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Vestígios

A porta do armazém foi aberta, com um chiar das velhas dobradiças de latão, e o velho de boné e uniforme de revisor, deu-lhe passagem e tranquilizou-a.
- Está á vontade, minha senhora, leve o tempo que precisar!
Ela olhou por cima do ombro o cais da estação de comboios, depois, adiantou dois passos e entrou no armazém mergulhado na penumbra. Sentiu o peso dos objectos e volumes que repousavam nas estantes, e sentiu-se, de repente, mais velha e mais cansada. Tapou as narinas com um lenço enquanto não se habituava ao cheiro a mofo e às partículas de pó que dançavam no ar à sua passagem. Reconheceu o lugar onde tinha suspendido a busca na véspera, um ponto inconfundível da segunda estante assinalado por uma boneca loura de vestido vermelho, em pé sobre a estante como um fulvo ponto de exclamação. Recomeçou a partir daí, a examinar os objectos, tomava-os nas mãos, ao tacto, via-lhes os ângulos, os detalhes, cheirava-os, rodavam nas suas mãos imaculadas, eram abertos, ou abertos os seus segredos, e voltavam para a estante logo que descobria, sentia, que eram estranhos a si. Prolongou aquela busca durante horas, e parecia não ter saído do mesmo sítio. As pessoas perdiam tantas coisas. Um livro, cadernos de escola, uma guitarra com uns salpicos de sangue ou tinta, roupas, uma peruca, mais livros, eram tanto e tão variados, admirava-se de como as pessoas não tinham regressado à procura deles, não se haviam sentido incompletos e frustrados como ela agora se sentia, e largado tudo para encontrarem o que lhes faltava.
Quando a luz do Sol começou a tornar-se mais fraca, o funcionário regressou, a mordiscar uma maçã; acendeu o interruptor da luz fluorescente do tecto e perguntou-lhe se precisava de alguma coisa.
- Não, mas hoje fico por aqui, eu volto amanhã para procurar melhor.
- Se a senhora soubesse o que tinha perdido, eu podia ajudá-la...
- Não me lembro, sei que devo ter perdido alguma coisa na viagem, mas não me lembro o quê. Quando a tiver nas mãos sei que vou descobrir. Quem sabe, amanhã, eu a encontro?
- Tenho a certeza que sim, há tanto tempo que procura que, um dia, há-de encontrar. Não há mal que sempre dure, não é? Então até amanhã, minha senhora!

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...