INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
Abri a porta,
e era uma sereia, uma sereia mesmo, com rabo de peixe e cabelos de algas,
convidei-a a entrar, e acomodou-se na minha sala, deixando atrás de si um rasto de molho de manteiga,
atentei no seu rabo de peixe, era estranho, parecia cortado em postas largas, sobrepostas.
Tentei conversar com a sereia, mas em vão, porque a sua voz era como o murmúrio dos búzios, doce e longínquo como o mar,
e ela desinteressou-se e amuou, e penteava os longos cabelos com os dedos dobrados, retirando para o tapete da sala, troços de salsa e ervas aromáticas.
Não sei quanto tempo permaneceu na minha sala, a sereia, nem como saiu, mas deixou-me convencido de que comer salmão á noite, pode ser indigesto para os sonhos.

Pardal do terrado

Já velho e alquebrado, o pardal de telhado descobriu o paraíso na terra - o quintal largo de uma casa onde os donos mantinham uma gaiola grande para caturras, assente em esguios pilares de ferro. As aves foçavam nas sementes e pedacitos de fruta que os donos lhe davam, e uma parte substancial dessa comida caía para o chão pelos interstícios da gaiola, onde o nosso pardal se alimentava com ânsias, agitando as asas meio depenadas. O pardal era já velho, com os membros lassos e os sentidos embotados. Umas vezes comia das sementes das caturras, outras, das suas fezes, mas proteína nunca faltava.

Mesmo a meio da ceia (um autêntico festim de vísceras e carne em sangue), o seu amigo perguntou-lhe:
- Acreditas, por fim, na vida depois da morte?
- Sim! - anuiu o zombie - mas chamares a isto vida, revela que conservas a tua pródiga ironia.

m.o.

Criar uma criança exige dos pais, amplos recursos e processos imaginativos. Os pais do Diogo desde cedo se aperceberam de que o rapaz tinha um carácter obstinado e difícil, só fazia o que queria, e tinha em pouca conta a vontade ou a autoridade dos outros. Conseguiram-lhe acompanhamento psicológico, na mesma altura em que a mãe do Diogo descobriu, por um acaso, as virtudes da psicologia negativa - sempre que queria que o Diogo fizesse alguma coisa, dava-lhe ordens para realizar o acto oposto. Diogo, não comas a sopa! - e ele comia, mais tarde, Diogo, não te atrevas a arrumar o quarto! - e ele não descansava enquanto o quarto não ficava num brinco; ou, Diogo, não estudes para as provas! - e o Diogo corria a embrenhar-se nos seus livros e cadernos. Entretanto, os sucessivos psicólogos que o acompanharam durante anos, começaram finalmente a obter resultados, e o Diogo começou a revelar-se uma pessoa mais receptiva e enquadrada, mudança de que a mãe não se apercebeu, tão acostumada que estava à psicologia negativa. A revelação só se produziu nos preparos de um almoço de família. Diogo, sem ninguém lhe dizer nada, começara a preparar a salada, usando uma faca para migar o tomate. Nisso, a mãe, de volta dos tachos, disse-lhe a brincar: Diogo, atira-me a faca!

Reprovado

- Você mete nojo, mais ainda, dá-me vontade de vomitar. Não sei como é que a Cátia consegue viver consigo.
- A sua filha não se importa, e até me acha muito útil, suspeito, que é por ser bulímica...

Dada a crise económica, o que tende a prosperar são as casas de penhores, as pessoas com necessidade de dinheiro vivo vão lá e empenham quase tudo o que conseguem, livros, jóias, quadros, urnas funerárias, órgãos. A D. Genoveva, após realizar dinheiro empenhando todo o recheio da casa, tentou empenhar o marido, mas este negou-se. Ser posto no prego, era algo que afrontava a sua virilidade.


Onde existam palavras e mensagens, a ironia e o absurdo prosperam como ervas viçosas nos claustros em ruínas, ou a galgar as paredes como a hera para povoar os nichos vazios de ícones.

Supervivências

(É triste, mas esmagadoramente simples: os amigos passam, as amizades ficam).

Panaceia

O médico, que era um tipo simpático, receitou-lhe pílulas Longevitat, para viver mais anos; o pior, é que não as conseguiu aviar em nenhuma farmácia - só tinham um medicamento genérico, as pílulas Longevus, que provocavam insónias e concediam dias mais longos.

um dia de Domingo

É cómodo e conveniente adiar a vida, deixar para outro dia as decisões e gestos e mudanças que são vitais e urgentes.

