, era o cabo dos trabalhos. O senhor Maltez Filipe dedicava todo o seu tempo a manter vivas essas pequenas maravilhas da técnica, limpava-os, consertava os que se avariavam, mudava molas e rodas dentadas, restaurava o ouro e a prata das suas paredes delicadas, reavivando os detalhes das inscrições. Enquanto trabalhavam, dava-lhes sempre corda e acertava, com uma fidelidade religiosa. Como extensões de si mesmo, acompanhavam a marcha do tempo com a cadência harmoniosa de uma metrónomo, e se algum se evadia desse ritmo, Maltez Filipe retirava-o de imediato para a sua bancada de trabalho e armava-se do monóculo negro para o operar. Mas, tal como os médicos que precisam de outros médicos para os tratarem, ou os advogados que recorrem aos seus pares quando pulam a trincheira das leis, Maltez Filipe, o antiquário-relojoeiro, recebia amiúde a visita dum outro antiquário-relojoeiro, que vinha a sua casa para se certificar de que a máquina de Maltez Filipe continuava a trabalhar bem. Auscultava o seu peito, dava-lhe corda e acertava-o, e sempre que o achava mau de aspecto, perdia algum tempo em pequenas operações de restauro, alisava rugas novas, acentuava os detalhes das antigas, e imprimia em pequenas porções, novas aplicações em ouro sobre aquelas que haviam empalidecido, tudo, enfim, tudo o que estivesse ao seu alcance, para preservar Maltez Filipe do desgaste do tempo, trabalhando e tiquetaqueando como um relógio em que se podia confiar.

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