Um tríptico de Kafka

Má Sorte de Ser Solteiro

«Que coisa horrível, ficar-se solteiro e acabar como um homem envelhecido a lutar para manter alguma dignidade, ao mesmo tempo que se tem de rogar por um convite sempre que se quer passar um serão em companhia, ficar deitado e doente durante semanas e semanas a olhar para o mesmo quarto vazio do canto onde está a cama, dar-se as boas noites à porta de casa, nunca subir pelas escadas ao lado da esposa, ter apenas portas laterais que dão para o quarto de outras pessoas, ter de trazer o jantar para casa, ter de elogiar os filhos dos outros sem ter sequer o direito a dizer "eu não tenho", seguir, em aparência e no comportamento, um outro solteirão de que nos lembremos na infância.
É assim que há-de ser, excepto que, em boa verdade, tanto hoje como no futuro, havemos de ter uma mão real e uma cabeça concreta, uma testa concreta, para dar com a palma da mão»


Desiste!

«Era de manhã bem cedo, as ruas limpas e desertas. Eu ia a caminho da estação. Ao comparar o relógio da torre com o meu, apercebi-me de que afinal era bastante mais tarde do que eu julgara, pelo que tinha de apressar-me. O choque da descoberta fez com que eu começasse a duvidar do caminho, ainda não conhecia a cidade suficientemente bem. Felizmente lá estava um polícia, ali perto. Corri para ele e, ofegante, perguntei-lhe o caminho. Ele sorriu e retorquiu: "Estás a perguntar-me o caminho a mim?", "Sim" - disse eu - "Eu sozinho não o encontro". "Desiste! Desiste!", disse ele, e virou-me as costas num movimento brusco e repentino, como quem pretende ficar sozinho com o seu riso».


Momentos de Distracção à Janela

«O que havemos de fazer com estes dias de Primavera que se aproximam a passos largos? Hoje de manhã o céu estava cinzento, mas se fores agora à janela vais ficar surpreso e encostar a bochecha ao caixilho.
O sol já se está a pôr mas, lá em baixo, na rua, vês que ilumina o rosto de uma menina que se passeia absorta no preciso momento em que é eclipsada pela sombra de um homem que a ultrapassa.
Mas depois o homem passa e a cara da menina fica iluminada».


(Franz Kafka, Contos, Cavalo de Ferro Editores, 2004)

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