Noctâmbula

Acordou com os lábios dela na sua face, ainda era noite cerrada.
- Preciso ir! - lembrou-lhe.
Levantou-se, e saíram os dois do quarto, os corpos nus enrolados no lençol da cama. Sentaram-se no tapete da sala, o corpo dela era um refúgio macio e cálido, e ficaram por ali mais algum tempo, como se ela não precisasse mesmo de ir, um disco de Miles Davis na aparelhagem, o luar inundando a sala. Não demoraria muito para que o dia nascesse e os seus beijos tinham já o travo agridoce da separação. Tentando sorrir, para aligeirar o momento, ele viu-a enrolar-se no lençol branco e aproximar-se das vidraças. Aquilo enternecia-o sempre, o modo gracioso como ela erguia o lençol acima da sua cabeça, e o soltava sobre a sua nudez. Quando o lençol aflora o chão, ela já não se encontrava ali, dissolvida no luar.

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