INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Armandinho decidiu dar um pontapé no anonimato e entrar de rompante no Livro dos Recordes. Convocou os juízes e devorou em bocados pequenos, a bicicleta da sua mulher. Os juízes não acharam suficiente, havia um homem em Itália que já havia feito o mesmo, a sua marca não o superava. Mas Armandinho não desistiu da pretensão, e perguntou aos juízes, se algum deles porventura pousara os olhos na sua mulher.

- Não posso ir ao mar - lamentou o menino, desgostoso - Há lá caravelas portuguesas!.

O pai, genealogista e historiador de fim-de-semana, explicou-lhe:

- É esse teu sangue, meu filho, é essa tua ascendência africana!

"Pode parecer imodéstia, mas eu sempre soube dar valor ás coisas importantes, sempre gostei de ir para o pé do mar, a passear e ouvir as ondas, só para me lembrar de como soavam os búzios".




“Sai daqui, ave de mau-agouro!” – gritou, furiosa.

O corvo pareceu perceber as suas palavras, mas não levantou voo. Seria um desperdício. O corpo dela, preso na carroçaria de metal no fundo da ravina, convidava-o a ignorar os seus insultos.

Deixou-me a pensar

«A solidão desola-me; a companhia oprime-me.
«A presença de outra pessoa desencaminha-me os pensamentos; e sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir».

(Fernando Pessoa)

O homem que trabalha ao seu lado no camião do lixo chama-se Marmota, e o condutor, Raposa, na desinfestação da lixeira, há um Lobo, um Leão, e um Pescada. E todos falam pelos cotovelos, mesmo com aquele cheiro no ar e as moscas a quererem enfiarem-se nas suas narinas. Até nem desgostava de trabalhar com eles, mas só agora compreendia a razão do seu padrinho lhe ter dito que lhe iria arranjar um trabalho fabuloso.

Roupa branca

A mulher, robusta, de pele tisnada pelo sol, ajoelhou-se uma vez mais junto á pedra áspera na berma do riacho. Lavava ali a sua roupa, batendo com ela na pedra depois de a enxaguar.
Miguel desviou os olhos por um instante, havia-se levantado o vento e grossos rolos de poeira e cinzas erguiam-se em torvelinho sobre a paisagem rochosa e nua, a cantiga entoada pela lavadeira fê-lo olhar de novo, ela estava quase rodeada, de água e de luz, o regato corria em volta e o sol na água corrente originava meandros e linhas truncadas de luz que dançavam na retina como descargas eléctricas.
- Ainda bem que é um filme, porque era uma vida atrasada, aquela. Não era, Miguel?
- Sim, claro! Hoje já ninguém lava à mão nos rios - ciciou sem ânimo, olhando de novo a paisagem morta no exterior da torre de vidro.
Era um detalhe de somenos importância, que já não existissem rios.

O dia aguardado

No salão grande da Bolsa, pingava. A água da chuva a gotejar do tecto para pequenos baldes de lata onde antes se anichavam os papéis inúteis e o lixo. Mas isso não desencoraja ninguém, os negócios sucedem-se, as compras, os gritos, o stress galopante, todos correm dum lado para o outro, contornando os pingos, alheios ao ping-ping da chuva que escorre dos telhados. A um canto, num recanto miraculosamente poupado pelos pingues e pongues, dois homens celebram o fim da recessão, comemorando com champanhe, seco.

Investigação

Guliver morreu assassinado misteriosamente, uns meses atrás, e continua deitado na mesma laje de basalto onde o encontraram. O inspector liliputiano ainda não acabou de desenhar o contorno do seu corpo com um troço de giz.

Decadência

- Avózinha...porque é que tens uns braços tão grandes?
- São para te abraçar melhor, Capuchinho.
- Avózinha, porque é que tens um nariz tão grande?
- São para te cheirar melhor...
- Avózinha, porque é que tens uns dentes tão grandes no copo?
- São para te COMEEER!





A fama e o proveito

- Como prefere?
- Eu por cima! - responde o missionário.

faits-divers

(O que vou dizer, não o sendo, parece um paradoxo: tive diante de mim o TAC da cabeça de uma pessoa próxima, com todas as imagens miniaturais do seu cérebro em variados ângulos, e pensei, como se o declarasse em voz alta, que finalmente conhecia por dentro a sua cabeça, mas nunca, em momento algum, tive a sensação ou a suspeita de que vira aumentar o meu conhecimento do modo como ela pensava).

Chave de Sol

A família alugara uma barraca virada para o mar, um casal e três filhos, duas meninas e um rapaz mais velho do que elas, talvez com uns quinze anos. Marido e mulher deixam-se ficar pelo frescor da sombra da barraca, enquanto os filhos inventam brincadeiras na orla de espuma das águas. Vão ao banho, mergulham e fazem batalhas com rajadas de água, e depois regressam para comer alguma coisa. Então o irmão tem uma ideia. Faz um buraco ao comprido na areia molhada da praia, deita-se, reclinado como uma estátua etrusca e pede às irmãs para o enterrarem. Elas acedem e com pás de plástico colorido, vão cobrindo o seu corpo. Primeiro são as pernas e a cintura que desaparecem sob a areia, depois elas vão elevando a areia e cobrem o seu peito até ao queixo. Ele ri-se e provoca-as, tentando manter imóvel o seu corpo, elas continuam a sua obra até deixarem apenas a face do irmão sob a luz do sol. Uma delas, na brincadeira, vai buscar um balde de plástico vazio e coloca-o na sua cabeça como um chapéu bizarro. Nesse instante, com alguns cristais de areia a escaparem da boca do balde e enquanto toda a família se ri da sua figura, ele tem uma visão, brilhante como a luz do sol, sente-se a ser enterrado, num outro lugar, o seu corpo maior no fundo de uma cova e a terra a cair ás pazadas sob um coro de risos, ele grita mas ninguém ouve, e a luz desaparece enquanto se sente sufocar com a boca cheia de terra. É o pai que o tira dali, aos gritos, segura-o pelas axilas e puxa-o. Ninguém percebe, a mãe pega-o ao colo como uma pietá e faz-lhe festas na cara, enquanto ele chora como um bebé.

