A dissolução da memória - 2

Entre uma e outra margem do rio do esquecimento, as pessoas atolavam os pés na lama do fundo, ainda antes de se esquecerem completamente de quem eram, esqueciam-se da vontade de cruzar o rio, de sair dali, as suas forças e a sua vontade eram arrastadas na corrente como um grão de pólen e deixavam de ser capazes de se erguerem na outra margem sobre os músculos e nervos dos seus próprios membros (mas como eram tantos a cruzarem o rio, os que vinham depois empurravam-nos diante de si, e de um modo ou de outro acabavam todos por ir ter à margem oposta, imóveis sob a luz espectral, como se a brisa gelada que acariciava os seus cabelos fosse as ondas etéreas de um outro rio do esquecimento).

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