Refinamento

Manhã de dia de semana numa pastelaria do centro da cidade, clientes maioritariamente femininos, de classe média-alta ou a dar-se ares disso, tomam o pequeno-almoço em mesas onde o perfume no ar é subtil e insidioso, e falam dos filhos e netos, o advogado tal, o meu filho engenheiro, a professora de ballet, o consultor, o deputado, algumas trazem à baila o belíssimo sermão do pároco no Domingo anterior, o sarau de leitura de poesia na Biblioteca Municipal, os sucessos com as orquídeas ou gardénias dos seus jardins abençoados, as fotos do casamento da Titinha no fotógrafo da moda. Naquele ambiente controlado entra um besouro, negro e enorme, uma senhora gorda, simples, vestida de preto, de lenço na cabeça, segura na mão carregada de anéis um porta-notas em cabedal puído. Deveria ter estado a vender no mercado da fruta, a alguns quarteirões dali, ou então era uma mulher do interior que chegara ali naquelas levas de gente suada e pirosa das excursões turísticas. As damas da mesa mais próxima, dedicam-lhe a atenção, prontas a rirem-se do que ela pudesse dizer ou fazer. Dona Graciete, sobretudo, está ansiosa pelo voo desastrado daquele besouro, ela é a respeitada líder daquele grupo de mulheres ociosas e afectadas e cabe-lhe fazer as honras da casa sempre que a ocasião se justifique.

A mulher ainda não reparara que era tão estudada, mostra-se cansada, talvez lhe doam os tornozelos, de caminhar muito, ou de suportar o seu peso avantajado. O empregado aproxima-se dela.

- Queria uma meia-de-leite normal e um croissant simples!

Croissant, croissant, pronunciado de forma exemplar, com as sílabas a enrolarem-se no céu da boca e a elevarem-se no ar como volutas de ar gelado. Dona Graciete está abismada, estão todas. Como era possível? Aquela saloia a pronunciar croissant daquela forma, era mais chocante do que se as mimasse com insultos e obscenidades. O empregado vai executar o pedido, mas não pode ignorar a Dona Graciete que ergue insistentemente o dedo no ar, como um aluno espertalhão da primeira fila da sala de aulas.

- Diga, Dona Graciete.

- Je veux un pain avec beurre et fromage!

Ele aquiesce, habituado às idiossincrasias da clientela.

- E em que pão? Vianinha ou pão caseiro?

Ela sente-se gelar, os olhos das amigas estão fixos nelas, e os da cidade e do Universo inteiro.

- …Huum!...Caseirô, s’il vous plaît!

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