Amanhã!

Amanhã pedirei desculpa, construirei, irei conseguir um tempo para brincar com o meu filho, e conviver com os amigos, um tempo para procurar respostas para as questões que nos consomem em lume brando, amanhã declararei o meu amor, anulando o acaso e a dissipação...

Amanhã será a mudança, amanhã terei vagar e talento para equilibrar o eixo do cosmos e limpar a alma, amanhã os ventos serão a favor, e a oportunidade dourada aguarda na curva do caminho.

Amanhã! Ou num outro dia, mas não hoje, que os astros não nos favorecem, e as linhas da mão, e as folhas de chá no fundo da chávena.

Amanhã ou num outro dia, mas não hoje, que hoje, não existe a coragem.


Até já!

Esta postagem de vida efémera serve para assinalar que este blogue acaba de entrar em pausa, por uns dias, mais coisa, menos coisa, o tempo necessário para colocar uns traços nos tês e uns pontos nos is, tudo dependendo do tempo que isso possa levar, e da distância a que encontrarei os tês e os is.
(Por vezes é necessária uma pausa para repor todo o processo, sobretudo, quando expirou o corrector ortográfico. Paz à sua alma!).

Doença cumulativa

O doutor Jekill olhou em redor, desconfiado, e como não visse nada de assustador, colocou-se em cima de uma caixa de fruta, aclarou a voz e proclamou para os transeuntes que passavam:
- Estou curado!!
- Não! Nós é que nos escondemos! - responderam, em uníssono, dezenas de vozes que pareciam sair das árvores de Hyde Park.

e/ou/e/ou

As primeiras letras destas palavras, aproximam-nas: leproso e lépido. Suponhamos uma relação - o leproso sentiu-se lépido! E logo nos assalta uma dúvida, porque o leproso se sentiria lépido, afortunado? É comum (e errado) pensar-se que os leprosos, e os estropiados, também os doentes terminais e os que se sentem pontualmente seduzidos pela ideia de morte...pensar-se, que essas pessoas são infelizes a tempo inteiro, que não possuem momentos de felicidade ou ternura, que não as comoverá um olhar, uma paixão, uma música ou uma boa notícia que os toma de surpresa, ou um devaneio insignificante e doce como cozinhar uma refeição ou arrumar uns velhos discos de música. Mas o leproso? Será mesmo? Aqui cedemos, procura-se um argumento, o leproso seguia por uma estrada poeirenta apoiado num cajado e com a roupa espessa e áspera a ocultar as suas chagas, e encontrou Cristo, ou um dos seus discípulos, ou até Zoroastro, e esse ou um destes o curou dos seus males, e o leproso deixou de ser leproso e dançou e cantou de alegria, por fim, lépido, liberto do mal que lhe devorava o corpo e o espírito. Esta cena de personagens indefinidos tranquilizará os menos exigentes, aqueles que ainda acreditam na bondade intrínseca aos seus semelhantes e que deixam sempre a chave de casa sob o tapete da porta de entrada, mesmo depois de terem sido agredidos por estranhos no seu interior. Mas há outros, mais maltratados pela vida e por isso mais avisados, que não vão em facilidades e simplismos. Aceitarão até, que o leproso e Cristo caminhavam na mesma estrada em sentido convergente, mas aí...uns passos á frente de Cristo caminhava Maria Madalena, que achando que o nazareno já fizera suficiente bem para um só dia, e querendo poupá-lo a mais uma imagem de dor e consumição, pediu ao leproso que se sentasse numa pedra da berma do caminho, e envolvendo-o num manto lápis-lazúli que rescendia a perfume de nardo, aí o manteve oculto até Cristo passar, entoando os seus ensinamentos com voz de cotovia. Cristo seguiu o seu caminho, e o leproso permaneceu leproso. E então, como é que ele se sentiu lépido? Possuindo uma alma intranquila num corpo que se desfazia, o leproso sentiu-se animado a partir daí por uma paixão arrebatadora, que se inicara com o perfume de nardo que se desprendia daquele manto. Assim, lépido, ou nem assim, talvez, em vez disso, se sentisse lépido pelo som da voz do nazareno que soara junto a si, dando-lhe alegria como se lhe concedesse asas, ou talvez nem assim, e se sentisse mais lépido, aligeirado, por lhe ter caído mais um membro, diminuído que ficara esse fardo do corpo que arrastava pelas estradas da vida. De todas as formas, e nenhuma delas parecida, o leproso sentiu-se lépido, e estas palavras, que até começavam com as mesmas letras, acabam de modo diverso, em letras e sons que divergem.


