Por uma unha negra

Colocou as mãos sobre o volante, as duas, como é natural, porque está no plural, o volante do carro é um volante ordinário, vulgar, preto, redondo, de perfil oval, com a buzina ao centro no lugar onde se exibe o logótipo da marca, as suas mãos também eram vulgares, curtas e largas, com pêlos bravios nas costas dos dedos e entre os diversos tarsos, no pulso esquerdo o osso estava um pouco deformado como se quisesse sair pela pele, as suas unhas tinham sido cortadas recentemente e não tinham nada que se lhes apontasse, à excepção de uma mancha esbranquiçada no zona onde irrompiam da pele, que uma namorada doutros tempos lhe dissera ser da carência de cálcio, ou sódio, não se lembrava bem. Que mais podia dizer sobre as mãos? Usava um relógio, dos antigos, de corda, com três ponteiros de dimensões e velocidades diferentes, era um Omega, presente de aniversário, um relógio que caprichosamente deixara de andar quando parara o carro uns quilómetros antes para comprar o jornal. Sempre trabalhara bem, e naquela tarde, com corda e tudo, parara sem mais nem menos. Por falar nisso, lembra-se, que mania que algumas pessoas têm de oferecerem relógios pelos anos! É doentio, é como se oferecessem uma ampulheta com o símbolo de uma caveira e os dizeres: Carpe Diem! Também é verdade que não há muitas coisas inocentes para se oferecer pelos anos, os livros e os discos gritam as nossas próprias preferências e idiossincrasias, mesmo quando amenizadas pela frase ritual: Já li, ou já ouvi, este fulano, e tenho a certeza de que vais gostar! Também se pode oferecer objectos de decoração, ou souvenirs de viagens, mas aí o gosto ou a falta de gosto é decisivo e pode redimir-nos ou levar-nos á mais completa perdição; e há opções mais claras, mas menos subtis, como uma colega de curso que teve, a quem sempre oferecera pelos anos uma caixa de preservativos com sabores de frutas, sem grandes resultados práticos, pelo menos para ele. Falava do volante, e das mãos sobre o volante. Olha-as novamente, podia dizer que não usa anel, nunca usou, as alianças passaram-lhe ao lado como aquelas argolas de jogo que se atiram para um cone enterrado na areia, falharam todas; também nunca usou outro tipo de enfeites, anéis ou pulseiras; para a queima das fitas usara um fato que tinha uns botões de punho dourados que se punham e tiravam, e que achou o máximo, mas fora só dessa vez. Ouve uma buzinadela, e tira uma das mãos do volante, destrava o carro e engrena a primeira, a fila na estrada move-se finalmente ao fim de quase duas horas, e o carro percorre os primeiros metros e obriga-se a olhar novamente para o volante, sabia que já deveriam ter removido os carros do acidente mas não teve coragem de confirmar, ainda lhe palpitava no ventre aquele assomo de náusea que sentira ao ver a cabeça de uma mulher decepada do corpo, e suspensa pelos cabelos na carroçaria do camião envolvido na colisão. Olhando bem, o osso do seu pulso direito até nem parecia muito saído ou deformado, e pouco diferia do outro pulso, era apenas um osso peculiar, com carácter, e a querer afirmar-se e dizer-lhe: "estou escondido, mas estou aqui, por isso não finjas que não existo ou que não sirvo para nada". Por fim, os carros rodam a boa velocidade, sem empecilhos nem polícias, as casas desfilam em redor e a sua, era já depois da próxima curva da estrada. Também o tempo havia recomeçado a andar no seu relógio de ponteiros. Passara-lhe a mania. Sem querer, ocorre-lhe: e se não tivesse parado para comprar o jornal? Será que lhe estaria destinado apanhar com o camião desgovernado em cima?


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