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O sal da terra

Estava a chegar aos quarenta anos, e começou a andar angustiado, com uma ligeira e nebulosa indisposição que ameaçava alastrar numa cólica e náusea incontroláveis que o deixariam desidratado e seco como o cereal na eira. Andou dias, semanas, com esse desconforto no corpo e na alma, e dava consigo a inquirir os animais da fazenda sobre o seu futuro, a mulher acompanhava-o nas suas andanças de sempre, o trabalho árduo no campo e na pequena criação de porcos, amanhar os campos, alimentar os animais, limpar, mondar, fresar, sulfatar… Esfanicavam-se os dois de esforços e desforços, e a paga era a mesma, ou mingava, cada vez conseguia menos dinheiro nas idas ao mercado, e o homem que lhe comprava os animais, pendurava-se da boleia do seu camião e enrolava um cigarro humedecendo as pontas com uma língua rosada, enquanto falava da crise mundial para justificar a baixa cotação dos porcos, e os quarenta ali à porta, e ele estava a ficar farto, e mais farto ficava quando se punha a evocar os dias nem tão distantes assim em que comprara a fazenda, cheio de tusa para trabalhar e ganhar dinheiro, a mulher vigorosa ao seu lado, grávida – seria o primeiro de quatro abortos – a apontar com o dedo roliço o sobreiro onde podiam montar um baloiço para as crianças (ela falava sempre no plural), e agora estava nos quarenta, sem filhos e sem dinheiro. Vamos sair daqui, disse à mulher, vendemos os porcos ao senhor água-de-colónia, vendemos a casa e vamos para o estrangeiro, atravessamos a fronteira e vamos trabalhar para lá, que pelo menos lá eles dão valor a quem trabalha. E assim fizeram, venderam tudo, por menos dinheiro do que venderiam se não quisessem vender, mas venderam, e mudaram-se de armas e bagagens para o outro lado da fronteira, e compraram uma propriedade rural que estava à venda na berma da estrada. Estavam a começar de novo, a casa pequena precisava de obras e tinham de fazer a puxada da água, mas prometia, e logo á chegada, a mulher apontou com o dedo roliço um sobreiro junto á casa onde podiam montar um baloiço para a criança, ou um banco de madeira para os dois descansarem nos anos da velhice. E os dois esfalfaram-se de novo a trabalhar, para por as coisas em pé e retirarem o sustento das terras e dos animais, e as coisas não melhoraram muito, pelo menos, muito mais do que quando estava no outro lado da fronteira, e já caminhava para os sessenta.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...