O aparador

A imagem formou-se no seu espírito enquanto bebia uma cerveja encostado à varanda do apartamento. O prédio defronte era um edifício monocromático e monótono de linhas muito direitas, apartamentos com dimensões iguais, e todos guarnecidos de uma varanda para o lado da rua. Donde estava, cada apartamento parecia uma gaveta, e as varandas de balaústres, os puxadores das gavetas. Mas não se contentou em degustar essa imagem, porque era uma pessoa de acção, e num ímpeto desencostou-se da varanda, atravessou a rua com duas passadas, e meteu as manápulas aos puxadores dos apartamentos-gaveta, abrindo-as para ver o que escondiam. Entre gritos de incredulidade e pânico, foi coscuvilhando. Ria-se das pessoas que acordavam estarrecidas nas suas camas, ou das famílias em histeria à volta da sala de jantar, com a louça e o comer baldeados, mas bastou surpreender o primeiro casal em aveludados jogos amorosos, para enrubescer de vergonha, e arrepender-se das suas tropelias, e, ainda corado, voltou a atravessar a rua, escorropichando as últimas gotas de cerveja que escorriam da cisterna do camião-tanque.

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