Chave de Sol, 2

A tarde resolve-se em abandono, as famílias vão abandonando a praia, carregam com as trouxas e as pranchas, e as crianças, que moídas pelas brincadeiras na areia e na água, ainda tem forças para brincar e rirem sem motivo. Ele fecha o livro, não sem antes o sacudir como um espanador para expulsar a areia. Enfia-o pela goela do saco, e aproveita para tirar de lá uma maçã que come sem pressas. O disco do sol declina no horizonte, nas bandas do Bom Sucesso, as árvores da outra margem da lagoa escurecem, consegue ver donde está, os banhistas solitários e grupos maiores que também se retiram para os seus carros de metal em brasa. Acaba de comer a maçã. Um bote de pesca passa diante de si em direcção ao cais com dois homens no convés, um segura a manete do motor da popa e tem abafadores de som nos ouvidos, enquanto o seu colega está de pé, mas com as mãos atadas ao banco do bote, e grita desabridamente. Não tem abafadores, e a sua loucura parece fazer sentido. Deve estar a ouvir sereias, pensa. E coloca-se também de pé com o pescoço esticado e limpa os ouvidos com os dedos mas não ouve de nada de invulgar, os gritos do homem no bote de pesca, o marulhar de vozes e ruídos de um fim de tarde na praia. Volta a sentar-se. Eram horas de ir.

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