Chave de Sol, 2

A tarde resolve-se em abandono, as famílias vão abandonando a praia, carregam com as trouxas e as pranchas, e as crianças, que moídas pelas brincadeiras na areia e na água, ainda tem forças para brincar e rirem sem motivo. Ele fecha o livro, não sem antes o sacudir como um espanador para expulsar a areia. Enfia-o pela goela do saco, e aproveita para tirar de lá uma maçã que come sem pressas. O disco do sol declina no horizonte, nas bandas do Bom Sucesso, as árvores da outra margem da lagoa escurecem, consegue ver donde está, os banhistas solitários e grupos maiores que também se retiram para os seus carros de metal em brasa. Acaba de comer a maçã. Um bote de pesca passa diante de si em direcção ao cais com dois homens no convés, um segura a manete do motor da popa e tem abafadores de som nos ouvidos, enquanto o seu colega está de pé, mas com as mãos atadas ao banco do bote, e grita desabridamente. Não tem abafadores, e a sua loucura parece fazer sentido. Deve estar a ouvir sereias, pensa. E coloca-se também de pé com o pescoço esticado e limpa os ouvidos com os dedos mas não ouve de nada de invulgar, os gritos do homem no bote de pesca, o marulhar de vozes e ruídos de um fim de tarde na praia. Volta a sentar-se. Eram horas de ir.

Nota histórica

A História guarda imperfeitamente, e com erros, a memória do grande imperador romano Calígula. Dizem que ele era louco e que deixou o império em herança ao seu cavalo, enquanto o estudo das fontes demonstra a falsidade dessa afirmação, trazendo ao conhecimento de todos que Calígula, ao invés, pretendia deixar o império a Equus, o seu gato persa, o que os romanos nunca lhe perdoaram – despoletando, aliás, a conspiração que o matou – por Equus não ser romano nem de famílias patrícias. Também é injusto chamar-lhe louco, porque Calígula era inatamente incapaz de ser louco, por não ser humano, antes o mais novo de uma ninhada de leõezinhos criados em cativeiro por Agripina – que se reputa ser mãe dele – e que Agripina criou com desvelo, dando-lhe de mamar como a um recém-nascido, para prejuízo dos seus mamilos, e chamando-lhe carinhosamente botinhas, devido a uma mancha de pele mais clara que ele tinha em volta das patas. Será justo dizer que Calígula, embora não sendo louco e não tendo deixado o império a um cavalo, fez algumas coisas bizarras e inadequadas, mas, em todo o caso, fez mais do que aquilo que nos habituamos a ver os leões realizarem. E, apenas por isso, merece ser louvado.

Explicação causal

Inspirado pelo romance-sonho de Morris West, As Sandálias do Pescador, a igreja de Pedro decidiu, há uns anos, alienar tudo o que podia do seu património artístico e imobiliário para reunir o dinheiro necessário para erradicar a fome do mundo e assegurar uma paz perpétua entre as nações.

Para que essa decisão histórica fosse levada a cabo, só faltava a assinatura do insigne representante do Vaticano. E no momento em que o insigne representante do Vaticano ia assinar o documento, cortou-se numa folha de papel, e tudo ficou em suspenso.

E explico, o representante sugou com os seus lábios o sangue que corria do corte no dedo, e como um bom vampiro, não deixou de sugar o seu próprio sangue, alimentando-se de si mesmo, motivo porque ninguém estranha que continue a existir tanta fome e tantas guerras enquanto o documento não vê a hora de ser assinado.


"As Sandálias do Pescador", filme de Michael Anderson (1968)

O relicário

- Sabe como é…as religiões caem, e os impérios também, um dia somos estimados e ricos e no dia seguinte andamos por aí a servirmo-nos de expedientes e biscates para sobrevivermos e termos comida na mesa.

O guia fazia-se á esmola, descaradamente, e no momento em que a ofereci, ele, de pronto, fez-me entrar no relicário, uma divisão pequena, ogival, com uma estante única em redor que subia em espiral até á clarabóia no alto onde a luz se derramava no compartimento por um vidro vermelho escuro.

Segredando, como que para não perturbar o sono dos justos, ligou o seu ponteiro Laser, e começou a apresentar-me as relíquias.

«Três pêlos das patilhas de Che Guevara enroladas numa folha de tabaco; sete fragmentos de estátuas de Lenine, derrubadas em sete países diferentes; um rolo com cartas de Karl Marx; um exemplar do Livro Vermelho; o rolamento dum tanque da Primavera de Praga; o gato mumificado de Trotsky…»

- Desculpe interromper, e não se esqueça do lugar onde o interrompi, mas porquê este relicário? Vocês não acreditam numa religião, em milagres, como tal, não fazem falta relíquias, ou souvenirs…

O guia aproximou-se, e a sua voz voltou ainda mais sussurrada do que antes, quase inaudível.

- Os novos tempos serão erguidos sobre as cinzas dos tempos mortos, como a Fénix. Quando o mundo vir este relicário ser pasto de chamas, é o sinal que todos aguardamos para o alvorecer da sociedade sem classes.

