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A mostrar mensagens de Setembro, 2009

Casa devassada

Originado talvez por alguma experiência de infância de que não se lembrava – daquelas que os psicólogos andam sempre á cata – ela possuía um terror dissimulado da sua própria sombra; mesmo correndo o risco de assumir comportamentos estranhos e suspeitos, ela procurava sempre posicionar-se diante das fontes de luz de maneira a reduzir a estatura da sua sombra, ou mesmo anulá-la, fundindo-a com sombras maiores como as das árvores e dos prédios. Andou nestes jogos com a sua sombra durante anos sem conta, até ao dia em que a sombra se cansou da brincadeira e entrou dentro dela. Os outros, os que não a conheciam nem ao seu drama particular, acham apenas que ela endoideceu de vez.

Naquela manhã, mesmo ao sair de casa, sentiu que estava a morrer aos poucos, descobriu-o quando ainda tinha a mão na maçaneta da porta e dois dos cinco dedos da dita mão não deram conta de si, ao longo do dia, aquela morte á zona prosseguiu, o ombro, os músculos da perna direita, um rim, a orelha esquerda, andou nisto todo o dia, quando voltou a casa, rastejou como pôde para o seu interior e contou á mulher a sua tragédia, pedindo-lhe que procurasse um sacerdote para a extrema-unção, a mulher não se acreditou, experiência de viver há tantos anos com um hipocondríaco, fê-lo deitar-se na cama, e foi á cozinha buscar uma tigela de sopa de agrião que acabara de cozinhar, e encheu-lhe a boca com umas colheradas bem-cheias para lhe restaurar as forças, sopa que gorgolejou alegremente na sua boca escancarada quando ele expirou com força.
O piso térreo do Shopping está ao nível da rua, e possui um átrio desimpedido do qual se vê o tecto, com as galerias comerciais que correm em volta, nessa tarde, haviam deixado as portas da rua abertas de par em par, e por essas portas entrou um cavalo castanho e lustroso, a passo, sem sela nem cavaleiro, polarizando a atenção de todos, compradores, passeadores e curiosos patológicos. O cavalo avança até ao centro do átrio, imobiliza-se durante longos minutos a sacudir a cauda, e olha em volta como se também ele mirasse de longe as montras, depois, faz meia-volta e volta para a rua, sempre a passo, com uma calma infinita. Mesmo depois dele sair, algo desse cavalo permanece no Shopping, as imagens retidas na memória como um filme indelével, as caganitas em forma de pequenas bolas que ornam as lajes do átrio.


Fotomaton, ou vampirismo light

Senta-se num banco numa rua pedonal entre prédios, está uma tarde agradável, morna e palpitante como um corpo que repousa, puxa dum bloco de notas e de uma caneta, e sorve o ambiente com as narinas dilatadas do seu espírito (também nunca foi nenhum Ás em anatomia), ao nível da copa das palmeiras com cachos soçobrantes de pequenos frutos, uma senhora de cabelos brancos com tótós dependura roupa no estendal de chão duma marquise em vidro e alumínio, por baixo dela, há uma esplanada com mesas de plástico, delimitada por pinos altos por onde passa uma corda de marinharia em sisal, nas mesas há pessoas que contrariam o calor com cervejas e pires de amendoins, que comem depois de esboroar as suas cascas teimosas, acima de todos alguém deixou uma janela aberta num apartamento para partilhar os seus gostos musicais, e os feiticeiros Creedence Clearwater Revival cantam I Put A Spell On You, mas não surte efeito, a mulher continua a sua dança de peças e molas de roupa, os amendoins continuam a …

Urbanismos

As varandas são estruturas simpáticas na fisionomia dos prédios. São como os seios duma mulher. Avançam sobre o espaço que têm à frente e criam no ar um lugar prometedor para o nosso deleite.
«Sou um opositor incondicional de todo o tipo de violência e, como tal, sou perfeitamente capaz de agredir qualquer anormal que defenda a sua utilidade!».


