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A mostrar mensagens de Agosto, 2009

Mais palavras do que dias

Adélio, um homem misantropo na casa dos trinta viu-se um dia de regresso a casa dos pais, depois da morte destes. No escritório que fora do pai, admirou a quantidade de livros que compunham a sua biblioteca, e que o bom homem fora reunindo durante anos a fio, movido pelo seu amor ao conhecimento e á arte. Pensando bem, pensava até que seriam mais livros do que aqueles porque sempre, desde a mais tenra infância, se lembrava do pai enfronhado neles com uns óculos de muita graduação e a atenção ausente, a galáxias de distância, e, pensando ainda melhor, considerou que a totalidade daqueles livros deveria representar uma parte substancial do génio humano. Nesse instante, decidiu que os tinha de ler a todos, sem o que não se consideraria digno de ser detentor de alguma sabedoria. Esse escritório tornou-se a sua morada, e começou a ler o primeiro livro da primeira estante á direita da porta de entrada, e durante anos, foi-os lendo a todos, um por um, percorrendo as estantes de cima para bai…

Troca(ca)dilho

Quando acolheu a irmã em sua casa, fê-lo com toda a afeição e tolerância que possa existir entre duas irmãs, ela acabara de sair dum divórcio conflituoso que pôs fim a trinta anos de casamento, e sentia-se ansiosa e insegura, a andar á deriva numa casa que se tornara enorme e vazia. Ela afiançou-lhe que podia ficar em sua casa o tempo que quisesse, até reaprender a suster-se sobre os seus próprios membros e enfrentar o universo. A irmã aceitou, agradecida, estava um caco, com a saúde e os nervos debilitados e a precisar desesperadamente dum ponto Arquimédico, sólido e fiável. Á medida que os dias e as semanas passavam, pareceu á irmã que esse ponto Arquimédico era o seu próprio marido, que a irmã parecia admirar veladamente, com o olhar preso dos seus movimentos e bebendo as suas palavras. Quis acreditar que era imaginação sua, uma insegurança tola da meia-idade que atravessava, e que não havia razão para abortar a hospitalidade oferecida á irmã, mas tudo se aclarou quando a surpreend…

eureka

Como tantos dos seus vizinhos, a família Xávega, tios, primos, avós, netos, que residiam em cinco habitações no decurso do ano, juntava-se toda numa mesma casa durante a época do Verão, subalugando as restantes e dividindo irmãmente os proventos. É prática comum na Nazaré, vive-se umas semanas mais aconchegados e aproveita-se os rendimentos ganhos aos turistas. Mas viver aconchegado era dizer pouco, porque a família Xávega tinha crescido muito nos últimos anos, muitos nascimentos, acompanheiramentos e casamentos. Na casa onde há dez anos tinham de coabitar uns sete adultos e um número idêntico de crianças, tinham de ser acomodados, agora, dezoito adultos e catorze crianças, algumas já cresciditas e a reclamar o estatuto e a privacidade de gente grande. Logo na primeira semana de vida em comum, chegaram á conclusão que a situação se tornara incomportável, não havia espaço para tanta gente, e também não queriam promiscuidade nem fazerem figura de feios, porcos e maus. A solução não veio…

Re-reconhecer

Num restaurante de atmosfera adensada pelos odores dos cozinhados e o fumo do tabaco, dois homens reconhecem-se junto ao bar – não se vêem desde os tempos da tropa, estão mais velhos e mais gordos, de cabelo ralo e barba crescida. Apertam a mão, cruzam apresentações ás respectivas acompanhantes, e despedem-se com uma palmada forte no ombro. Um deles lembra-se perfeitamente do outro, de lhe impor castigos e sevícias durante o período da recruta e, vê-lo tanto tempo depois, traz-lhe uma sensação de branda felicidade, como a que sentimos ao dar esmola aos que são mais miseráveis do que nós, mas o visado, este não se lembra bem, confunde-o com um outro sargento, mais simpático, que como despenseiro lhes facultava ás escondidas as iguarias da messe dos oficiais; mas enquanto se dirige á saída, a sua memória esgravata pela falésia ao encontro dos nomes e das caras dum passado distante, umas e outras dissociam-se e rodam á procura do par correspondente. Antes de atingir a porta, volta para t…

