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Chave de Sol

A família alugara uma barraca virada para o mar, um casal e três filhos, duas meninas e um rapaz mais velho do que elas, talvez com uns quinze anos. Marido e mulher deixam-se ficar pelo frescor da sombra da barraca, enquanto os filhos inventam brincadeiras na orla de espuma das águas. Vão ao banho, mergulham e fazem batalhas com rajadas de água, e depois regressam para comer alguma coisa. Então o irmão tem uma ideia. Faz um buraco ao comprido na areia molhada da praia, deita-se, reclinado como uma estátua etrusca e pede às irmãs para o enterrarem. Elas acedem e com pás de plástico colorido, vão cobrindo o seu corpo. Primeiro são as pernas e a cintura que desaparecem sob a areia, depois elas vão elevando a areia e cobrem o seu peito até ao queixo. Ele ri-se e provoca-as, tentando manter imóvel o seu corpo, elas continuam a sua obra até deixarem apenas a face do irmão sob a luz do sol. Uma delas, na brincadeira, vai buscar um balde de plástico vazio e coloca-o na sua cabeça como um chapéu bizarro. Nesse instante, com alguns cristais de areia a escaparem da boca do balde e enquanto toda a família se ri da sua figura, ele tem uma visão, brilhante como a luz do sol, sente-se a ser enterrado, num outro lugar, o seu corpo maior no fundo de uma cova e a terra a cair ás pazadas sob um coro de risos, ele grita mas ninguém ouve, e a luz desaparece enquanto se sente sufocar com a boca cheia de terra. É o pai que o tira dali, aos gritos, segura-o pelas axilas e puxa-o. Ninguém percebe, a mãe pega-o ao colo como uma pietá e faz-lhe festas na cara, enquanto ele chora como um bebé.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...