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Como tantos dos seus vizinhos, a família Xávega, tios, primos, avós, netos, que residiam em cinco habitações no decurso do ano, juntava-se toda numa mesma casa durante a época do Verão, subalugando as restantes e dividindo irmãmente os proventos. É prática comum na Nazaré, vive-se umas semanas mais aconchegados e aproveita-se os rendimentos ganhos aos turistas. Mas viver aconchegado era dizer pouco, porque a família Xávega tinha crescido muito nos últimos anos, muitos nascimentos, acompanheiramentos e casamentos. Na casa onde há dez anos tinham de coabitar uns sete adultos e um número idêntico de crianças, tinham de ser acomodados, agora, dezoito adultos e catorze crianças, algumas já cresciditas e a reclamar o estatuto e a privacidade de gente grande. Logo na primeira semana de vida em comum, chegaram á conclusão que a situação se tornara incomportável, não havia espaço para tanta gente, e também não queriam promiscuidade nem fazerem figura de feios, porcos e maus. A solução não veio da cúpula da família mas de um dos mais novos, do Hélder, um adolescente magricela e alto – «Porque é que não voltamos todos – perguntava - para as antigas casas» «Como é isso possível, seu puto ranhoso? Estão lá os madiés, não estão?», contestou o pai com voz grossa. O Hélder não cedeu e explicou o seu plano - «Durante o dia quase nunca estão lá, vêem á tardinha com as mercearias e as bebidas, voltam a sair, e á noite chegam tarde e dormem até poderem. Só temos de voltar ás nossas casas na ausência deles, e enquanto eles lá estiverem, fazemos de conta que somos peças de mobiliário. Eu, por exemplo, posso fazer de candeeiro de pé alto, daqueles com luz de halogéneo, a Rita, que é baixa e gorda pode fazer de puf, e por aí fora, louceiros, bancos, bancadas, mesas, roupeiros. Nós somos capazes!». Os outros reagiram entusiasmados, era uma forma sábia de lidar com a situação, e uma forma proveitosa já que tinham alguém que lhes atestava o frigorífico e a despensa. «E as crianças?», lembrou-se uma mãe preocupada. Todos os olhares se viraram para o Hélder, que parecia um Che de sardas, com um olhar de visionário esfregou o queixo e sossegou a inquietação: “As crianças podem ficar aqui mesmo, ou então, no sótão da casa do tio João, porque todas as casas têm terraço á excepção da dele, nesse sótão instalávamos um pequeno infantário familiar, e se os gringos que alugaram a parte de baixo estranhassem o ruído, dizíamos que se devia aos cata-ventos ferrugentos do telhado, que parecem crianças a chorar quando sopra o vento Suão». A assistência rendeu-se e alguns adultos bateram palmas enquanto o pai do Hélder rouquejava: «É mesmo meu filho, é esperto como eu!!».

2 comentários:

  1. Muito piada! Fico aqui imaginando as figuras fazendo de conta que são objetos... Já me ficou o receio de alugar alguma casa quando for a Portugal! Sabes lá quantos Hélder se espalham por aí?

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  2. Anónimo23:48:00

    Tens uma grande imaginação

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