Uma sala, oval, metade da perímetro da sala constituído por um parede de vidro translúcido que dá, supõe-se para um jardim, talvez com roseiras e árvores floridas e talvez uma piscina onde uma beldade loura e nua boiará numa colchão de ar sob um sol generoso de Agosto, e digo supõe-se, porque o vidro é translúcido, percorrido por ondas fantasmagóricas de azul, verde e dourado (o Sol ou o cabelo da loura) e nada de concreto se pode afirmar sobre o que existe do outro lado; dos elementos que se oferecem ao nosso olhar apenas podemos inventariar objectivamente o que existe dentro da sala: uma mesa comprida, algumas cadeiras, um aparelho eléctrico colocado ao lado da mesa como um rádio-transístor dos antigos, diferindo destes por alguns fios que saem dele e que terminam em eléctrodos prateados. Não há mais objectos. Se tivermos tempo, ainda conseguimos isolar com uma perícia laboratorial, uma mancha castanho-escuro no tampo da mesa, oriunda dalgum derramamento de sangue, isso conduz-nos à certeza de que acabamos de entrar numa sala de interrogatório e tortura. E quando chegamos aí, é com nítida ansiedade que conseguimos, ainda, imaginar que do outro lado daquela parede, existe verde e água, e uma loura que dentro de instantes nos oferecerá um daiquiri enquanto nos acaricia o peito com os seus cabelos molhados.

O médico encarou o seu paciente com um olhar carregado, a segurar nas mãos os exames chegados do laboratório.

- Você tem de mudar de estilo de vida, se quer continuar vivo, demasiadas gorduras, sal, fritos, tem as veias a entupir e o coração a correr como um doido. Tem de serenar, homem, fazer uma pausa na comida rápida, deixar de comer em pé e sentar-se um pouco, comer devagar e com qualidade. Nada de hambúrgueres, sopas pré-fabricadas, cachorros quentes, comida de plástico! Percebeu bem?

- Sim, senhor doutor, acho que sim, verei o que posso fazer…

Voltou á sua rotina diária, ensaiando uma mudança de hábitos, a comer hambúrgueres, sopas pré-fabricadas, cachorros quentes, mas sentado numa cadeirinha de praia em poliéster que arrastava consigo, dobrando e desdobrando ao lado do balcão dos snacks, na tentativa de serenar, e beneficiar de uma refeição mais pausada e saudável.

A maciez do silêncio

Na casa de hóspedes, houve uma visita da morte. A bela senhora Graciosa, do número catorze, morreu na sua cama, a morte foi até ali e levou-a e, no entanto, parecia que ela ainda estava a dormir, não havia sinais de convulsões ou estrebuchamento, a velha senhora tinha as feições e os cabelos compostos como se nem sequer tivesse dado por isso, e no seu quarto e por toda a casa, se manteve o mesmo asseio imperturbável, a mesma ordem impecável bafejada pelo cheiro a velhos, à conta daquela visita não houve nenhum móvel virado, uma flor seca nalguma das jarras espalhadas pelos cómodos, uma folha de papel ou um clipe fora do sítio, um plumoso cotão arrancado do seu repouso no piso inferior duma cama. Uns dias depois, uma nova visita, mas diferente, a de um credor que veio apertar os colarinhos ao aposentado Madruga, do quarto onze, por causa duma dívida que este tardava em saldar; entrou aos gritos a exigir ser recebido, deu pontapés em tudo o que encontrou pelo caminho, inclusive o traseiro anquilosado da Dona Ercínia, a senhoria, e quando se entrevistou com o desgraçado, deu-lhe uma sova mestra e partiu ou tentou partir tudo o que viu em volta no quarto. Horas depois, com o aposentado Madruga a gelos na cama e a gemebunda Dona Ercínia a servir de enfermeira, comentava a senhoria para o seu hóspede: “Bem me parece, que prefiro a morte a outro credor!”.

O mundo está pela hora da morte, concluiu, e logo, acertadamente, atrasou o seu relógio.


Sempre que se justificava, ou lhe era pedido, o caseiro trazia até á casa grande da herdade o que a terra e os animais davam. Alfaces, frutos e tubérculos da horta, ovos do galinheiro, laranjas sumarentas, figos deliciosos...Entregava tudo á patroa, entrando na casa pela porta da cozinha, carregava os produtos em cestos, ou baldes de plástico com etiquetas apagadas de banha de porco, e depositava-os timidamente junto á despensa, retirando-se acto contínuo com o olhar baixo, e esfregando entre as mãos o velho boné cinzento. A patroa achava que ele andava triste, sempre fora um homem reservado e distante, mas nos últimos tempos achava-o triste como uma sombra. Ainda lhe perguntou se ele precisava de alguma coisa, dinheiro, roupa, ou de um médico. Mas ele negava, embaraçado por ser motivo de atenção. Uma tarde, com outros baldes com batatas que trouxera do anexo, já desgreladas, veio um balde vazio, com o fundo raso de água. A patroa perguntou para o que era aquele balde, e o caseiro confessou com um meio-sorriso que viera por engano, e que a água era sua, e salgada. A patroa não percebeu, pelo menos naquele dia, e aquela resposta só se tornou clara quando encontraram o seu corpo pendurado de uma corda numa das árvores do pomar.

A casa da música

A repórter conseguiu entrar a custo no grande depósito subterrâneo, atrás dela seguia o cameraman, um técnico de luz, e um auxiliar de produção com uma pasta de cabedal na mão. O espaço estava bem iluminado, em todos os sentidos podiam-se ver caixotes estreitos e compridos, com tampas corrediças em madeira prensada. O entrevistado em potência recebeu-os para uma exposição preliminar do seu trabalho, era um homem de idade avançada, com um fato de trabalho coberto de pó e que os mirava através de umas lentes com muita graduação, apesar da idade não se percebia cansaço algum nos seus gestos e expressões, o seu aperto de mão era firme e enérgico, como o de um homem que deseja muito alguma coisa e que trabalhará até ao último alento para o conseguir. Enquanto o auxiliar de produção tomava notas, a repórter estabeleceu uma pequena e espontânea conversa com ele, que serviria de molde para a entrevista que iria ser gravada. O homem idoso era maestro e compositor, um dia, enquanto assistia ao funeral de um amigo de infância, e ao olhar para as lápides que o rodeavam, lembrou-se que essa era o modo mais fidedigno de perpetuar a música para um futuro incerto, mesmo para um futuro apocalíptico que sobreviesse a um cataclismo de escala planetária ou a uma guerra nuclear – a música, deveria ser gravada em lajes de pedra, e estas acondicionadas num abrigo nuclear, á espera de serem recuperadas.

