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A nova retina

Ela saiu para ir á praia com os filhos, e ele sentado na sala da casa de família, com o portátil nos joelhos, numa concentração devota, voltou e ele ainda lá com algumas migalhas em volta dos sapatos e um lata de refrigerante vazia ao seu lado no sofá, ela deixou-o ficar, foram ao Centro Comercial, e á gelataria, e regressaram com o sol nos olhos, mas ele não saíra do mesmo sítio. Sem exaltações, a mulher levantou o portátil diante do seu olhar ansioso, e pousou-o em cima da mesa.
- Vai apanhar um pouco de ar, faz-te mal estares tanto tempo assim, para a semana voltamos para Zurique e tu ainda não viste ninguém da tua terra. Olha, a tua prima Júlia está sentada no miradouro, vai até lá e conversa um pouco enquanto nós tratamos do jantar!
Ele levantou-se contrafeito, incompleto como a tarefa que estava a fazer, mas lá se decidiu a sair de casa, empurrado pelos olhares de censura da sua famelga. Chegado cá fora, olhou em volta como um peixe fora de água. Sim, o miradouro, já se lembrava! Subiu a colina em passadas largas, e encontrou a prima sentada num banco a olhar o vale lá em baixo, com um ar melancólico.
- Olá prima, como tem passado?
- Bem! E o primo! Não acha que está um pôr-do-sol maravilhoso?
Ele olhou o vale como ela, mas não soube dar uma resposta.
- Espere um momento - pediu - volto já!
Correu até casa, resgatou o portátil e voltou a correr para o miradouro.
Abriu o portátil em cima do banco, ligou-lhe a webcam virada para o vale, e esperou até ter uma imagem enquadrada da paisagem.
- Tem toda a razão, prima - respondeu com os olhos fitos no monitor - está um pôr-do-sol lindo!!


8 comentários:

  1. Houve uma época em que se usava um ditado com relação às pessoas que eram encarceradas. Dizia-se: "fulano/a vai ver o sol nascer quadrado"
    Como podemos deduzir, hoje quase todos estamos presos, vemos a vida a partir de telas quadrangulares. Seu conto ilustra bem esta triste realidade!

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  2. O ditado ainda se usa, com a sua carga de ironia e humor.

    As telas dos computadores acabam por ser a sombra que a realidade imprime no fundo da Caverna, numa existência em que vivemos limitados e tolhidos por nossa expressa vontade.

    Mas olhando de outro prisma, essas sombras, como aquela em que mergulha o Sol durante um eclipse total, permitem-nos ver a aura do sol que, de outro modo, se ocultaria por trás do seu brilho. O que vemos através do monitor, pode enriquecer o que os nossos sentidos recebem directamente. O que importa é conseguir manter o meio-termo, o ponto de equilíbrio e tensão entre os extremos.

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  3. maria.c21:12:00

    regularmente faço desnetificação. são periodos de sossego em que se ganha muito em termos de percepção da visão, do cheiro, de ritmo. acabei de fazer uma. estou em forma para mas um ano.

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  4. Gostei dessa, desnetificação!

    Essa privação deliberada faz-me lembrar uma pessoa das minhas relações, que durante o ano inteiro come e bebe como uma besta, e no Outono vai uma semana para as termas do Gerês para limpar o organismo; e depois fica pronto para mais um ano pantagruélico ;)

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  5. maria.c14:43:00

    sim, talvez seja uma besta da net...:)

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  6. Besta era o outro, o paralelismo foi inadvertido, you know me!

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Rainha

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