Vigília constante

Durante as campanhas eleitorais, antes das eleições e mesmo depois destas, os espelhos não deixam de manter o seu período de reflexão.
(Só é preciso conseguir parar um pouco, ter coragem e determinação para parar um pouco, para nos apercebermos de que as coisas e os planetas continuam a andar á mesma sem o nosso esforço esgotante de todos os dias).
A natureza leva apenas setenta e quatro semanas a dissolver completamente os elementos químicos que constituem uma beata de cigarro largada no chão, mas, em compensação, os pulmões alcatroados são estradas que duram uma vida inteira.

- O que a senhora tem é um sopro no coração! - Que engraçado! O senhor doutor vê como as coisas mudam? Quando eu era pequena tinha crises de falta de ar, agora, com esta idade, é o inverso!

Post-vérbio

Filho és, pai serás! – diz a cultura popular, lembrando a cada um a eventualidade do papel de pai, altura em que dará o devido valor ao que custou aos seus prover a sua educação, alimentação e conforto durante anos a fio (sempre e quando isso sucede).Pai és, filho serás! – prolongamento cíclico do provérbio anterior, quando a um indivíduo, depois de acumular a experiência de ser filho, e depois pai, se vê conduzido à condição de ser filho de novo, necessitando do auxílio dos seus filhos como se estes fossem seus pais, carecendo de apoio e cuidados, na saúde que definha, e na memória que se esvai.

Explicação

Na primeira planície do Céu, uma alma recém-chegada arruma num canto os sacos com dinheiro em notas, e caixas de madeira com barras de ouro. Uma alma ociosa que passava perto, não resiste a perguntar-lhe.- Como é que conseguiu? Sempre ouvi dizer que a gente não conseguia trazer nada cá para cima!- Lá em baixo eu era banqueiro, e não muito honesto – confessa ele - o meu Banco morreu comigo!

Ângulo inverso

Os dois formavam um casal moderno, aberto, livre de se envolverem com quem lhes apetecesse, e isso nunca havia maculado a sua relação. Nessa manhã, ao pequeno-almoço, ele perguntou-lhe casualmente:- E então ontem à noite? Divertiste-te?Era uma pergunta comum entre eles, não descreviam, mas aludiam às suas aventuras, sem constrangimentos nem culpas.- Ontem foi bom – avaliou ela – a companhia foi boa, um homem interessante, com graça, a conversa foi agradável, o jantar foi óptimo, e o sexo ainda melhor.Mas ele conhecia-a há muito tempo, algo indefinido na sua voz soou-lhe a falso, como se um detalhe ínfimo dum quadro que admirasse todos os dias tivesse sido profanado e alterado. A casa estremeceu até às suas fundações.- Não foste capaz! Como é que foi possível?- Não me apeteceu, queria mais estar em casa e contigo, apetecia-me mais um mimo dalguém que gosto, do que uma noite com um estranho- Foste-me fiel! Não posso acreditar, não tinhas o direito de me fazer uma coisa dessas, vais-me f…
Rezam as crónicas históricas que um dia Júlio César encontrou uma estátua de Alexandre o Grande e chorou aos seus pés porque, na sua idade, já Alexandre tinha conquistado o mundo e ele ainda não realizara nenhuma conquista que merecesse ser evocada. Marcel Dupret, nos seus Mémoires du Languedoc, conta que Voltaire conhecia essa história e que um dia, nas caves dum museu de província, vendo-se diante dum busto partido de César e de uma estátua sem pernas de Alexandre, desatou a chorar, mas de riso, porque os dois homens se tinham entregues a missões tão tolas, e tinham chegado aos nossos dias como dois bocados de rocha maltratada. Não se deve, no entanto, dar muito crédito ás palavras de Dupret, que afirmou noutra passagem que César e Alexandre eram dois duques normandos que gostavam de hidromel, e que Voltaire usava uma peruca farta para disfarçar os dois corninhos que lhe haviam crescido na cabeça por satirizar a igreja do seu tempo.

