A tampa

Por um hábito adquirido e mantido durante anos, a velha senhora cozinhava sempre no lume, usando um velho tacho enegrecido por fora pelas labaredas. Uma vez mais, preparou-se para fazer uma sopa, ateou o fogo e enquanto o fogo ganhava fôlego, pôs o tacho com água ao lume, sobre ferros assentes em dois tijolos de barro vermelho. Cantarolando baixinho, foi despejando lá para dentro os ingredientes que preparara, os vegetais descascados ou cortados a preceito, a carne e uns bocaditos de chouriço para dar força. Mas quando quis tapar o tacho, teve uma surpresa. A tampa não tapava. A velha tampa que casava sempre com a borda do tacho, ficava levantada, como se um dedo invisível a mantivesse suspensa a meio sobre o líquido borbulhante. Como poderia ter acontecido? Perguntava-se. Não se lembrava de ter deixado cair o tacho, e não tinha recebido visitas nos últimos tempos, pelo que não tinha a quem atribuir o dano descoberto. Talvez a gata… Ela gostava de ir para ali pela manhã esticar-se na bancada ainda cálida, o pêlo negro camuflado diante dos tijolos enegrecidos, mas se a gata tivesse deitado o tacho ao chão, não teria forças nem esperteza para o apanhar do chão, e ela de certeza que não apanhara tacho algum do chão. E nestes pensamentos e divagações sobre a tampa e o tacho, foi fazendo a sopa, mexendo, provando, rectificando o sabor, e a tampa a teimar, e a tampa que não tapava, e mais um pouco de sal, e um fiozinho de azeite. Quando terminou, retirou o tacho dos ferros, e colocou-o sobre uma base. Com um pano de cozinha dobrado, levantou a tampa e aspirou com força o aroma quente. Agora que acabara, era a altura de se servir dela com uma concha, mas antes, e com mil precauções para não se queimar, retirou de dentro do tacho, a pedra lisa e cilíndrica como um seixo gigante cuja extremidade superior sobrepujava a borda do tacho. Tirou a pedra, e a sopa da pedra para a sua tigela, tapou o tacho com a tampa, e constatou com alegria que a tampa já tapava o tacho. Deste modo, a sopa soube-lhe ainda melhor.

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