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Glosa:

Um dia é igual a outro, não há entre um e outro uma porta estanque que os divida, diferencie, como a um deserto de uma floresta tropical, o que havia de bom é que dormia sempre bem, profunda e repousadamente, e durante o sono, sonhava, sabia disso porque acordava com fiapos do sonho na retina como se fora franjas de nuvens. Quando estava acordada, não sonhava, desconhecia o que fossem sonhos de vida, projectos, anseios, também nunca soubera o que era isso a que chamavam amor, e isso nunca a impedira de respirar ou sentir desejo ou fome. Mas houve uma fase na sua vida em que isso a assustou um pouco, a época em que a juventude começara a fenecer e viu-se perante a contingência de não haver mais nada, e nada a alcançar. Lembrava-se que nesse tempo chegara mesmo a ter insónias, pensava e matutava nas coisas até lhe doer a cabeça, adormecia a custo e quando acordava, sentia os olhos húmidos como se os tivesse lavado num riacho de águas salgadas. Andou assim nessa angústia indefinida durante quase dez anos, com muitas dúvidas e oscilações de humor, a aceitar coisas terríveis com um estoicismo surpreendente, e ao mesmo tempo, vendo-se a atingir o desespero com situações insignificantes e inofensivas. Quando entrou na casa dos cinquenta, as suas angústias e dúvidas deixaram de pesar tanto, e a sua vida começou lentamente a resolver-se; ano após ano descobriu que conseguia sentir-se bem nos gestos e rotinas mais triviais, como estar horas sentada no alpendre da sua casa a admirar os melros a alimentarem-se na cerejeira grande das traseiras, ou empregar o seu tempo em volta da pequena horta que mantinha, atando às canas os tomateiros em crescimento, ou admirando com satisfação as flores amarelas dos pepineiros, raiando como pequenos sóis sobre a terra castanha. Havia pequeninas coisas que valiam a pena e que sobressaíam da aparente e fria uniformidade do mundo, como se ela se tivesse tornado um garimpeiro a joeirar a areia do leito de um riacho, agitando a peneira para soltar a areia sem valor e encontrar o brilho do ouro. Quase sem dar por isso, voltou a dormir bem, de ciência tranquila, como se houvesse tempo para tudo e os dias não fossem mais feios por serem sempre iguais.


Mote:

«A melancolia é uma tristeza que ficou mais leve»
(Italo Calvino)

2 comentários:

  1. nem mais! as pequenas coisas...

    e gostei muito, claro.

    depois virá a velhice, mas isso fica para outra glosa. :)

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  2. Uma glosa feliz com os êxitos e alegrias de filhos ou netos, e quem sabe, ainda ter saúde e lucidez para escrever um livro (ou realizar um filme, como o nosso Manoel ;)

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