Roupa branca

A mulher, robusta, de pele tisnada pelo sol, ajoelhou-se uma vez mais junto á pedra áspera na berma do riacho. Lavava ali a sua roupa, batendo com ela na pedra depois de a enxaguar.
Miguel desviou os olhos por um instante, havia-se levantado o vento e grossos rolos de poeira e cinzas erguiam-se em torvelinho sobre a paisagem rochosa e nua, a cantiga entoada pela lavadeira fê-lo olhar de novo, ela estava quase rodeada, de água e de luz, o regato corria em volta e o sol na água corrente originava meandros e linhas truncadas de luz que dançavam na retina como descargas eléctricas.
- Ainda bem que é um filme, porque era uma vida atrasada, aquela. Não era, Miguel?
- Sim, claro! Hoje já ninguém lava à mão nos rios - ciciou sem ânimo, olhando de novo a paisagem morta no exterior da torre de vidro.
Era um detalhe de somenos importância, que já não existissem rios.

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