A nova retina

Ela saiu para ir á praia com os filhos, e ele sentado na sala da casa de família, com o portátil nos joelhos, numa concentração devota, voltou e ele ainda lá com algumas migalhas em volta dos sapatos e um lata de refrigerante vazia ao seu lado no sofá, ela deixou-o ficar, foram ao Centro Comercial, e á gelataria, e regressaram com o sol nos olhos, mas ele não saíra do mesmo sítio. Sem exaltações, a mulher levantou o portátil diante do seu olhar ansioso, e pousou-o em cima da mesa. - Vai apanhar um pouco de ar, faz-te mal estares tanto tempo assim, para a semana voltamos para Zurique e tu ainda não viste ninguém da tua terra. Olha, a tua prima Júlia está sentada no miradouro, vai até lá e conversa um pouco enquanto nós tratamos do jantar! Ele levantou-se contrafeito, incompleto como a tarefa que estava a fazer, mas lá se decidiu a sair de casa, empurrado pelos olhares de censura da sua famelga. Chegado cá fora, olhou em volta como um peixe fora de água. Sim, o miradouro, já se lembrava! …
Á beira da cama de uma doente em penoso estado terminal, e com o mesmo tom que uma mãe usa para acalmar o seu filho no leito, dizendo-lhe: «Foi só um pesadelo, já passou!», ele apertou entre as suas, a mão da mulher que amava, e murmurou-lhe: «É só a dor de todos os dias, já passa!».
António Fé tentou mover uma montanha e não conseguiu.
(só há uma moral para esta história: as montanhas são sexistas).

A errância e o erro

Aquele escritor absolutamente desconhecido apareceu nos escaparates das livrarias com uma obra com um título promissor: “Dilúvio – O Fim do Mistério”. Ninguém sabia qual o dilúvio que a obra tratava (nem folheando as suas páginas, nem lendo o livro por completo) – se o dilúvio dos patriarcas, o dilúvio de obras para-históricas e ambíguas como aquela, o dilúvio das monções, o das chuvas ácidas, o das parvoíces das campanhas eleitorais. Mas a obra vendeu bem, saiu navegando sobre as ondas da crise e dos bramidos dos críticos; e na casa do escritor, entrou-lhe pela janela uma pomba roliça com um ramo de oliveira no bico. Havia chegado o fim da errância.

O seu coração era um livro aberto, aberto a todos. Um livro escrito numa língua morta, num país de cegos, com hieróglifos que só ele conseguia interpretar. (Mas orgulhava-se da disponibilidade do seu coração).

Deus e o maquinista esclerótico

Deus escreve direito por linhas tortas,
o maquinista* vive torto por linhas direitas.

* (Também podia ser um escritor em vez dum maquinista, mas só se ele escrevesse num caderno de linhas ou tivesse os Chakras alinhados).

(indiscrição)

Porque sei que ela não me leva a mal, e porque, confesso, não consegui resistir, transcrevo um pedacinho dum mail da Angela (já agora, se seguirem o link, façam o favor de ler o Anima).
«Conheci um rapaz aventureiro que contava histórias mirabolantes sobre suas viagens. Uma delas, no Amazonas, contava como pegava micos. Dizia: - eles são imitadores por excelência. Então, chego a uma clareira e simulo lavar o rosto em uma bacia, coloco pimenta do reino na água e me escondo. Eles descem e chegam para lavar-se e ficam cegos momentaneamente, então venho com um saco e apanho vários, mas acabo por devolvê-los, pois as mães ficam nos galhos chorando e implorando pelos filhos de tal forma que me comovem e não consigo levá-los».
Quando morreu, o seu advogado, atendendo a um desejo manifesto, solicitou ao seu maior inimigo que comparecesse ao seu funeral «Porquê?!» Espantou-se este, e o advogado explicou «Ele achava que você, que o desejava morto, é o testemunho mais óbvio da sua vida».
Um anúncio de um elixir milagroso contra a queda do cabelo, apresentava o Antes e o Depois de um homem que o havia experimentado. Primeiro aparecia com uma calva que se podia polir com um pano de camurça, e na segunda fotografia, a imagem do Depois, o mesmo homem ostentava uma farta cabeleira, bigode espesso e patilhas compridas, como já não se viam. Na composição dum jornal diário, um empregado brincalhão trocou a ordem das fotos, e o homem cabeludo tornava-se desmatado com o elixir publicitado. Infelizmente para ele, os anunciantes não têm sentido de humor, e isso mereceu-lhe ser despedido. Mal ele soube, que um homem anónimo naquela cidade ficou-lhe agradecido – um velho calvo que viu o anúncio, sentado num banco de jardim, e que apertou o jornal contra o peito enquanto uma lágrima lhe rolava pela face. Finalmente, haviam-lhe feito justiça.

