Troca(ca)dilho

Quando acolheu a irmã em sua casa, fê-lo com toda a afeição e tolerância que possa existir entre duas irmãs, ela acabara de sair dum divórcio conflituoso que pôs fim a trinta anos de casamento, e sentia-se ansiosa e insegura, a andar á deriva numa casa que se tornara enorme e vazia. Ela afiançou-lhe que podia ficar em sua casa o tempo que quisesse, até reaprender a suster-se sobre os seus próprios membros e enfrentar o universo. A irmã aceitou, agradecida, estava um caco, com a saúde e os nervos debilitados e a precisar desesperadamente dum ponto Arquimédico, sólido e fiável. Á medida que os dias e as semanas passavam, pareceu á irmã que esse ponto Arquimédico era o seu próprio marido, que a irmã parecia admirar veladamente, com o olhar preso dos seus movimentos e bebendo as suas palavras. Quis acreditar que era imaginação sua, uma insegurança tola da meia-idade que atravessava, e que não havia razão para abortar a hospitalidade oferecida á irmã, mas tudo se aclarou quando a surpreendeu no seu quarto, sozinha. Sem se dar conta de que ela a observava na penumbra da entrada, a irmã virava e revirava um casaco e uma camisa usada que o marido deixara nas costas duma cadeira, encostava as peças ao seu rosto com uma expressão lânguida e aspirava com intensidade os seus odores, o cheiro da pele mesclado com o dos perfumes que ele usava, e prosseguiu a sua busca sensorial, vasculhando no cesto de vime do W.C. a roupa que ele aí havia deixado para lavar. A presença da irmã ao seu lado, fê-la levantar-se dos mosaicos onde se tinha ajoelhado, ainda segurando na mão uns boxers às riscas. A irmã não precisou de dizer nada, e ela abandonou o quarto com o olhar esquivo, sabia bem qual seria o desfecho daquele período de refúgio, sobretudo, depois de ter sido apanhada assim, em fragrante delito.

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