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Mais palavras do que dias

Adélio, um homem misantropo na casa dos trinta viu-se um dia de regresso a casa dos pais, depois da morte destes. No escritório que fora do pai, admirou a quantidade de livros que compunham a sua biblioteca, e que o bom homem fora reunindo durante anos a fio, movido pelo seu amor ao conhecimento e á arte. Pensando bem, pensava até que seriam mais livros do que aqueles porque sempre, desde a mais tenra infância, se lembrava do pai enfronhado neles com uns óculos de muita graduação e a atenção ausente, a galáxias de distância, e, pensando ainda melhor, considerou que a totalidade daqueles livros deveria representar uma parte substancial do génio humano. Nesse instante, decidiu que os tinha de ler a todos, sem o que não se consideraria digno de ser detentor de alguma sabedoria. Esse escritório tornou-se a sua morada, e começou a ler o primeiro livro da primeira estante á direita da porta de entrada, e durante anos, foi-os lendo a todos, um por um, percorrendo as estantes de cima para baixo e passando para a prateleira seguinte no sentido dos ponteiros do relógio. Organizou a sua vida em função dessa cruzada íntima e dedicou á leitura todos os momentos que conseguia reunir, e que não eram tantos como desejava porque tinha outros afazeres e encargos que o disputavam, mas, fosse como fosse, quando completou a soma redonda dos setenta anos, acabou de ler o último livro da estante inferior da prateleira à esquerda da porta de entrada. Sentou-se num sofá a descansar, não se sentindo mais sábio ou inteligente com tanta leitura, e enquanto se servia de uma bebida num pequeno bar com a forma de uma barrica de vinho, sentiu, pela primeira vez em tanto tempo, uma pequena corrente de ar que lhe agitava os pêlos do braço. Acendeu o isqueiro pousado ao lado da caixa de charutos e descobriu que a corrente de ar circulava entre a porta de entrada e a prateleira do lado oposto da sala. Tocou nesta e constatou que ela tinha alguma folga, como se só os pés dum dos lados suportassem o seu peso, e num gesto reflexo, começou a mexer nos livros de toda a prateleira e nos embutidos em madeira do painel por trás destes, e a prateleira soltou-se com um clique e rodou sobre um varão metálico ao qual estava fixada. Abrira-se uma porta nova á sua frente, emoldurando um rectângulo de escuridão. Usando o mesmo isqueiro, levantou-o a arder sobre a sua cabeça, e descobriu umas escadas que desciam para uma cave, uma divisão de forma oval com as paredes revestidas de prateleiras cheias de livros. Voltou á biblioteca, a primeira, colocou a prateleira como estava, apanhou o seu casaco e abandonou a casa dos pais, deixando-a para trás, literal e metaforicamente. O sol já estava baixo e vestiu o casaco para se resguardar com a brisa fresca do entardecer. Sentia que não precisava de mais livros para arrostar os poucos anos que ainda poderia ter pela frente.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...