Agridoce

Para compensar a sua pouca habilidade nas artes venatórias, decidiu usar um galgo para a caça à lebre no Alentejo, mas isso não lhe trouxe mais caça nem mais motivos para se vangloriar perante os seus companheiros de caçada. Uns anos mais tarde, os seus empregados queixaram-se de que a ventilação das suas minas era insuficiente, e que conseguiam sentir o cheiro do metano. Céptico, foi verificar pessoalmente. Para não ficar intoxicado, levou um pardal dentro duma gaiola e foi descendo a mina, sempre atento para ver se ele manifestava algum comportamento invulgar. O pardal não deu nenhum sinal que o alarmasse, mas ele ficou no fundo da mina, adormecendo primeiro antes de adormecer de vez. A moral da história é só uma - para algumas coisas, não se deve usar animais empalhados.
É dia de semana, e Isménia não tem o que fazer, está de férias, e sente-se emburrada. Vai até ao quintal, um terreno maninho com ervas daninhas e algumas malvas bravias. Vou arrancar as ervas, lembra-se, mas logo a sua preguiça argumenta com ela - são apenas ervas numa terra maninha, não são daninhas porque não fazem dano a ninguém, alimentam os caracóis e as lesmas, que alimentam os pardais, que alimentam o nosso olhar com o fremer nervoso das suas asas. Vou fazer chá de malvas! Decidiu em recurso, e desta feita a sua preguiça não argumentou nada. Acercou-se duma com as mãos enluvadas, deu uns golpes com o sacho em volta das raízes, e arrancou a planta com a veia do pescoço a trair o esforço. Ergueu-a no ar em triunfo e carregou-a para a cozinha para fazer o seu chá, mas antes de entrar em casa teve de esperar um pouco. A preguiça peluda estava suspensa do aro superior da porta, e deslocava-se transversalmente, movendo com uma lentidão exasperante as patas de garras alongadas.
Ao contrário do que se crê, uma mesma árvore foi atingida duas vezes pelo raio durante uma tempestade. Na primeira, o raio rachou o tronco em dois, na segunda, colheu um homem apavorado que acreditava que o raio nunca cai duas vezes no mesmo sítio.

Saudade

Depois duma vida inteira a ganhar a vida no estrangeiro, reformou-se e decidiu que era altura de regressar a Portugal. Voltou de barco, e a alguns quilómetros da costa meteu conversa com um estranho que estava ao seu lado na quilha do navio, e não se coibiu de partilhar com ele:- Sinto-me feliz, já sinto o cheiro da minha pátria.Nesse instante, o navio foi abalroado por outro navio e naufragou ao fim dalgumas horas. Os dois reencontraram-se num bote salva-vidas, e o estranho observou com algum ressentimento:- Você não me tinha dito que tinha nascido na Atlântida.

Maus fígados

Comprou a sua escrava num leilão no porto, junto ao amplo cais de pedra onde acostavam as naus, e levou-a para sua casa para a ter ao seu serviço, e talvez, cobrar as prerrogativas sobre o seu corpo jovem. Durante o caminho para a casa do amo, a escrava olhava constantemente em volta, curiosa, mas o seu novo dono não gostou. “Arrancar-te-ei os olhos para que não mires outros homens”, prometeu a si mesmo. Em casa, enquanto aquecia na chama a lâmina do punhal com que executaria o acto, uma outra escrava mais antiga, explicou á jovem as intenções dele, e ela caiu em pranto. Usando a outra como intérprete, a jovem escrava fez saber ao seu amo que não olharia mais em volta, mas sempre para cima, para as nuvens, para que ele não se sentisse ofendido. O seu dono aceitou, e a nova escrava ancorou o seu olhar no azul do céu, e assim cumpria as suas tarefas diárias, e mesmo no leito dele, era ao tecto que mirava, esse pálido céu encarvoado que ocultava a noite e as estrelas. O acordo foi respei…

Personagem

Ela dissera-lhe um dia - Não quero nada contigo, não quereria, nem que fosses o último homem á face da terra! Agora, ele está outra vez ao seu lado, e é o último homem á face da terra, não há mais ninguém. Ele conhece o poder do seu orgulho, mas já surpreendeu o desejo nos seus olhares dissimulados. Durante a noite, ele passa a visitá-la coberto com uma pele de cordeiro, amam-se e acarinham-se entre palavras e balidos. Com esse estratagema, ambos mitigaram a sua solidão, e ela pôde manter a sua palavra.
Encontrou no passeio o seu amigo, que fora pai há um par de semanas, cumprimentou-o efusivamente e quis saber do filho pequeno.- Então e o rapaz? Tudo bem com ele?- Tudo, tem ido ao peso e está tudo bem.- E ele dá boas noites?- Não, ainda é cedo para isso! Ele ainda não fala nada, por vezes, antes de adormecer, solta um arroto sonoro e emite uns sons abafados misturados com a baba.