Por uma unha negra

Colocou as mãos sobre o volante, as duas, como é natural, porque está no plural, o volante do carro é um volante ordinário, vulgar, preto, redondo, de perfil oval, com a buzina ao centro no lugar onde se exibe o logótipo da marca, as suas mãos também eram vulgares, curtas e largas, com pêlos bravios nas costas dos dedos e entre os diversos tarsos, no pulso esquerdo o osso estava um pouco deformado como se quisesse sair pela pele, as suas unhas tinham sido cortadas recentemente e não tinham nada que se lhes apontasse, à excepção de uma mancha esbranquiçada no zona onde irrompiam da pele, que uma namorada doutros tempos lhe dissera ser da carência de cálcio, ou sódio, não se lembrava bem. Que mais podia dizer sobre as mãos? Usava um relógio, dos antigos, de corda, com três ponteiros de dimensões e velocidades diferentes, era um Omega, presente de aniversário, um relógio que caprichosamente deixara de andar quando parara o carro uns quilómetros antes para comprar o jornal. Sempre trabalhara bem, e naquela tarde, com corda e tudo, parara sem mais nem menos. Por falar nisso, lembra-se, que mania que algumas pessoas têm de oferecerem relógios pelos anos! É doentio, é como se oferecessem uma ampulheta com o símbolo de uma caveira e os dizeres: Carpe Diem! Também é verdade que não há muitas coisas inocentes para se oferecer pelos anos, os livros e os discos gritam as nossas próprias preferências e idiossincrasias, mesmo quando amenizadas pela frase ritual: Já li, ou já ouvi, este fulano, e tenho a certeza de que vais gostar! Também se pode oferecer objectos de decoração, ou souvenirs de viagens, mas aí o gosto ou a falta de gosto é decisivo e pode redimir-nos ou levar-nos á mais completa perdição; e há opções mais claras, mas menos subtis, como uma colega de curso que teve, a quem sempre oferecera pelos anos uma caixa de preservativos com sabores de frutas, sem grandes resultados práticos, pelo menos para ele. Falava do volante, e das mãos sobre o volante. Olha-as novamente, podia dizer que não usa anel, nunca usou, as alianças passaram-lhe ao lado como aquelas argolas de jogo que se atiram para um cone enterrado na areia, falharam todas; também nunca usou outro tipo de enfeites, anéis ou pulseiras; para a queima das fitas usara um fato que tinha uns botões de punho dourados que se punham e tiravam, e que achou o máximo, mas fora só dessa vez. Ouve uma buzinadela, e tira uma das mãos do volante, destrava o carro e engrena a primeira, a fila na estrada move-se finalmente ao fim de quase duas horas, e o carro percorre os primeiros metros e obriga-se a olhar novamente para o volante, sabia que já deveriam ter removido os carros do acidente mas não teve coragem de confirmar, ainda lhe palpitava no ventre aquele assomo de náusea que sentira ao ver a cabeça de uma mulher decepada do corpo, e suspensa pelos cabelos na carroçaria do camião envolvido na colisão. Olhando bem, o osso do seu pulso direito até nem parecia muito saído ou deformado, e pouco diferia do outro pulso, era apenas um osso peculiar, com carácter, e a querer afirmar-se e dizer-lhe: "estou escondido, mas estou aqui, por isso não finjas que não existo ou que não sirvo para nada". Por fim, os carros rodam a boa velocidade, sem empecilhos nem polícias, as casas desfilam em redor e a sua, era já depois da próxima curva da estrada. Também o tempo havia recomeçado a andar no seu relógio de ponteiros. Passara-lhe a mania. Sem querer, ocorre-lhe: e se não tivesse parado para comprar o jornal? Será que lhe estaria destinado apanhar com o camião desgovernado em cima?


Os novos óbolos

Após muitos projectos gorados, e intenções que nem chegaram ao papel, construiu-se por fim a nova ponte, enorme, moderna e resplandecente, brilhando mesmo na metade posterior da ponte, habitualmente imersa na escuridão. A inauguração foi feita com pompa, e na presença de notáveis e dignatários de ambos os lados. Não se fez uma travessia inaugural da ponte por todos acharem que era supérflua, mas ninguém tinha dúvidas de que a obra tinha mérito e utilidade, iria por fim a longos desvios e travessias morosas e acabar com burocracias e intermediários.
Enquanto no tabuleiro da ponte se sucediam os discursos e os acepipes, sob um dos seus arcos um velho pedia esmola, era Caronte, o barqueiro do mundo dos mortos, inconformado por se ver assim, atirado para o desemprego, após tantos anos de trabalho dedicado.

