e/ou/e/ou

As primeiras letras destas palavras, aproximam-nas: leproso e lépido. Suponhamos uma relação - o leproso sentiu-se lépido! E logo nos assalta uma dúvida, porque o leproso se sentiria lépido, afortunado? É comum (e errado) pensar-se que os leprosos, e os estropiados, também os doentes terminais e os que se sentem pontualmente seduzidos pela ideia de morte...pensar-se, que essas pessoas são infelizes a tempo inteiro, que não possuem momentos de felicidade ou ternura, que não as comoverá um olhar, uma paixão, uma música ou uma boa notícia que os toma de surpresa, ou um devaneio insignificante e doce como cozinhar uma refeição ou arrumar uns velhos discos de música. Mas o leproso? Será mesmo? Aqui cedemos, procura-se um argumento, o leproso seguia por uma estrada poeirenta apoiado num cajado e com a roupa espessa e áspera a ocultar as suas chagas, e encontrou Cristo, ou um dos seus discípulos, ou até Zoroastro, e esse ou um destes o curou dos seus males, e o leproso deixou de ser leproso e dançou e cantou de alegria, por fim, lépido, liberto do mal que lhe devorava o corpo e o espírito. Esta cena de personagens indefinidos tranquilizará os menos exigentes, aqueles que ainda acreditam na bondade intrínseca aos seus semelhantes e que deixam sempre a chave de casa sob o tapete da porta de entrada, mesmo depois de terem sido agredidos por estranhos no seu interior. Mas há outros, mais maltratados pela vida e por isso mais avisados, que não vão em facilidades e simplismos. Aceitarão até, que o leproso e Cristo caminhavam na mesma estrada em sentido convergente, mas aí...uns passos á frente de Cristo caminhava Maria Madalena, que achando que o nazareno já fizera suficiente bem para um só dia, e querendo poupá-lo a mais uma imagem de dor e consumição, pediu ao leproso que se sentasse numa pedra da berma do caminho, e envolvendo-o num manto lápis-lazúli que rescendia a perfume de nardo, aí o manteve oculto até Cristo passar, entoando os seus ensinamentos com voz de cotovia. Cristo seguiu o seu caminho, e o leproso permaneceu leproso. E então, como é que ele se sentiu lépido? Possuindo uma alma intranquila num corpo que se desfazia, o leproso sentiu-se animado a partir daí por uma paixão arrebatadora, que se inicara com o perfume de nardo que se desprendia daquele manto. Assim, lépido, ou nem assim, talvez, em vez disso, se sentisse lépido pelo som da voz do nazareno que soara junto a si, dando-lhe alegria como se lhe concedesse asas, ou talvez nem assim, e se sentisse mais lépido, aligeirado, por lhe ter caído mais um membro, diminuído que ficara esse fardo do corpo que arrastava pelas estradas da vida. De todas as formas, e nenhuma delas parecida, o leproso sentiu-se lépido, e estas palavras, que até começavam com as mesmas letras, acabam de modo diverso, em letras e sons que divergem.


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