O compositor tomou a si esse cargo infindável. As músicas eram gravadas na pedra através de um Laser, numa escala reduzida, com várias pautas compreendidas numa só laje. O acervo foi crescendo de ano para ano, e depositado periodicamente no abrigo. Começara com as obras e compositores de música erudita, mas graças às pessoas que aderiram ao projecto e aos meios entretanto reunidos, foi-se estendendo como os raios de uma roda por todos os campos de criação musical. As lajes eram arrumadas por ordem nos caixotes oblongos, com estes depositados em estruturas sobrepostas, estruturas compostas numa liga metálica desenvolvida pela engenharia aeronáutica. Havia compensadores de oscilação no interior dos caixotes e nas estruturas, para anular os efeitos de eventuais abalos sísmicos.

A entrevista desenrolou-se no próprio abrigo, e durante todo esse tempo, o abrigo foi selado do exterior (não fosse o diabo tecê-las, e cair alguma bomba). As perguntas eram quase as mesmas da conversa prévia, limadas ou corrigidas pelo auxiliar de produção, e a exposição do compositor foi convincente e apaixonada, mostrando a todos, mesmo a profissionais tarimbados como os que conduziam aquela reportagem, todo o amor e devoção que aquele homem tinha pela música.

Terminada a entrevista, e após alguns planos filmados no abrigo, saíram todos para o exterior e o abrigo foi selado novamente. Daí seguiram para as instalações onde as notas de música eram gravadas na pedra, mas o auxiliar de produção tinha questões a colocar ao compositor que o mantinham desassossegado.

- Diga-me – pediu, sentado ao seu lado durante a viagem – o que aconteceria se nascesse um vulcão no lugar onde foi construído o abrigo? Não seria um fim patético para tanto trabalho?

O compositor riu com vontade.

- Todas as hipóteses foram estudadas, todas mesmo! O local da construção do abrigo foi escolhido depois de analisados todos os riscos sísmicos, geológicos e climáticos; é mais fácil nascer um vulcão na minha casa ou na sua, do que naquele lugar.

- Já agora, diga-me outra coisa, um pouco mais especulativa. E se as suas lajes só fossem descobertas daqui a duzentos ou trezentos anos, numa altura em que nenhum sobrevivente da raça humana conseguisse ler uma só nota de música?

O compositor não se riu, e o peso dos seus anos de vida, transpareceu no seu olhar cansado.


Campanha

Compre a mobília da sua casa!
Atendendo à crise económica duplicamos as suas facilidades de pagamento:
Agora, e agora!


Obra humana

O autor de histórias fantásticas redigiu um conto com um enredo nunca antes sucedido, escrito ou imaginado – três crianças, pastorinhos, vêm a Nossa Senhora num ermo rochoso, e a aparição entrega-lhes uma mensagem de vida ou de morte para o mundo, uma mensagem tão espantosa e tão terrível que é dividida em três partes para minimizar o efeito, e impedir o pânico das multidões. Dois dos pastorinhos morrem, e fica o terceiro vivo, de forma análoga, mas não síncrona, ao que acontece com a dita mensagem dos céus, as duas primeiras partes são reveladas ao vulgo, permanecendo o último terço da mensagem e o mais importante, oculto e fechado a sete chaves em cofres episcopais. É o Terceiro Segredo, o que nos salvará ou perderá, o Armagedão e a descida do Salvador. Então, escreve o contista, o terceiro pastorinho morre, e revela-se o Segredo, e o segredo é que não é segredo, nada para revelar, um balão cheio de ar, o mais raquítico dos ratos parido pela montanha mais grandiosa do mundo.

A mulher do contista lê as provas do conto, e esbarra no final.

- Que fim mais insípido, não o podias acabar de outra forma?

- Podia! – confessa ele – mas a verdade é que se ele ficar assim, prometeram-me que eu ingressava no Opus Dei!

Circunscrever o mundo

Sem alardes, com o sigilo de uma sociedade secreta, reuniu-se na sala de conferências de um hotel da baixa, a segunda convenção dos Cépticos Iluminados. Eram por norma, quinhentos conferencistas, porque quinhentos eram, segundo eles, o número absoluto das fraudes e ilusões em que os ignorantes viviam. Antes do início dos trabalhos, cada um dos conferencistas subia ao palco e recitava uma das alíneas do seu não-credo.

- Eu não acredito em seres mágicos e fabulosos! – disse o primeiro.

- Eu não acredito em Deus e quejandos! – disse o segundo.

- Eu não acredito em continentes perdidos! – disse o terceiro.

E por aí diante, eu não acredito…eu não acredito…eu não acredito…

No final, facto sem precedentes, subiu ao palco o quingentésimo primeiro conferencista.

- Eu não acredito em vocês! – rugiu o Minotauro, e investiu sobre a assistência.

Piramidal

- Quando é que o meu túmulo ficará concluído? – inquiriu Quéops a Usermaat, o seu arquitecto-mor.

- O meu trabalho está pronto, só falta o trabalho dos artistas, mas como dizem os padres de Ienu, o seu túmulo não o protegerá.

- Serei imortal!

