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A festa

Depois do nascimento da criança, e logo após o regresso a casa, os pais convidaram a família de ambos os lados para se apresentar o recém-nascido. Vieram em peso para admirar e elogiar a criança e os pais, e pegar o menino ao colo para lhe fazer caretas caricatas, anichá-lo nos braços e abaná-lo como se o quisessem adormecer.
- Ai eu cá acho que tem o nariz do pai, mas o queixo da mãe ninguém lhe tira! - sentenciava uma matrona.
- Pode ser, mas eu penso que devemos procurar mais longe, mais para trás. Vejam estes punhos, são grandes e fortes, parecem as mãos do avô Francisco, e vejam os traços da boca, não é o bico dos Almeidas? O meu tio-avô tinha-a tal e qual, que Deus o guarde!
- Ah, mas aí eu não posso concordar. Sai mais ao nosso lado, é todo Antunes, como aquele do retrato da casa da minha mãe, estava a olhar para a cara do bebé e parecia-me que estava a ver a expressão desse nosso antepassado, que foi unha com carne com o rei D. Carlos.
- Eu cá acho que você está a exagerar, é Almeida sem margem de dúvida, veja estas orelhinhas delicadas, a maneira como ele inclina a cabeça, não é estar agora a falar de gente morta, mas o bebé lembra-me muita gente do nosso lado que já se foi e que eu consigo recordar porque sou a mais velha aqui dentro.
- Olhem, agora está a fazer beicinha. Olha Leonor, não parece mesmo o teu avô quando acordava com os lençóis molhados?
- E está a chorar, coitadinho, tem cólicas o meu menino, tem?
- Não - respondeu a criança - sou um infeliz porque não tenho nada que seja meu, mais vale baptizarem-me de Frankenstein!

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...