Arcturo

Arcturo entrou na aldeia numa manhã fria de Julho, trazia atrás de si um urso gigantesco de cor castanho-fulvo e uma cria de urso, o primeiro com a boca presa num açaimo em arame e cabedal, enquanto a cria movia livremente a boca, abrindo-a para o alto como se quisesse engolir as moscas que rondavam o seu nariz. Arcturo trazia cingido a si o urso maior, uma correia enrolada no seu pulso estava atada a uma das suas patas em voltas e laçadas intrincadas, o pequeno urso estava unido ao maior por uma correia semelhante, urdida de forma negligente, menos para o controlar do que para impedir que ele se transviasse dos dois e ficasse perdido.

Não era a primeira vez que Arcturo descia à aldeia, e como das outras, repetiu o seu modo de operar. Escolheu o recanto mais despovoado do adro da igreja, onde decorria o mercado semanal, e acomodou-se no meio duns fardos de feno. Sem se importar com os olhares e comentários ou com as macaquices das crianças, abriu o seu farnel e começou a comer um naco de queijo seco, com pão igualmente duro e ressequido. Com uma faca com o fio já dentado, cortava lascas dum e doutro, e metia-os á boca até a encher por completo, rilhando-os em seguida com a boca aberta e os modos boçais de um labrusco. O urso pequeno brincava à sua volta, desfazendo a geometria dos fardos com as suas pequenas garras, enquanto o urso grande se mantinha quieto ao seu lado, sentado num fardo como uma pessoa, e deitando-lhe olhares ávidos, como se quisesse lembrá-lo que também eram horas dele comer.

O primeiro cliente acercou-se deles, mal tomou coragem. Era um lavrador rico, com muitas terras e homens ao serviço, mais os que empregava à jorna na época das sementeiras ou colheitas. A sua prosperidade estava ameaçada por uma infestação de toupeiras que minavam as suas hortas e lhe destruíam os vegetais; e como ouvira dizer que os ursos tinham o faro dum perdigueiro, será que os seus animais estavam á altura da empresa? Ainda rilhando no queijo e pão rijos, Arcturo levantou-se numa resposta clara, e seguiu o homem com os seus animais. Palmilharam juntos o caminho até à fazenda a que aludira, cerca de uma milha mal medida, e aí mostrou a Arcturo o que lhe narrara – uma planura densa preenchida com culturas variadas e onde um olhar mais atento conseguia descortinar as pequenas clareiras com as covas e montinhos de terra criados pelas toupeiras. Arcturo libertou o urso mais pequeno, que se afadigou em volta duma das tocas, esgravatou, rosnou, e conseguiu extrair terra suficiente, para o seu corpo mergulhar na terra até aos quadris, mas não fez mais do que isso, com os braços e o focinho encravados na cova alargada e as patas traseiras a agitarem-se no ar em desespero. Com um suspiro fundo, Arcturo socorreu-o e puxou-lhe pelas patas até o libertar. Ainda iria ter muito trabalho com aquele urso. Como último recurso, enrolou a correia em volta da perna do urso maior e tirou-lhe o açaimo.

Não foram precisos conselhos ou incitamentos. O urso, sob o olhar apreensivo do lavrador, caminhou pelo meio das hortas como um predador experiente, cheirando á boca das tocas, tomando sentido do número de presas que se recolhiam no solo, dos seus movimentos e saídas, adequando o seu instinto ao instinto delas, então, num paroxismo de actividade abriu uma cova no meio dum campo de alfaces, rodando as patas armadas como a gadanha dum ceifeiro, e logo deu com uma pequena galeria, onde meteu as patas e o focinho, atacando com urros violentos. Os urros eram assustadores, mas menos assustadores do que o sangue abundante, e as toupeiras que os seus dentes destroçavam sem clemência. Devoradas aquelas, repetiu a operação em três outros pontos da horta, só se dando por satisfeito, quando se certificou que não havia mais toupeiras no solo. Algumas delas, não devorou, a sua saciedade deixara para trás os seus corpos desmembrados entre os vegetais. Como uma mascote obediente, voltou para junto de Arcturo e enroscou-se aos seus pés, este esfregou-lhe as orelhas com as palmas das mãos e colocou de novo o açaimo, cingindo-lhe o urso mais pequeno, que se escondia atrás das suas pernas.