Quando os terrestres descobriram que o sexto planeta daquele sistema solar, era o que mais se assemelhava á Terra, elegeram-no para ser colonizado, e começaram a terraformá-lo. Introduziram alterações na composição da atmosfera do planeta que depressa reduziram o teor de amoníaco do ar até o tornar quase respirável, e novas espécies de plantas, criadas geneticamente em laboratório consolidariam as alterações, enquanto a primeira vaga de colonos se punha a caminho. Mal chegaram lá, acharam que o trabalho ainda estava longe de estar completo. Havia vastas áreas a precisar de ser cimentadas, porque só assim se sentiriam em casa; e traziam também na bagagem, umas quantas ogivas nucleares, para o que desse e viesse.

A festa

Depois do nascimento da criança, e logo após o regresso a casa, os pais convidaram a família de ambos os lados para se apresentar o recém-nascido. Vieram em peso para admirar e elogiar a criança e os pais, e pegar o menino ao colo para lhe fazer caretas caricatas, anichá-lo nos braços e abaná-lo como se o quisessem adormecer. - Ai eu cá acho que tem o nariz do pai, mas o queixo da mãe ninguém lhe tira! - sentenciava uma matrona. - Pode ser, mas eu penso que devemos procurar mais longe, mais para trás. Vejam estes punhos, são grandes e fortes, parecem as mãos do avô Francisco, e vejam os traços da boca, não é o bico dos Almeidas? O meu tio-avô tinha-a tal e qual, que Deus o guarde! - Ah, mas aí eu não posso concordar. Sai mais ao nosso lado, é todo Antunes, como aquele do retrato da casa da minha mãe, estava a olhar para a cara do bebé e parecia-me que estava a ver a expressão desse nosso antepassado, que foi unha com carne com o rei D. Carlos. - Eu cá acho que você está a exagerar, é Alm…

A dissolução da memória (rascunho para uma alínea do testamento vital)

«Se um dia eu porventura me esquecer de quem sou, ou não estiver seguro donde estou ou a quantas estou, que aqueles que amei antes do esquecimento, não tenham vergonha ou pudor e internem-me, num lugar qualquer, sob a única condição de acrescentarem pontualmente ás minhas refeições e benesses, um têrmo bem cheio de café forte, e umas quantas tabletes de chocolate - factores indispensáveis à preservação do meu sofrível equilíbrio».

A dissolução da memória - 2

Entre uma e outra margem do rio do esquecimento, as pessoas atolavam os pés na lama do fundo, ainda antes de se esquecerem completamente de quem eram, esqueciam-se da vontade de cruzar o rio, de sair dali, as suas forças e a sua vontade eram arrastadas na corrente como um grão de pólen e deixavam de ser capazes de se erguerem na outra margem sobre os músculos e nervos dos seus próprios membros (mas como eram tantos a cruzarem o rio, os que vinham depois empurravam-nos diante de si, e de um modo ou de outro acabavam todos por ir ter à margem oposta, imóveis sob a luz espectral, como se a brisa gelada que acariciava os seus cabelos fosse as ondas etéreas de um outro rio do esquecimento).