Noite e ombros surdos

As Palavrasde António Ramos Rosa ("Gravitações", 1984)

Adiro a uma nova terra, adiro a um novo corpo As palavras identificam-se com o asfalto negro o tropel das nuvens a espessura azul das árvores acesas pelos faróis o rumor verde
As palavras saem de um ferida exangue de teclas de metal fresco de caminhos e sombras da vertigem de ser só um deserto de armas de gume branco
Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos e há palavras como giestas vivas
Matrizes primordiais matéria habitada forma indizível num rectângulo de argila quem alimenta este silêncio senão o gosto de colocar pedra sobre pedra até à oblíqua exactidão?
As palavras vêm de lugares fragmentários de uma disseminação de iniciais de magmas respirados de odor de gérmen de olhos
As palavras podem formar uma escrita nativa de corpos claros

As duas faces da moeda

Imagem
Sexta-feira de manhã, o pequeno César do subúrbio acorda bem-disposto. Ao seu lado na cama, e depois de uma noite de sonho, a sua deusa platinada dorme. Levanta-se, veste o roupão de seda e prepara-lhe o pequeno-almoço e leva-o á cama. Ela acorda estremunhada com o beijo nos lábios, soergue-se na cama com um sorriso doce e come com vontade. Conversam um pouco, sobre o que poderão fazer no fim-de-semana. Nenhum dos dois tem pressa, mas ela tem de ir trabalhar, não é como ele, que leva uma vida repousada orquestrando os seus homens e os seus negócios com chamadas telefónicas. Ele senta-se no sofá do quarto e admira-a enquanto se veste. Quando ela se despede, melhor, quando ela abre a porta do quarto para sair, ele sente uma angústia repentina a inundar-lhe o peito como uma onda gelada, tem a impressão nítida, avassaladora, de que não vai voltar a vê-la naquele dia. Ainda ela não saíra à rua, e já ele estava em conversa com o seu homem de confiança nas ruas, o Adérito.- Tenho um trabalho…

(des)conhecidos

Quando se mudou para o bairro novo da periferia, aos poucos, começou a conhecer um pouco melhor a vizinhança. Um dos primeiros rostos que se tornou familiar era o de uma jovem que morava um pouco mais abaixo na sua rua, na outra margem desta. Ambos saíam para o trabalho por volta da mesma hora e cruzavam-se sempre, pelo que se começaram a cumprimentar com um aceno da cabeça ou um sorriso como ilustração de um Bom-dia mimado pelos lábios. O curioso é que a vizinha devia ser estrábica porque enquanto um dos olhos fitava a rua em frente, o outro olhava enviesado o espelho retrovisor do lado direito. Por força do acaso, os dois encontraram-se na mercearia do bairro, apresentaram-se ambos e ficou a conhecer o seu nome, mas, coisa estranha, aí ela não lhe pareceu estrábica já que os dois olhos o fixavam de forma igual e paralela.- Desculpe a indelicadeza, mas vendo-a na rua, cheguei a pensar que você sofria de estrabismo.- Ora essa! Não é indelicadeza nenhuma, e não sofro de estrabismo – e …
Diz-nos o senso comum que uma rede de malha pequena capturará os peixes pequenos e grandes, e um de malha mais larga, capturará os peixes maiores, mas deixará passar os diminutos. Duma forma anómala, a tendência é para que as malhas da justiça apanhem sempre o peixe miúdo, que não tem como escapar, enquanto os peixes maiores conseguem tantas vezes esgueirar-se por uma malha que era suposto detê-los.

