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Outros dados, e cartas, no final da página

A idade avançada, e problemas no seu cérebro, trouxeram-lhe alguma incongruência ao discurso, que se ausentava da realidade presente, desenrolando-se em evocações fragmentárias dos dias idos. O filho, sentado ao seu lado no jardim da casa secular, ouvia pacientemente, enquanto o pai evocava a escola primária onde andara, o trabalho nos campos de quando era novo, os camaradas da tropa, depois, falava de um filme que havia visto na televisão há uma semana, e logo a sua mente inflectia sobre si mesma e falava da garrafa de Porto que lhe haviam oferecido na véspera, quando o seu filho – ele, o filho adulto ao seu lado – tinha nascido no quarto grande da casa com a ajuda de uma parteira. O filho calou, calou e calou, assentindo com vagas exclamações e meias-palavras, apenas para facilitar o discurso. Nesse instante, o pai menciona a esposa, que naquela manhã fizera o café para ele levar no têrmo para o trabalho, e nesse ponto, o filho não pode condescender, e repara, muito seguro de si.

- Pai, a sua esposa, e minha mãe, já morreu há mais de vinte anos!

- Sim – reconhece ele, um pouco atrapalhado – mas não morreu dentro de mim!

O filho cala-se de novo e, desta vez, o seu silêncio não tem nada de artificial.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...