Causa óbvia

Três ou quatro vezes por dia contornava aquela rotunda do circuito periférico da cidade, uma rotunda comum semeada de altos como pequenas colinas relvadas, e uma estátua ao centro de uma ninfa ou danaide segurando uma ânfora com o bico virado para baixo, ela também olhava na mesma direcção como se contemplasse o líquido precioso derramado na terra. E eram três ou quatro vezes, porque essas eram as vezes que o seu trajecto o levava por ali ao volante da autocarro da escola. Mas nesse dia, a ninfa e ele tiveram um encontro diferente. O autocarro ficou imobilizado junto á rotunda, enquanto a polícia tentava normalizar o trânsito, ensarilhado pelo choque entre dois carros a uma dezena de metros dali. Enquanto os condutores suavam sob um sol escaldante, e descarregavam a sua impaciência nas buzinas, ele entregou-se ao devaneio de admirar a estátua, como quem descobre uma cara amiga no meio duma multidão de estranhos. Mas não era o único a entregar-se a essa ocupação. Um fulano de rosto fa…
"Eis quando eu pensava que a vida já não me reservava mais surpresas, e surge-me ainda esta: o veneno de ratos, afinal, sabe pior do que eu imaginava!".

Ruas travessas

A má notícia recebeu-a por escrito, mal se sentou na secretária que ocupava na companhia de seguros – estava despedido, pedia-se que comparecesse nos escritórios da empresa para se fazerem contas.Ficou abismado, mas obedeceu. Foi receber o documento que oficializava a catástrofe, mais uma relação das contas feitas e um cheque no valor do total apurado.O pior, é que não sabia como contar á mulher, e não o fez. Andou pelo parque da cidade a fazer tempo, e entrou em casa á hora aproximada em que costumava entrar todos os dias, com um ar estafado e a perguntar pelo jantar. No dia seguinte também não arranjou coragem, e no outro e no que se lhe seguiu. Como resultado, ao longo de meses, ele saía de casa á hora em que devia apanhar o 14 para o trabalho, passava o dia no parque, sentado num banco a ver as pessoas que passavam e a alimentar os pombos com as migalhas da sandes que comprava por ali, e regressava religiosamente a casa na hora em que o 35 o deveria trazer de volta. A mulher não s…

Um tríptico de Kafka

Má Sorte de Ser Solteiro
«Que coisa horrível, ficar-se solteiro e acabar como um homem envelhecido a lutar para manter alguma dignidade, ao mesmo tempo que se tem de rogar por um convite sempre que se quer passar um serão em companhia, ficar deitado e doente durante semanas e semanas a olhar para o mesmo quarto vazio do canto onde está a cama, dar-se as boas noites à porta de casa, nunca subir pelas escadas ao lado da esposa, ter apenas portas laterais que dão para o quarto de outras pessoas, ter de trazer o jantar para casa, ter de elogiar os filhos dos outros sem ter sequer o direito a dizer "eu não tenho", seguir, em aparência e no comportamento, um outro solteirão de que nos lembremos na infância. É assim que há-de ser, excepto que, em boa verdade, tanto hoje como no futuro, havemos de ter uma mão real e uma cabeça concreta, uma testa concreta, para dar com a palma da mão»

Desiste!
«Era de manhã bem cedo, as ruas limpas e desertas. Eu ia a caminho da estação. Ao comparar o r…

A tampa

Por um hábito adquirido e mantido durante anos, a velha senhora cozinhava sempre no lume, usando um velho tacho enegrecido por fora pelas labaredas. Uma vez mais, preparou-se para fazer uma sopa, ateou o fogo e enquanto o fogo ganhava fôlego, pôs o tacho com água ao lume, sobre ferros assentes em dois tijolos de barro vermelho. Cantarolando baixinho, foi despejando lá para dentro os ingredientes que preparara, os vegetais descascados ou cortados a preceito, a carne e uns bocaditos de chouriço para dar força. Mas quando quis tapar o tacho, teve uma surpresa. A tampa não tapava. A velha tampa que casava sempre com a borda do tacho, ficava levantada, como se um dedo invisível a mantivesse suspensa a meio sobre o líquido borbulhante. Como poderia ter acontecido? Perguntava-se. Não se lembrava de ter deixado cair o tacho, e não tinha recebido visitas nos últimos tempos, pelo que não tinha a quem atribuir o dano descoberto. Talvez a gata… Ela gostava de ir para ali pela manhã esticar-se na …
Vou dar uma volta a cavalo, para procurar um abericote e comê-lo, há-de ser bom o abericote, maduro e macio, e não há-de ter bicho o abericote, nem mosca branca de saiote, vou dar uma volta a cavalo e procurar um abericote para comer, e darei ao cavalo as folhas do abericoteiro, para ele se deliciar, mas vamos os dois devagar, a passo ou a trote, para que eu não leve com um ramo no fagote em vez de comer o abericote.

