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As duas faces da moeda


Sexta-feira de manhã, o pequeno César do subúrbio acorda bem-disposto. Ao seu lado na cama, e depois de uma noite de sonho, a sua deusa platinada dorme. Levanta-se, veste o roupão de seda e prepara-lhe o pequeno-almoço e leva-o á cama. Ela acorda estremunhada com o beijo nos lábios, soergue-se na cama com um sorriso doce e come com vontade. Conversam um pouco, sobre o que poderão fazer no fim-de-semana. Nenhum dos dois tem pressa, mas ela tem de ir trabalhar, não é como ele, que leva uma vida repousada orquestrando os seus homens e os seus negócios com chamadas telefónicas. Ele senta-se no sofá do quarto e admira-a enquanto se veste. Quando ela se despede, melhor, quando ela abre a porta do quarto para sair, ele sente uma angústia repentina a inundar-lhe o peito como uma onda gelada, tem a impressão nítida, avassaladora, de que não vai voltar a vê-la naquele dia. Ainda ela não saíra à rua, e já ele estava em conversa com o seu homem de confiança nas ruas, o Adérito.

- Tenho um trabalho urgente para ti – diz-lhe ao telemóvel – a Luana acaba de sair daqui e quero que a mandes seguir, discretamente, quero sempre alguém por perto, preparado e atento, se ela atravessar uma rua, quero que essa pessoa esteja pronto a desviá-la dalgum carro apressado, se um cão rosnar para ela, matem-no, se alguém a tentar assaltar ou agredir, o mesmo, não se perde nada se o esventrarem como a um coelho. Ela foi trabalhar, mas ia aproveitar uma parte da manhã para fazer umas compras. Não a percam de vista.

- E as outras tarefas, o jogo, as tipas, as vendas?

- O resto espera. Ah, e quero um relatório teu de meia em meia hora. Sem falhas.

Desligou e vestiu-se para sair. Não era capaz de ficar em casa á espera, ainda dava em maluco. Foi para a rua, e instalou-se num café onde costumava ver os amigos e mancomunados. Meia hora depois da primeira conversa, a chamada do Adérito.

- O trajecto até ao trabalho correu sem incidentes, lá dentro temos alguém que a tem debaixo de olho. Tudo sobre controlo.

Segunda chamada do Adérito, enquanto ele estava no quiosque a cortejar a capa dum jornal.

- Saiu para ir á Câmara, no passeio, em frente dela, havia uma poça de água, e dois estudantes com trajo universitário estenderam no chão as suas capas para ela passar. Esses também estão no jogo. Agora deu uma escapadela a uma loja de roupas, e nós continuamos a ser a sua sombra.

Terceira chamada do Adérito, que o apanhou em má altura, na estrada enquanto tentava acender o cigarro com o isqueiro do carro, o telemóvel escapou-lhe da mão e esticou-se todo para o segurar, dando uma guinada inadvertida ao volante. O carro saiu da faixa e saltou a borda do viaduto de cinquenta metros de altura, num mergulho para a morte.



A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...