A vida das pessoas tem de se mexer sempre num sentido, como as natas, para não destalhar como as natas, é desaconselhado mexer num sentido e no sentido inverso, mudar de ritmo, ou de colher, parar a pensar porque se mexe, é forçoso e ideal que tudo se mexa em sintonia do nascimento á morte e depois dela, os mesmos padrões, escolas, ideais, crenças. Depois, quando as natas estiverem batidas em castelo, vão ao forno a crestar, ou deitam-se fora por já estarem azedas. Este último, é um revés que acontece de cada vez que alguém mexe em sentido oposto, ou pára um momento de mexer por julgar que já chega.

Naquele casal, se havia algo que tinham em comum, era uma aversão profunda pelas lides domésticas – limpar, arrumar, e voltar a limpar, era um suplício constante, como uma espada (suja) de Dâmocles a pender sobre as suas vidas. A louça ia-se acumulando em pilhas em alguidares de plástico, até não conseguirem encontrar um prato, um talher ou um copo por usar, e resignarem-se, num esforço conjunto a arrumar a louça na máquina e pô-la a trabalhar. O mesmo acontecia com a roupa, que usavam até ficar tão inteiriça que não dava para vestir, condição na qual a amontoavam numa dependência para arrumos, onde ficava a cozer no sal do suor, até um deles, ou ambos, chegarem á situação crítica de terem de sair de casa do mesmo modo inocente com que tinham vindo ao mundo. Com a limpeza da casa, nem se incomodavam a pensar, que se soubesse, nunca se vira um cotão de pó petrificado, e, como tal, não havia nada que os fizesse recear passearem-se nesse tapete macio e algodoado com a desenvoltura dum ci…

Com a corda toda

Manter aberto ao público, uma pequena loja de antiguidades especializada em relógios, era o cabo dos trabalhos. O senhor Maltez Filipe dedicava todo o seu tempo a manter vivas essas pequenas maravilhas da técnica, limpava-os, consertava os que se avariavam, mudava molas e rodas dentadas, restaurava o ouro e a prata das suas paredes delicadas, reavivando os detalhes das inscrições. Enquanto trabalhavam, dava-lhes sempre corda e acertava, com uma fidelidade religiosa. Como extensões de si mesmo, acompanhavam a marcha do tempo com a cadência harmoniosa de uma metrónomo, e se algum se evadia desse ritmo, Maltez Filipe retirava-o de imediato para a sua bancada de trabalho e armava-se do monóculo negro para o operar. Mas, tal como os médicos que precisam de outros médicos para os tratarem, ou os advogados que recorrem aos seus pares quando pulam a trincheira das leis, Maltez Filipe, o antiquário-relojoeiro, recebia amiúde a visita dum outro antiquário-relojoeiro, que vinha a sua casa para s…

Cinturão negro com estrelas

Usar um Cinturão de Oríon, é a mais elevada categoria de artes marciais dos extraterrestres.
Hundapata, a centopeia, desceu até ao solo junto á árvore onde vivia, e sentiu-se inebriada de poder e ambição – “Hoje conquistei este pedaço de terra, amanhã conquistarei o mundo, a missão sagrada para a qual nasci tem, finalmente, pernas para andar”. Ainda mal tinha completado este pensamento e foi esborrachada pela bota militar duma criatura bípede. Eva Hundapata, a amante do grande conquistador, assistindo em agonia a esta cena atroz, lançou-se da árvore para o cabelo do assassino, procurando espezinhá-lo com as suas cem patas.

A empregada da imobiliária foi recebida á porta por Anaveldo Tomásio.- Quero vender a minha casa! – recordou Anaveldo Tomásio.Ela olhou em volta, fazendo uma avaliação silenciosa. À excepção duma cama de rede estendida num canto entre duas paredes, a casa estava vazia, não havia móveis, livros, televisão, cortinados com pendentes. As paredes nuas e brancas, como uma ala de hospital.Enquanto ela examinava as divisões, Anaveldo tossia persistentemente para o ar, como se tivesse os pulmões colados ás costas.- A casa tem pouco valor, está despida e não tem recheio nenhum.- Agora já tem! – retorquiu Anaveldo – acabei de a rechear.