- A tua alma na barca de Rá será imortal, mas o teu corpo será profanado e desaparecerá, apenas ficarão as paredes nuas e esse imenso sarcófago de pedra em que poderia caber um gigante.

- Falas como se tivesses dentes na garganta, Usermaat, falas assim ao teu rei, filho do deus-sol, porque sabes que terás de morrer hoje, e arder com os teus planos. Mas repito-te, serei imortal, e serei o mais feliz dos imortais, e isto durante séculos e séculos, e sabes porquê?

- Diz-me, meu senhor!

- Porque no alto da barca do sol, terei sempre motivos para me rir com todas as parvoíces que serão ditas sobre a pirâmide que terá o meu nome.

Saídas nocturnas

O ladrar dos cães acordou-o a meio da noite. A mulher estava ferrada no sono, pelo que se levantou com discrição. Vestiu o roupão, segurou a lanterna e saiu para o jardim, os cães continuavam a ladrar, num coro conjunto com os gansos. A luz do candeeiro de rua inundava todo o espaço e deu para notar que não havia nada de estranho no seu terreno, mas como a vozearia dos animais não cessava, aproximou-se da sebe que o separava da rua e espreitou. Primeiro apanhou um susto, mas logo racionalizou a coisa. Na valeta dum e doutro lado da estrada estavam deitados homens, com uniformes militares, seguravam as armas e pareciam à espera. Viu logo que eram tropas, como não podia deixar de ser, e deveriam estar a cumprir uma saída de campo. O quartel estava a mais de trinta quilómetros dali. Um deles viu-o e levou o dedo indicador aos lábios enquanto piscava o olho, o que só a custo percebeu porque esse, como os restantes, tinha o rosto enegrecido. Saudou-os com uma continência militar improvisada, apagou a lanterna e voltou ao quarto. Como já esperava, a mulher estava acordada, nunca acordava com os ruídos ou emergências mas reservava esse gesto às alturas incipientes que se lhe seguiam. Devia dever-se a algum instinto singular de auto-preservação.
- O que é que se passa?
- Tropas, dezenas deles, devem estar numa saída nocturna, têm a cara pintada com cortiça queimada, e estão deitados na valeta junto ao nosso jardim.
- E são muitos?
- Dezenas, já te disse...
- E são bonitos?
- Por amor de Deus, mulher! Fazes cada pergunta mais estúpida.
Virou-se para o outro lado e adormeceu quase de seguida, tão tranquilo que estava. A mulher não, ficou um bocado a pairar na solidão enorme daquele leito, os olhos muito abertos, e todos os seus sentidos alvoraçados. Levantou-se da cama e desceu á cozinha, acendeu um bico do fogão e procurou nas gavetas dos talheres, uma rolha de garrafa de champanhe que vira por ali. Encontrou-a. Iria precisar também de um espelho de mão, e daquelas botas de cano alto que usava no Centro Hípico.


Ficção desconfortável

Os seus primeiros passos na ficção narrativa foram dados com desenhos, criava banda desenhada no estirador do seu gabinete de trabalho, a história desenrolava-se em quadrados, reunidos em tiras e em páginas de tiras de desenho, tudo criado no tampo do seu estirador. Com o passar do tempo, as palavras sobrepujavam as imagens, e as tiras de banda desenhada pareceram-lhe um beco sem saída. Aventurou-se então na ficção inteiramente escrita, na mesma altura em que mandou substituir o estirador por um móvel-contador.

Refinamento

Manhã de dia de semana numa pastelaria do centro da cidade, clientes maioritariamente femininos, de classe média-alta ou a dar-se ares disso, tomam o pequeno-almoço em mesas onde o perfume no ar é subtil e insidioso, e falam dos filhos e netos, o advogado tal, o meu filho engenheiro, a professora de ballet, o consultor, o deputado, algumas trazem à baila o belíssimo sermão do pároco no Domingo anterior, o sarau de leitura de poesia na Biblioteca Municipal, os sucessos com as orquídeas ou gardénias dos seus jardins abençoados, as fotos do casamento da Titinha no fotógrafo da moda. Naquele ambiente controlado entra um besouro, negro e enorme, uma senhora gorda, simples, vestida de preto, de lenço na cabeça, segura na mão carregada de anéis um porta-notas em cabedal puído. Deveria ter estado a vender no mercado da fruta, a alguns quarteirões dali, ou então era uma mulher do interior que chegara ali naquelas levas de gente suada e pirosa das excursões turísticas. As damas da mesa mais próxima, dedicam-lhe a atenção, prontas a rirem-se do que ela pudesse dizer ou fazer. Dona Graciete, sobretudo, está ansiosa pelo voo desastrado daquele besouro, ela é a respeitada líder daquele grupo de mulheres ociosas e afectadas e cabe-lhe fazer as honras da casa sempre que a ocasião se justifique.

A mulher ainda não reparara que era tão estudada, mostra-se cansada, talvez lhe doam os tornozelos, de caminhar muito, ou de suportar o seu peso avantajado. O empregado aproxima-se dela.

- Queria uma meia-de-leite normal e um croissant simples!

Croissant, croissant, pronunciado de forma exemplar, com as sílabas a enrolarem-se no céu da boca e a elevarem-se no ar como volutas de ar gelado. Dona Graciete está abismada, estão todas. Como era possível? Aquela saloia a pronunciar croissant daquela forma, era mais chocante do que se as mimasse com insultos e obscenidades. O empregado vai executar o pedido, mas não pode ignorar a Dona Graciete que ergue insistentemente o dedo no ar, como um aluno espertalhão da primeira fila da sala de aulas.

- Diga, Dona Graciete.

- Je veux un pain avec beurre et fromage!

Ele aquiesce, habituado às idiossincrasias da clientela.

- E em que pão? Vianinha ou pão caseiro?

Ela sente-se gelar, os olhos das amigas estão fixos nelas, e os da cidade e do Universo inteiro.