the heaven ahead

Um pacto de silêncio, e um silêncio compacto. Pactuamos com isso, e fechamo-nos lá dentro, e lá dentro não há nada. Encaixotados e emparedados, a apodrecer, fodidos pela religião.

O toque de uma corneta de caça produz um som maravilhoso. Só é pena, que não seja convenientemente apreciado pelas raposas.
«2x1,2; 2x2, 4; 2x3, 6; 2x4, 8…». A turma inteira entoava a cantilena da tabuada, seguindo a voz de barítono da professora. De pé, em cima da secretária dela, o maestro agitava a batuta, orquestrando a musicalidade aritmética. Os dois, professora e maestro, vigiavam atentamente o modo como os números e as notas de música se penduravam nas cordas vocais, quais meias emparelhadas a secar num cordão de roupa.

O Juízo (do) Final das férias

Comprou um livro numa loja de livros em segunda mão. Era um romance, grande, pesado, de folhas amarelas. Pensou que era uma boa altura para se lançar nessa empresa, tinha alguns dias de férias, e estava em casa, não tinha lugar nenhum em especial para ir, nem tampouco alguém em especial para compartir a viagem. Pelo que ficou em casa, ele e o romance. Tinha o banco de madeira no jardim sobre a sombra convidativa de um chorão, e tinha também a cama de rede que estendera entre dois camarões de aço nas colunas do alpendre, de manhã batia lá o sol e torrava-se como uma lesma em cima dum radiador em brasa, mas à tarde o sítio era oportuno, um rincão adequado para ele, o livro, e umas quantas cervejas. Passou as férias assim, usufruindo da companhia do livro, ora no banco de jardim, ora na cama de rede. Bebeu umas cervejas, dormiu umas sestas, preguiçou horas a fio com os auscultadores nos ouvidos. Por vezes inquietava-o o zunido das vespas que haviam feito ninho num pequeno pessegueiro ao …
- O que é que vendem aqui? Estão tantas pessoas á porta!- Não vendemos nada, oferecemos a imortalidade…- Como é isso possível?- Digamos que o senhor é uma pessoa saudável, um complexo harmonioso de órgãos e glândulas a trabalharem impecavelmente e sem esforço. O senhor dá o seu nome, e numa data a combinar entre as duas partes, o senhor vem aqui e nós desmontamos os seus órgãos e tudo o que tiver de reutilizável, o que equivale a dizer que atinge a imortalidade.- Mas isso não é um exagero? Afinal, sou recolocado em outros corpos que, por sua vez, morrerão num dia mais ou menos próximo – e volto á estaca zero.- Não é bem assim, tente ver o quadro completo, se os seus órgãos e glândulas ajudarem vinte pessoas a viver, e se somarmos o tempo de vida dessas pessoas, isso quer dizer que através delas você vive vinte vidas diferentes e um cômputo invejável de vários séculos, além disso, ou porque alguma dessas pessoas possa eventualmente ser criogenizada, ou dar-se esse destino a algum dos s…
Ana Murta era uma mulher convencional, formada e empregada, com uma ligação sólida com um amigo de longa data, e com boas perspectivas de auto-editar um livro de (imaginem) poesia. Não obstante tantas coisas que considerava positivas, o erro perpetrado num ficheiro informático de uma firma de cosméticos fazia-lhe chegar a casa, regularmente, um catálogo de produtos endereçado a Ana Morta. Como não era supersticiosa, Ana Morta ou Murta seguiu com a sua vida e nunca se deu ao trabalho de corrigir a gralha dos catálogos. Isto para infortúnio dum certo jovem púbere de cabelos castanhos que era o carteiro habitual naquele bairro, e que a olhava com uma certa reserva assustada, depois de, nas primeiras vezes, a ter despido e devassado com o seu olhar lascivo.

