- O que é que vendem aqui? Estão tantas pessoas á porta!

- Não vendemos nada, oferecemos a imortalidade…

- Como é isso possível?

- Digamos que o senhor é uma pessoa saudável, um complexo harmonioso de órgãos e glândulas a trabalharem impecavelmente e sem esforço. O senhor dá o seu nome, e numa data a combinar entre as duas partes, o senhor vem aqui e nós desmontamos os seus órgãos e tudo o que tiver de reutilizável, o que equivale a dizer que atinge a imortalidade.

- Mas isso não é um exagero? Afinal, sou recolocado em outros corpos que, por sua vez, morrerão num dia mais ou menos próximo – e volto á estaca zero.

- Não é bem assim, tente ver o quadro completo, se os seus órgãos e glândulas ajudarem vinte pessoas a viver, e se somarmos o tempo de vida dessas pessoas, isso quer dizer que através delas você vive vinte vidas diferentes e um cômputo invejável de vários séculos, além disso, ou porque alguma dessas pessoas possa eventualmente ser criogenizada, ou dar-se esse destino a algum dos seus órgãos não aplicados em outras pessoas, e a fasquia de tempo dispara em direcção ás nuvens, o que é muito mais reconfortante do que sabermos que somos como um caniço pensante como rezava o velho Pascal, mas um caniço frágil, e que de um momento para o outro poderá ser destruído de mil formas, ou enlouquecer até perder a noção da corrente que corre á sua volta.

- Dito assim, a ideia até não me desagrada. Mas como é que as pessoas escolhem uma data para serem desmontadas para peças? Elas não oferecem resistência, ou desistem quando chega o dia?

- Não existem motivos para tal, o dia acordado é apenas uma formalidade cirúrgica, a pessoa pode vir cá para ser seccionada, e manter doravante a sua vida regular de todos os dias, o seu emprego e os hobbies, a família e os amigos, jogar futebol e passear o cão ao fim do dia. Se as duas coisas fossem inconciliáveis, não tínhamos tantas pessoas a dar o seu nome para se habilitarem a serem imortais.

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