- …Huum!...Caseirô, s’il vous plaît!

Coabitar

Afundou o rosto entre as mãos, olhando a mulher com alguma exasperação.
- E que condições são essas, tão importantes assim?
- Não quero confusões de escovas de dentes, é a maior porcaria que me podem fazer. E quero que me entregues a nossa cama de casal. Fui eu que a comprei, e ao colchão. Os nossos corpos andam pelas ruas, mas é na nossa cama que fica o segredo da nossa intimidade, do amor que demos e fizemos, os nossos sonhos.
- Seja! A cama!
O marido sai da sala, dá três passos no corredor do apartamento e abre uma das portas.
- Leonor, ajuda-me na mudança, a minha mulher não nos quer na cama dela!

Deserto de cal

Relaxou-se na cama de rede, munido de um pequeno bloco de notas e uma caneta. Queria escrever algo de diferente, de novo, com a frescura e a novidade que só o ócio mais despudorado consegue atrair. Balançou-se na cama de rede, com a cabeça afundada na almofada grande, as linhas do bloco vazias, e a caneta inerte, humedecida de suor na palma da mão. As palavras não surgiam, nem novas nem velhas, espantava-as o zunir das moscas e o piar dos pássaros nas árvores do pomar. Sobre as linhas desenhou também pássaros, pequenos, estilizados, como pardais pousados em fios de luz. Se não havia meio de aparecerem as palavras, ao menos que se anulasse o vazio, como um bater de asas.

O guerreiro de armadura prateada encolheu-se a um canto da muralha, queimava-lhe as faces o sopro quente e infernal das ventas do cavalo, mas não era isso que mais o preocupava. A sua imensa angústia repartia-se entre o bispo enlouquecido que manejava um machado com as vestes pintalgadas de sangue, e aquela rainha obscena que saíra para a luta com os seios descobertos, e os pelos do sexo à vista de todos, sujos de cinza e poeira.

Olhou em volta, desesperado, os caminhos tapados, o céu impossível, o refúgio num fio; e encolheu os ombros.

Era mesmo xeque-mate.

Por um preguiçoso recurso da linguagem, todos falam na luz no fundo do túnel como uma alegoria da esperança, mas isso era uma pérfida ironia para aquele maquinista, no momento em que a luz ao fundo do túnel pertencia a uma locomotiva que vinha no sentido da sua em rota de colisão.

Arcturo

Arcturo entrou na aldeia numa manhã fria de Julho, trazia atrás de si um urso gigantesco de cor castanho-fulvo e uma cria de urso, o primeiro com a boca presa num açaimo em arame e cabedal, enquanto a cria movia livremente a boca, abrindo-a para o alto como se quisesse engolir as moscas que rondavam o seu nariz. Arcturo trazia cingido a si o urso maior, uma correia enrolada no seu pulso estava atada a uma das suas patas em voltas e laçadas intrincadas, o pequeno urso estava unido ao maior por uma correia semelhante, urdida de forma negligente, menos para o controlar do que para impedir que ele se transviasse dos dois e ficasse perdido.

Não era a primeira vez que Arcturo descia à aldeia, e como das outras, repetiu o seu modo de operar. Escolheu o recanto mais despovoado do adro da igreja, onde decorria o mercado semanal, e acomodou-se no meio duns fardos de feno. Sem se importar com os olhares e comentários ou com as macaquices das crianças, abriu o seu farnel e começou a comer um naco de queijo seco, com pão igualmente duro e ressequido. Com uma faca com o fio já dentado, cortava lascas dum e doutro, e metia-os á boca até a encher por completo, rilhando-os em seguida com a boca aberta e os modos boçais de um labrusco. O urso pequeno brincava à sua volta, desfazendo a geometria dos fardos com as suas pequenas garras, enquanto o urso grande se mantinha quieto ao seu lado, sentado num fardo como uma pessoa, e deitando-lhe olhares ávidos, como se quisesse lembrá-lo que também eram horas dele comer.

O primeiro cliente acercou-se deles, mal tomou coragem. Era um lavrador rico, com muitas terras e homens ao serviço, mais os que empregava à jorna na época das sementeiras ou colheitas. A sua prosperidade estava ameaçada por uma infestação de toupeiras que minavam as suas hortas e lhe destruíam os vegetais; e como ouvira dizer que os ursos tinham o faro dum perdigueiro, será que os seus animais estavam á altura da empresa? Ainda rilhando no queijo e pão rijos, Arcturo levantou-se numa resposta clara, e seguiu o homem com os seus animais. Palmilharam juntos o caminho até à fazenda a que aludira, cerca de uma milha mal medida, e aí mostrou a Arcturo o que lhe narrara – uma planura densa preenchida com culturas variadas e onde um olhar mais atento conseguia descortinar as pequenas clareiras com as covas e montinhos de terra criados pelas toupeiras. Arcturo libertou o urso mais pequeno, que se afadigou em volta duma das tocas, esgravatou, rosnou, e conseguiu extrair terra suficiente, para o seu corpo mergulhar na terra até aos quadris, mas não fez mais do que isso, com os braços e o focinho encravados na cova alargada e as patas traseiras a agitarem-se no ar em desespero. Com um suspiro fundo, Arcturo socorreu-o e puxou-lhe pelas patas até o libertar. Ainda iria ter muito trabalho com aquele urso. Como último recurso, enrolou a correia em volta da perna do urso maior e tirou-lhe o açaimo.