Medo

Medo de Raymond Carver ("tradução" minha)
Medo de ver o carro da polícia parar á portaMedo de adormecer à noiteMedo de não adormecerMedo do passado a erguer-seMedo do presente me voarMedo do telefone que toca na noite quietaMedo de tempestades eléctricasMedo da mulher da limpeza que tem um sinal na faceMedo dos cães que me disseram não morderMedo da ansiedade! Medo de ter que identificar o corpo de um amigo mortoMedo de ficar sem dinheiroMedo de ter dinheiro a mais, ainda que as pessoas não acreditem nissoMedo de perfis psicológicosMedo de me atrasar e medo de chegar antes de todosMedo da caligrafia dos meus filhos em envelopesMedo que eles morram primeiro do que eu, e da culpa que eu sentiriaMedo de ter que viver com minha mãe na sua velhice, e na minha Medo da confusãoMedo que o dia de hoje se consuma numa nota infelizMedo de acordar e descobrir que partisteMedo de não amar, e medo de não amar o suficienteMedo das coisas que eu amo, se provarem letais par…

Franz K

Imagem
A borboleta voava sobre um prado florido, agitando as suas asas, quando, sem aviso e sem explicação, foi transformada numa lagarta. Envergonhada da sua condição, definhou enquanto se escondia dos outros, e morreu de tristeza e solidão. No instante em que a vida se extinguia no seu corpo minúsculo, a sua alma ergueu-se nos ares até à planície do nono céu onde as almas aguardam até reencarnarem novamente. Mas era uma alma de insecto, um ser pequeno e baço como um coágulo de gelo, muito diferente daquelas almas pretensiosas e trocistas, que disfarçavam a ansiedade tocando cítara e urdindo versos e canções. Fosse como fosse, a lagarta tinha saudades do Sol e do voo inebriante, e colou-se a uma alma que descia novamente para a terra, e com ela, entrou num corpo diminuto que crescia num ventre de mulher. Era o corpo de um rapaz, um rapaz diferente e invulgar, dividido, como se albergasse em si duas almas e dois mundos diferentes, que era o que de facto acontecia. Ao crescer, sentiu a necess…

Visita

- Sou teu pai! – Lembrou o pai, sem grandes alaridos. O chão também não estava a estremecer, nem havia piras de sacrifício ou sarças ardentes.- Pois, já não nos vemos há algum tempo.- Desde o tempo do jardim do Éden. Vim visitar-te!- Passaste também pela casa da cobra? Também és pai dela!- Pois, mas ela não fica muito bem nos álbuns de família.
Trinta e quatro mangas-de-alpaca levaram cento e oito dias e quatro horas para catalogar e arquivar os quinze mil, trezentos e oitenta e quatro despachos do Ministério dos Assuntos Despachados. Na verdade, havia apenas quinze mil, trezentos e oitenta e três despachos, sendo o despacho fantasma ocupado por um bilhete de amor escrito pela Dona Suzete dos Recursos e Aprovisionamento, ao Mário dos Serviços Arquivísticos, bilhete que nenhum dos trintas e quatro mangas-de-alpaca sabia como arquivar. A solução foi dada por um deles, o Mário dos Serviços Arquivísticos, que o arquivou na algibeira, tentando lembrar-se porque é que nunca respondera ao bilhete.