O cliente olhou descoroçoado o campo com crateras, como um campo de batalha, mas não o demonstrou. Agradeceu vivamente a Arcturo pelo serviço, em palavras emocionadas, e correu a casa para ir buscar dinheiro para lhe pagar, desejoso de se ver livre daquelas três criaturas.

Arcturo voltou ao adro da igreja, e recebeu um novo encargo. Um fidalgo de província pagou-lhe para que o urso mais pequeno divertisse as crianças, filhos de convidados seus, que brincavam nos jardins da sua mansão. Arcturo conduziu até lá os animais, deixou o urso maior atado a um dos ferros duma vinha em latada, e exibiu o urso mais pequeno diante das crianças, depois de lhe improvisar um açaimo, atando em volta do focinho algumas voltas dum cordão de sisal. Foi um trabalho fácil porque, como todas as crias e crianças, o pequeno urso gostava de brincar, e bastou-lhe colocar um galho com folhas por cima da cabeça, para que o animal tentasse alcançá-lo, erguendo-se sobre as patas traseiras e dando várias passadas em volta numa dança patética, para gáudio da assistência.

Na hora de lhe entregar o pagamento, o fidalgo pediu para lhe falar dum novo trabalho. Conduziu-o a um recanto mais isolado do jardim, fez-lhe servir um xerez, e expôs-lhe o que pretendia dele. Sabia que ele vivia numa cabana de madeira no meio de matos e silvas, um lugar miserável ao lado de uma caverna onde mantinha os seus ursos, e isso não era vida para ninguém. Ora, se ele lhe quisesse fazer mais um serviço, iria recompensá-lo generosamente com várias moedas de ouro, e ele poderia obter uma vida melhor para si e para os seus animais. Suspeitando do que vinha a seguir, Arcturo pergunta-lhe se esse serviço consistia nalgum crime de sangue. O fidalgo confirma, precisava que fosse morto um vizinho seu, um homem odiado que se recusava a vender-lhe as suas terras, o seu urso maior não teria qualquer dificuldade em arrancar-lhe a cabeça.

Arcturo nega-se, recolhe o dinheiro que o fidalgo pagara, prende a si os seus animais e regressa ao casebre, deixando atrás de si, um homem fervendo de rancor que não lhe perdoaria a recusa. Uma semana depois, Arcturo apresta de novo os seus ursos para descer ao mercado da aldeia, e quando os tem já prontos para partir, um homem encapuçado surpreende-o dentro da cabana e corta-lhe a jugular com uma navalha, deixando-o a agonizar no chão de terra. Algumas horas depois, o urso grande espreita à porta da cabana e descobre Arcturo, já sem vida, que jaz no meio da terra empapada em sangue. Como se Arcturo o guiasse, o urso grande toma o caminho da aldeia, arrastando consigo o urso menor. Repete a rotina de todas as semanas, alcança o recinto da feira e instala-se num canto mais sossegado com o seu companheiro, aguardando por trabalho em troca de comida. Ninguém se aproxima deles, estranham a ausência de Arcturo e não se atrevem a chegar-se perto, nem mesmo as crianças que os costumavam imitar com as suas momices. Os dois ursos ficam ali sentados até ao fim da feira, e depois tomam o caminho da cabana e da gruta. Nunca mais seriam vistos pela aldeia, nem eles nem Arcturo, alguns peregrinos e almocreves contavam que os chegavam a avistar nos montes, isolados ou juntos, a caçar e recolher frutos silvestres. Mas não eram temidos por ninguém, eram como se fossem da família de todos, porque as pessoas não se esqueciam da sua presença nas feiras da aldeia, de como trabalhavam bem, e dos passos dançantes do pequeno urso. Nem mesmo a morte misteriosa dum fidalgo da aldeia, encontrado sem cabeça nos jardins da sua casa, foi capaz de manchar ou prejudicar a boa memória que na aldeia se guardava dos ursos de Arcturo.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue