O relicário

- Sabe como é…as religiões caem, e os impérios também, um dia somos estimados e ricos e no dia seguinte andamos por aí a servirmo-nos de expedientes e biscates para sobrevivermos e termos comida na mesa.

O guia fazia-se á esmola, descaradamente, e no momento em que a ofereci, ele, de pronto, fez-me entrar no relicário, uma divisão pequena, ogival, com uma estante única em redor que subia em espiral até á clarabóia no alto onde a luz se derramava no compartimento por um vidro vermelho escuro.

Segredando, como que para não perturbar o sono dos justos, ligou o seu ponteiro Laser, e começou a apresentar-me as relíquias.

«Três pêlos das patilhas de Che Guevara enroladas numa folha de tabaco; sete fragmentos de estátuas de Lenine, derrubadas em sete países diferentes; um rolo com cartas de Karl Marx; um exemplar do Livro Vermelho; o rolamento dum tanque da Primavera de Praga; o gato mumificado de Trotsky…»

- Desculpe interromper, e não se esqueça do lugar onde o interrompi, mas porquê este relicário? Vocês não acreditam numa religião, em milagres, como tal, não fazem falta relíquias, ou souvenirs…

O guia aproximou-se, e a sua voz voltou ainda mais sussurrada do que antes, quase inaudível.

- Os novos tempos serão erguidos sobre as cinzas dos tempos mortos, como a Fénix. Quando o mundo vir este relicário ser pasto de chamas, é o sinal que todos aguardamos para o alvorecer da sociedade sem classes.

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