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Franz K

A borboleta voava sobre um prado florido, agitando as suas asas, quando, sem aviso e sem explicação, foi transformada numa lagarta. Envergonhada da sua condição, definhou enquanto se escondia dos outros, e morreu de tristeza e solidão. No instante em que a vida se extinguia no seu corpo minúsculo, a sua alma ergueu-se nos ares até à planície do nono céu onde as almas aguardam até reencarnarem novamente. Mas era uma alma de insecto, um ser pequeno e baço como um coágulo de gelo, muito diferente daquelas almas pretensiosas e trocistas, que disfarçavam a ansiedade tocando cítara e urdindo versos e canções. Fosse como fosse, a lagarta tinha saudades do Sol e do voo inebriante, e colou-se a uma alma que descia novamente para a terra, e com ela, entrou num corpo diminuto que crescia num ventre de mulher. Era o corpo de um rapaz, um rapaz diferente e invulgar, dividido, como se albergasse em si duas almas e dois mundos diferentes, que era o que de facto acontecia. Ao crescer, sentiu a necessidade imperiosa de escrever, e a sua imaginação comprazia-se em criar personagens ínfimos como moscas, esmagados pelo gigantismo de máquinas e sistemas políticos; e numa obra que tinha muito de autobiográfico, compôs a alegoria de um homem que sem aviso e sem explicação, se transforma num insecto solitário e assustado.


1 comentário:

  1. Creio que Kafka gostaria desta sua parábola sobre sua vinda.

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