Não foram precisos conselhos ou incitamentos. O urso, sob o olhar apreensivo do lavrador, caminhou pelo meio das hortas como um predador experiente, cheirando á boca das tocas, tomando sentido do número de presas que se recolhiam no solo, dos seus movimentos e saídas, adequando o seu instinto ao instinto delas, então, num paroxismo de actividade abriu uma cova no meio dum campo de alfaces, rodando as patas armadas como a gadanha dum ceifeiro, e logo deu com uma pequena galeria, onde meteu as patas e o focinho, atacando com urros violentos. Os urros eram assustadores, mas menos assustadores do que o sangue abundante, e as toupeiras que os seus dentes destroçavam sem clemência. Devoradas aquelas, repetiu a operação em três outros pontos da horta, só se dando por satisfeito, quando se certificou que não havia mais toupeiras no solo. Algumas delas, não devorou, a sua saciedade deixara para trás os seus corpos desmembrados entre os vegetais. Como uma mascote obediente, voltou para junto de Arcturo e enroscou-se aos seus pés, este esfregou-lhe as orelhas com as palmas das mãos e colocou de novo o açaimo, cingindo-lhe o urso mais pequeno, que se escondia atrás das suas pernas.

O cliente olhou descoroçoado o campo com crateras, como um campo de batalha, mas não o demonstrou. Agradeceu vivamente a Arcturo pelo serviço, em palavras emocionadas, e correu a casa para ir buscar dinheiro para lhe pagar, desejoso de se ver livre daquelas três criaturas.

Arcturo voltou ao adro da igreja, e recebeu um novo encargo. Um fidalgo de província pagou-lhe para que o urso mais pequeno divertisse as crianças, filhos de convidados seus, que brincavam nos jardins da sua mansão. Arcturo conduziu até lá os animais, deixou o urso maior atado a um dos ferros duma vinha em latada, e exibiu o urso mais pequeno diante das crianças, depois de lhe improvisar um açaimo, atando em volta do focinho algumas voltas dum cordão de sisal. Foi um trabalho fácil porque, como todas as crias e crianças, o pequeno urso gostava de brincar, e bastou-lhe colocar um galho com folhas por cima da cabeça, para que o animal tentasse alcançá-lo, erguendo-se sobre as patas traseiras e dando várias passadas em volta numa dança patética, para gáudio da assistência.

Na hora de lhe entregar o pagamento, o fidalgo pediu para lhe falar dum novo trabalho. Conduziu-o a um recanto mais isolado do jardim, fez-lhe servir um xerez, e expôs-lhe o que pretendia dele. Sabia que ele vivia numa cabana de madeira no meio de matos e silvas, um lugar miserável ao lado de uma caverna onde mantinha os seus ursos, e isso não era vida para ninguém. Ora, se ele lhe quisesse fazer mais um serviço, iria recompensá-lo generosamente com várias moedas de ouro, e ele poderia obter uma vida melhor para si e para os seus animais. Suspeitando do que vinha a seguir, Arcturo pergunta-lhe se esse serviço consistia nalgum crime de sangue. O fidalgo confirma, precisava que fosse morto um vizinho seu, um homem odiado que se recusava a vender-lhe as suas terras, o seu urso maior não teria qualquer dificuldade em arrancar-lhe a cabeça.

Arcturo nega-se, recolhe o dinheiro que o fidalgo pagara, prende a si os seus animais e regressa ao casebre, deixando atrás de si, um homem fervendo de rancor que não lhe perdoaria a recusa. Uma semana depois, Arcturo apresta de novo os seus ursos para descer ao mercado da aldeia, e quando os tem já prontos para partir, um homem encapuçado surpreende-o dentro da cabana e corta-lhe a jugular com uma navalha, deixando-o a agonizar no chão de terra. Algumas horas depois, o urso grande espreita à porta da cabana e descobre Arcturo, já sem vida, que jaz no meio da terra empapada em sangue. Como se Arcturo o guiasse, o urso grande toma o caminho da aldeia, arrastando consigo o urso menor. Repete a rotina de todas as semanas, alcança o recinto da feira e instala-se num canto mais sossegado com o seu companheiro, aguardando por trabalho em troca de comida. Ninguém se aproxima deles, estranham a ausência de Arcturo e não se atrevem a chegar-se perto, nem mesmo as crianças que os costumavam imitar com as suas momices. Os dois ursos ficam ali sentados até ao fim da feira, e depois tomam o caminho da cabana e da gruta. Nunca mais seriam vistos pela aldeia, nem eles nem Arcturo, alguns peregrinos e almocreves contavam que os chegavam a avistar nos montes, isolados ou juntos, a caçar e recolher frutos silvestres. Mas não eram temidos por ninguém, eram como se fossem da família de todos, porque as pessoas não se esqueciam da sua presença nas feiras da aldeia, de como trabalhavam bem, e dos passos dançantes do pequeno urso. Nem mesmo a morte misteriosa dum fidalgo da aldeia, encontrado sem cabeça nos jardins da sua casa, foi capaz de manchar ou prejudicar a boa memória que na aldeia se guardava dos ursos de Arcturo.

Noctâmbula

Acordou com os lábios dela na sua face, ainda era noite cerrada.
- Preciso ir! - lembrou-lhe.
Levantou-se, e saíram os dois do quarto, os corpos nus enrolados no lençol da cama. Sentaram-se no tapete da sala, o corpo dela era um refúgio macio e cálido, e ficaram por ali mais algum tempo, como se ela não precisasse mesmo de ir, um disco de Miles Davis na aparelhagem, o luar inundando a sala. Não demoraria muito para que o dia nascesse e os seus beijos tinham já o travo agridoce da separação. Tentando sorrir, para aligeirar o momento, ele viu-a enrolar-se no lençol branco e aproximar-se das vidraças. Aquilo enternecia-o sempre, o modo gracioso como ela erguia o lençol acima da sua cabeça, e o soltava sobre a sua nudez. Quando o lençol aflora o chão, ela já não se encontrava ali, dissolvida no luar.

