A maciez do silêncio

Na casa de hóspedes, houve uma visita da morte. A bela senhora Graciosa, do número catorze, morreu na sua cama, a morte foi até ali e levou-a e, no entanto, parecia que ela ainda estava a dormir, não havia sinais de convulsões ou estrebuchamento, a velha senhora tinha as feições e os cabelos compostos como se nem sequer tivesse dado por isso, e no seu quarto e por toda a casa, se manteve o mesmo asseio imperturbável, a mesma ordem impecável bafejada pelo cheiro a velhos, à conta daquela visita não houve nenhum móvel virado, uma flor seca nalguma das jarras espalhadas pelos cómodos, uma folha de papel ou um clipe fora do sítio, um plumoso cotão arrancado do seu repouso no piso inferior duma cama. Uns dias depois, uma nova visita, mas diferente, a de um credor que veio apertar os colarinhos ao aposentado Madruga, do quarto onze, por causa duma dívida que este tardava em saldar; entrou aos gritos a exigir ser recebido, deu pontapés em tudo o que encontrou pelo caminho, inclusive o traseiro anquilosado da Dona Ercínia, a senhoria, e quando se entrevistou com o desgraçado, deu-lhe uma sova mestra e partiu ou tentou partir tudo o que viu em volta no quarto. Horas depois, com o aposentado Madruga a gelos na cama e a gemebunda Dona Ercínia a servir de enfermeira, comentava a senhoria para o seu hóspede: “Bem me parece, que prefiro a morte a outro credor!”.

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