Pensando melhor

Para não deixar pistas á polícia, calçou umas luvas de borracha e compôs o pedido de resgate, montando-o com letras recortadas do seu diário pessoal. Mas achou que isso não era infalível, e escreveu-o em letra de imprensa nas costas dum aviso de cobrança dos Correios.

Um contabilista no paraíso

Evento social, e a nata da sociedade a conviver nos jardins do milionário sob as objectivas dos fotógrafos. Glamour, perfumes, o céu na terra. Enquanto a orquestra toca junto á piscina e os serviçais transitam com bandejas de prata com bebidas e aperitivos, alguém alerta o dono da casa que há um homem nos jardins a levar coisas. Ele vai pessoalmente verificar, escudado pelos seus seguranças, e vê um sujeito a encher um carrinho de mão com os vasos e anões decorativos dos relvados, e que agora começa a embrulhar em jornal, as taças vazias de vidro que os convidados vão largando pelo jardim. Com receio do escândalo, ele interpela o homem com bons modos.
- Eu o conheço de algum lado...mas porque é que você me está tirar estas coisas?
- Preciso realizar uma venda de garagem para comprar comida, mas não se preocupe, eu depois digo-lhe quanto consegui por estas peças, para você deduzir nos salários em atraso que me deve há seis meses.

Gramática, ou a morte do imperador

Perante a multidão revoltada que pedia pão em frente ao palácio, armada de gadanhas e fuzis, o imperador gritou-lhes de uma varanda: "Não hão pão para vocês!".
E isso foi um grave erro de concordãncia.

Deslize

"Os homens não choram" - repetiu para si mesmo, enquanto arrumava numa arca no sótão, as bonecas e vestidinhos da sua infância de menina.

Crise pessoal


Quando a família e todos os amigos se juntaram em casa da aniversariante, já havia sinais de que aquela não iria ser uma festa de aniversário comum, os dígitos daquele dia haviam sido recortados em todos os calendários espalhados nas paredes da casa, e, sem que o pudessem saber, também havia sido apagado o dia no calendário do ambiente de trabalho do Pc, e no relógio electrónico do pulso da homenageada. Para coroar essas prenúncios, a aniversariante não compareceu à sua própria festa e não deu sinais, nem foi decantada com os angustiados telefonemas para hospitais e esquadras da polícia. Finalmente, apareceu, poucos minutos depois da meia-noite, airosa e sorridente, com o cabelo arranjado e as unhas pintadas. Os poucos que ainda se haviam aguentado pela casa, podiam afirmar que os anos pareciam não passar por ela.
Julgou que os tempos eram outros, que as mentalidades e as pessoas haviam mudado, mas para seu infortúnio, o jovem emigrante acabou por ir parar a uma pacata vila nos Estados Unidos onde América ainda se escrevia AmériKKKa.

Boda

Esquecera-se do que tinha que dizer, á tangente, porque a palavra estava mesmo ali, na ponta da língua. Foi um pouco chocante ver aquela bela mulher diante do altar e em plena cerimónia, a puxar pela língua do noivo para a soltar.


Grande finale

Trago-vos um vídeo baseado numa gravura de Escher, e que resulta numa bela história em imagens.