"João Alves Aniceto, atirador olímpico, voltou às páginas dos jornais, mas por motivos diversos. A polícia viu-se obrigada a intervir e levá-lo para a esquadra depois de Aniceto ter disparado vários tiros durante a noite passada, tiros que tiveram como único alvo as paredes interiores da sua casa. Questionado pelos agentes, João Aniceto afirmou que só estava a tentar acertar na mosca".

O aparador

A imagem formou-se no seu espírito enquanto bebia uma cerveja encostado à varanda do apartamento. O prédio defronte era um edifício monocromático e monótono de linhas muito direitas, apartamentos com dimensões iguais, e todos guarnecidos de uma varanda para o lado da rua. Donde estava, cada apartamento parecia uma gaveta, e as varandas de balaústres, os puxadores das gavetas. Mas não se contentou em degustar essa imagem, porque era uma pessoa de acção, e num ímpeto desencostou-se da varanda, atravessou a rua com duas passadas, e meteu as manápulas aos puxadores dos apartamentos-gaveta, abrindo-as para ver o que escondiam. Entre gritos de incredulidade e pânico, foi coscuvilhando. Ria-se das pessoas que acordavam estarrecidas nas suas camas, ou das famílias em histeria à volta da sala de jantar, com a louça e o comer baldeados, mas bastou surpreender o primeiro casal em aveludados jogos amorosos, para enrubescer de vergonha, e arrepender-se das suas tropelias, e, ainda corado, voltou a atravessar a rua, escorropichando as últimas gotas de cerveja que escorriam da cisterna do camião-tanque.

Por superstição, apenas por retinta superstição, na casa daquele homem nunca se sentavam treze á mesma mesa. Ele era um solitário e nunca recebia ou convidava amigos para almoçar ou cear com ele, mas isso não era uma impossibilidade. Na realidade, ele tinha alguns dedos amputados, exactamente, sete, e na sua casa, quando se sentava à mesa para comer, encostava uma das mãos ou um dos pés a uma mesa contígua, para não contabilizar essa soma numérica de má-sorte.

Piquenique com chuva

- Piquenique! Boa! Piquenique!
A família preparou tudo, as troços quadrangulares de folhas para se estenderem lá fora a arejar a casa, as sacolas confeccionadas com tiras de pétalas enroladas, os rádios e as antenas. Sairam do buraco da árvore e viram que chovia forte e feio, uma chuva torrencial.
- Piquenique! Boa! Piquenique! - repetiram os caracóis mais novos, sacudindo as antenas enquanto deslizavam pelo ramo da árvore.


Ei! books!

Deixo-vos os linques para dois e-books que me deu gosto ler:

Pela seu valor narrativo e estético, o Des Petits Morts, com textos de Pedro Amaral, e a arte de Miguel Moreira.

Pela inovação, o Tamanho Não É. Doc, que reúne micros de cinco autores, Erik Kurkowski Weber, Fabio Cunha P. Coelho, Henry Alfred Bugalho, Rafael T. Okada, e Wilson Gorj.
Muito se tem tentado estabelecer se uma micronarrativa deve ter o máximo de cento e cinquenta, duzentos ou trezentos caracteres. Para quem escreve, ou se tem alguma rotina em criar micronarrativas ou o seu processador de texto tem de ter um contador de caracteres associado a um alarme sonoro; mas todos os textos desta obra foram publicados inicialmente no Twitter, ou seja, têm, forçosamente, menos de cento e quarenta caracteres, o que torna o Twitt no molde ideal para um microconto. Pode-se seguir o exemplo ou esperar que, com o tempo, escrever microcontos se torne numa prática intwittiva.

Unidade plural

Vivia evadindo-se, da rotina e dos hábitos entranhados, do trabalho maquinal e chato, dos pequeninos gestos que eram enfastiantes, e que tinha de repetir todos os dias, das caras das pessoas que aos seus olhos se semelhavam a máscaras de gesso.
Quase sempre, evadia-se vestindo outros personagens e outras vidas, mudava de nome e de profissão, e sobre-vivia como um pintor, um milionário, uma estrela de futebol, um poeta com obra publicada; e a cada personagem fazia corresponder uma diferente história pessoal, manias e hábitos, sonhos e paixões.
Quando o seu ser recorrente e rotineiro morreu, houve uma mortandade silenciosa de heterónimos nas salas de chat.

O espanto percorreu a rua inclinada, quando se viu um chifre de elefante a deslizar sobre um carro de rolamentos.
Apenas o carteiro, muito calmo e fleumático, não se deixou contagiar pela surpresa de todos.
- Não se excitem - recomendava - é preciso aceitar as coisas tal como elas são, e deixar correr o marfim.


Além muito além

No mesmo momento em que um camelo microscópico passou pelo buraco da agulha, entrou o primeiro pobre no reino dos céus; mas não entrou de pleno direito, antes a título excepcional e com a condição de aspirar as impurezas das nuvens, e pagar uma hipoteca pelo cantinho miserável onde o deixam residir.

Prémio Lemniscata


O José Alexandre Ramos atribuiu-me (já começa a ser uma tradição ;) o Prémio Lemniscata. Agradeço ao José Alexandre Ramos, e dou continuidade á corrente, transmitindo a literatura inclusa do prémio, e designando sete outros blogs, desta feita, incidindo a escolha na temática do fantástico e da ficção-científica.

«O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.

«Lemniscata: curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante. Lemniscato: ornado de fitas; do grego lemniskos, do latim, lemniscu; fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores. (in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)».

E os designados são:

Efeitos Secundários de Luís Filipe Silva
Bladerunner de João Seixas
Rascunhos de Cristina Alves
Montag de Pedro Marques
Rpgsproject de Tulio D Bard
I Dream in Infrared de Rogério Ribeiro
IntergalacticRobot de Artur Coelho

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...