Causa óbvia

Três ou quatro vezes por dia contornava aquela rotunda do circuito periférico da cidade, uma rotunda comum semeada de altos como pequenas colinas relvadas, e uma estátua ao centro de uma ninfa ou danaide segurando uma ânfora com o bico virado para baixo, ela também olhava na mesma direcção como se contemplasse o líquido precioso derramado na terra.

E eram três ou quatro vezes, porque essas eram as vezes que o seu trajecto o levava por ali ao volante da autocarro da escola. Mas nesse dia, a ninfa e ele tiveram um encontro diferente. O autocarro ficou imobilizado junto á rotunda, enquanto a polícia tentava normalizar o trânsito, ensarilhado pelo choque entre dois carros a uma dezena de metros dali. Enquanto os condutores suavam sob um sol escaldante, e descarregavam a sua impaciência nas buzinas, ele entregou-se ao devaneio de admirar a estátua, como quem descobre uma cara amiga no meio duma multidão de estranhos. Mas não era o único a entregar-se a essa ocupação. Um fulano de rosto façanhudo e barba grande estava no meio da rotunda, junto á estátua, focando-a com a sua câmara digital em múltiplos ângulos e enquadramentos, ajoelhava-se diante dela como um suplicante, surpreendendo-a com o anil do céu sobre a sua cabeça, ora procurva um grande plano da sua face, ou um detalhe dos seus dedos esculpidos, ora saltitava em redor dela á à caça duma imagem diferente e sublime, uma dobra do manto, a asa da ânfora, a silhueta de sombra sobre a relva, e, como se isso já não bastasse, saltou para cima do pedestal num movimento simiesco, segurando-se á cabeça da ninfa com uma mão enquanto a outra continuava a disparar a máquina. A desfaçatez do indivíduo enervou-o, e, a palpitar de ciúmes, obrigou-se a despedir-se dela num silêncio magoado, enquanto o trânsito retomava a sua marcha.

No dia seguinte, quando passou de novo por ali, descobriu com espanto que a estátua já não estava lá, e a explicação era clara aos seus olhos, a ninfa tinha fugido, e a culpa tinha sido daquele tipo da véspera - ele deveria saber que as ninfas são seres furtivos e envergonhados.

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