Noite cerrada e ele vela ajoelhado sobre um caixote de madeira, com o olhar a afunilar-se pela janela diminuta da cave. A praça está deserta, e chove. Felizmente que já não se ouvem tiros nem explosões porque é sinal de que houve tréguas, mas, ao mesmo tempo, inibe o cálculo tranquilizador da distância que os separa dos contendores. Os olhos pesam, e esfrega-os com os nós dos dedos. Todos dormem, a mulher, as crianças, o casal de idosos do terceiro esquerdo, abraçados numa ternura sem idade. A sua consciência oscila na margem lodosa do abismo e, finalmente, o cansaço vence e mergulha, os olhos fecham-se, quase no exacto momento em que a janela se anima com sombras, de homens fardados com armas.

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