A idade avançada, e problemas no seu cérebro, trouxeram-lhe alguma incongruência ao discurso, que se ausentava da realidade presente, desenrolando-se em evocações fragmentárias dos dias idos. O filho, sentado ao seu lado no jardim da casa secular, ouvia pacientemente, enquanto o pai evocava a escola primária onde andara, o trabalho nos campos de quando era novo, os camaradas da tropa, depois, falava de um filme que havia visto na televisão há uma semana, e logo a sua mente inflectia sobre si mesma e falava da garrafa de Porto que lhe haviam oferecido na véspera, quando o seu filho – ele, o filho adulto ao seu lado – tinha nascido no quarto grande da casa com a ajuda de uma parteira. O filho calou, calou e calou, assentindo com vagas exclamações e meias-palavras, apenas para facilitar o discurso. Nesse instante, o pai menciona a esposa, que naquela manhã fizera o café para ele levar no têrmo para o trabalho, e nesse ponto, o filho não pode condescender, e repara, muito seguro de si.- P…

Crónica de uma morte inesperada

O suicídio da jovem foi um sombrio e completo mistério. Aparentemente, preparara a sua morte com uma calma assombrosa, determinando quem deveria ficar com o seu dinheiro e bens, todos os pormenores esmiuçados e solucionados de alguém que prepara com tempo, uma longa viagem. Uma semana antes, pedira uns dias de férias, e no dia da tragédia apanhou o táxi até ao lugar fatídico, que já fora escolhido de antemão: um ponto da via férrea situado poucos metros depois duma curva pronunciada. Era natural que se a máquina viesse em sentido oposto, talvez tivesse tempo de travar antes de a colher, mas isso não sucedeu porque mesmo a hora do suicídio fora determinada por ela, uma vez que encontraram na carteira um papel dobrado com o horário e o sentido dos comboios que circulavam por aquela linha. O policial encarregue do caso, decidiu investigar se havia algum pormenor que contrariasse a opinião geral de que era um caso de suicídio. Entrevistou familiares e amigos, e todos lhe disseram o mesmo, …

Dvorák

Convencido de que isso o faria escrever melhor, trocou o teclado Azerty do seu PC por um teclado Qwerty, e vendo defraudadas as suas expectativas, trocou este por um teclado Dvorak. Não começou a escrever melhor, mas o som das teclas lembrava-lhe uma sinfonia eslava.

o grande ?

O Governante da Nação viu-se num dilema (os dilemas são muitos para os Governantes da Nação, espécie conhecida pelas olheiras causadas pela insónia, e pela coloração anémica da sua pele), e o dilema era o que se segue. Dum lado tinha as classes desfavorecidas da nação, onde o desemprego aumentava, mas onde podia sempre aumentar um pouco os impostos, apenas um pouco, como se retesasse a corda dum arco, do outro, tinha os mais abonados, os capitalistas e as grandes financeiras, cujo dinheiro circulava com agilidade e mantinha lubrificada a engrenagem do país; aí, podia sempre aumentar um pouco mais os impostos, porque não teria a temer uma sublevação popular, mas essa medida, impopular entre os visados, poderia comprometer a recuperação da economia e a acumulação de fundos não declarados para as eleições que se aproximavam. O Governante da Nação andou dias, semanas, nesse dilema, varando noites e dias sem dormir como um anacoreta do bem público, e quando saiu do seu covil administrativo…

O sal da terra

Estava a chegar aos quarenta anos, e começou a andar angustiado, com uma ligeira e nebulosa indisposição que ameaçava alastrar numa cólica e náusea incontroláveis que o deixariam desidratado e seco como o cereal na eira. Andou dias, semanas, com esse desconforto no corpo e na alma, e dava consigo a inquirir os animais da fazenda sobre o seu futuro, a mulher acompanhava-o nas suas andanças de sempre, o trabalho árduo no campo e na pequena criação de porcos, amanhar os campos, alimentar os animais, limpar, mondar, fresar, sulfatar… Esfanicavam-se os dois de esforços e desforços, e a paga era a mesma, ou mingava, cada vez conseguia menos dinheiro nas idas ao mercado, e o homem que lhe comprava os animais, pendurava-se da boleia do seu camião e enrolava um cigarro humedecendo as pontas com uma língua rosada, enquanto falava da crise mundial para justificar a baixa cotação dos porcos, e os quarenta ali à porta, e ele estava a ficar farto, e mais farto ficava quando se punha a evocar os dia…