Ângulo inverso

Os dois formavam um casal moderno, aberto, livre de se envolverem com quem lhes apetecesse, e isso nunca havia maculado a sua relação. Nessa manhã, ao pequeno-almoço, ele perguntou-lhe casualmente:

- E então ontem à noite? Divertiste-te?

Era uma pergunta comum entre eles, não descreviam, mas aludiam às suas aventuras, sem constrangimentos nem culpas.

- Ontem foi bom – avaliou ela – a companhia foi boa, um homem interessante, com graça, a conversa foi agradável, o jantar foi óptimo, e o sexo ainda melhor.

Mas ele conhecia-a há muito tempo, algo indefinido na sua voz soou-lhe a falso, como se um detalhe ínfimo dum quadro que admirasse todos os dias tivesse sido profanado e alterado. A casa estremeceu até às suas fundações.

- Não foste capaz! Como é que foi possível?

- Não me apeteceu, queria mais estar em casa e contigo, apetecia-me mais um mimo dalguém que gosto, do que uma noite com um estranho

- Foste-me fiel! Não posso acreditar, não tinhas o direito de me fazer uma coisa dessas, vais-me fazer sentir um pulha de cada vez que sair com outra mulher.

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