INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

A casa da música

A repórter conseguiu entrar a custo no grande depósito subterrâneo, atrás dela seguia o cameraman, um técnico de luz, e um auxiliar de produção com uma pasta de cabedal na mão. O espaço estava bem iluminado, em todos os sentidos podiam-se ver caixotes estreitos e compridos, com tampas corrediças em madeira prensada. O entrevistado em potência recebeu-os para uma exposição preliminar do seu trabalho, era um homem de idade avançada, com um fato de trabalho coberto de pó e que os mirava através de umas lentes com muita graduação, apesar da idade não se percebia cansaço algum nos seus gestos e expressões, o seu aperto de mão era firme e enérgico, como o de um homem que deseja muito alguma coisa e que trabalhará até ao último alento para o conseguir. Enquanto o auxiliar de produção tomava notas, a repórter estabeleceu uma pequena e espontânea conversa com ele, que serviria de molde para a entrevista que iria ser gravada. O homem idoso era maestro e compositor, um dia, enquanto assistia ao funeral de um amigo de infância, e ao olhar para as lápides que o rodeavam, lembrou-se que essa era o modo mais fidedigno de perpetuar a música para um futuro incerto, mesmo para um futuro apocalíptico que sobreviesse a um cataclismo de escala planetária ou a uma guerra nuclear – a música, deveria ser gravada em lajes de pedra, e estas acondicionadas num abrigo nuclear, á espera de serem recuperadas.

O compositor tomou a si esse cargo infindável. As músicas eram gravadas na pedra através de um Laser, numa escala reduzida, com várias pautas compreendidas numa só laje. O acervo foi crescendo de ano para ano, e depositado periodicamente no abrigo. Começara com as obras e compositores de música erudita, mas graças às pessoas que aderiram ao projecto e aos meios entretanto reunidos, foi-se estendendo como os raios de uma roda por todos os campos de criação musical. As lajes eram arrumadas por ordem nos caixotes oblongos, com estes depositados em estruturas sobrepostas, estruturas compostas numa liga metálica desenvolvida pela engenharia aeronáutica. Havia compensadores de oscilação no interior dos caixotes e nas estruturas, para anular os efeitos de eventuais abalos sísmicos.

A entrevista desenrolou-se no próprio abrigo, e durante todo esse tempo, o abrigo foi selado do exterior (não fosse o diabo tecê-las, e cair alguma bomba). As perguntas eram quase as mesmas da conversa prévia, limadas ou corrigidas pelo auxiliar de produção, e a exposição do compositor foi convincente e apaixonada, mostrando a todos, mesmo a profissionais tarimbados como os que conduziam aquela reportagem, todo o amor e devoção que aquele homem tinha pela música.

Terminada a entrevista, e após alguns planos filmados no abrigo, saíram todos para o exterior e o abrigo foi selado novamente. Daí seguiram para as instalações onde as notas de música eram gravadas na pedra, mas o auxiliar de produção tinha questões a colocar ao compositor que o mantinham desassossegado.

- Diga-me – pediu, sentado ao seu lado durante a viagem – o que aconteceria se nascesse um vulcão no lugar onde foi construído o abrigo? Não seria um fim patético para tanto trabalho?

O compositor riu com vontade.

- Todas as hipóteses foram estudadas, todas mesmo! O local da construção do abrigo foi escolhido depois de analisados todos os riscos sísmicos, geológicos e climáticos; é mais fácil nascer um vulcão na minha casa ou na sua, do que naquele lugar.

- Já agora, diga-me outra coisa, um pouco mais especulativa. E se as suas lajes só fossem descobertas daqui a duzentos ou trezentos anos, numa altura em que nenhum sobrevivente da raça humana conseguisse ler uma só nota de música?

O compositor não se riu, e o peso dos seus anos de vida, transpareceu no seu olhar cansado.


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...