Vestígios

A porta do armazém foi aberta, com um chiar das velhas dobradiças de latão, e o velho de boné e uniforme de revisor, deu-lhe passagem e tranquilizou-a.
- Está á vontade, minha senhora, leve o tempo que precisar!
Ela olhou por cima do ombro o cais da estação de comboios, depois, adiantou dois passos e entrou no armazém mergulhado na penumbra. Sentiu o peso dos objectos e volumes que repousavam nas estantes, e sentiu-se, de repente, mais velha e mais cansada. Tapou as narinas com um lenço enquanto não se habituava ao cheiro a mofo e às partículas de pó que dançavam no ar à sua passagem. Reconheceu o lugar onde tinha suspendido a busca na véspera, um ponto inconfundível da segunda estante assinalado por uma boneca loura de vestido vermelho, em pé sobre a estante como um fulvo ponto de exclamação. Recomeçou a partir daí, a examinar os objectos, tomava-os nas mãos, ao tacto, via-lhes os ângulos, os detalhes, cheirava-os, rodavam nas suas mãos imaculadas, eram abertos, ou abertos os seus segredos, e voltavam para a estante logo que descobria, sentia, que eram estranhos a si. Prolongou aquela busca durante horas, e parecia não ter saído do mesmo sítio. As pessoas perdiam tantas coisas. Um livro, cadernos de escola, uma guitarra com uns salpicos de sangue ou tinta, roupas, uma peruca, mais livros, eram tanto e tão variados, admirava-se de como as pessoas não tinham regressado à procura deles, não se haviam sentido incompletos e frustrados como ela agora se sentia, e largado tudo para encontrarem o que lhes faltava.
Quando a luz do Sol começou a tornar-se mais fraca, o funcionário regressou, a mordiscar uma maçã; acendeu o interruptor da luz fluorescente do tecto e perguntou-lhe se precisava de alguma coisa.
- Não, mas hoje fico por aqui, eu volto amanhã para procurar melhor.
- Se a senhora soubesse o que tinha perdido, eu podia ajudá-la...
- Não me lembro, sei que devo ter perdido alguma coisa na viagem, mas não me lembro o quê. Quando a tiver nas mãos sei que vou descobrir. Quem sabe, amanhã, eu a encontro?
- Tenho a certeza que sim, há tanto tempo que procura que, um dia, há-de encontrar. Não há mal que sempre dure, não é? Então até amanhã, minha senhora!

Sonho



Romeu entra na cripta e descobre Julieta aparentemente morta, desesperado, bebe veneno e cai morto ao seu lado, então Julieta acorda do seu letargo e tenta beber o veneno dos seus lábios para morrer também, então, é Shakespeare que acorda como se tivesse a garganta em chamas, dirige-se a uma bacia e cospe com insistência, em seguida bebe um longo gole de água, e só assim consegue sossegar o ardor daquela paixão.


Lembrado

Na frente da batalha, o porta-bandeira caiu, com o coração trespassado por um tiro de mosquete.
O general olha em volta, e chama um soldado de cavalaria do meio das suas forças.
- Tu, chega aqui, a bandeira fica-te confiada, e lembra-te, ela é mais importante do que a tua vida e todos os sacrifícios são poucos!!
- Sim, meu general!
Empunhou a bandeira e juntou-se aos outros cavaleiros que compunham a formação para a carga, adiantando o seu cavalo por se sentir orgulhoso por carregar a bandeira. Ao toque de clarim, a carga começou, investindo contra o regimento de infantaria que erguera uma barreira de sabres, lanças e tiros de mosquete. Enquanto cavalgava, um tiro desfez-lhe o osso do ombro, e passou a bandeira para o outro braço e continuou, um sabre cortou-lhe uma perna, e um outro sabre, a outra, uma nova espadeirada levou-lhe metade do peito, e um tiro arrancou-lhe uma orelha e um dos olhos, mas continuava a erguer a bandeira, e cerrou os dentes sobre o seu cabo, momentos antes de um novo golpe de sabre o privar do braço que lhe restava, e persistiu na sua marcha heróica a equilibrar o corpo amputado no fio da sela. A carga de cavalaria venceu os seus inimigos que se puseram em fuga diante dos cascos dos cavalos, decidindo a batalha em favor do império. Quando procuraram o porta-bandeiras, viram que pouco restava dele, mas mantinha a bandeira sob a sua montada, à vista de todos.
Por recomendação do general, os seus restos foram depositados no Arco do Triunfo de Paris, num pequeno nicho na parede do arco a que foi dado o título de Túmulo da Dentadura Desconhecida.


- Sinto a vista direita muito esquisita, como se tivesse areia lá dentro - relatou á sua fêmea.
- Deves estar com alguma conjuntivite. Devias por alguma coisa na vista, umas gotas, ou assim...
- E achas que é uma coisa fácil de conseguir? - lembrou a toupeira.

Esquecido

Na tenda que a antropóloga montara no luxuriante planalto africano, apareceu diante dela um homem de aspecto simiesco, atarracado, com o corpo todo coberto de pêlos, as mandíbulas largas de dentes salientes, e o crânio oblongo com protuberância occipital.
- Eu sou o elo perdido! - apresentou-se.
- O que tu és, é um caso perdido! Não sei como consegues arranjar uma namorada com esse aspecto.

Noite cerrada e ele vela ajoelhado sobre um caixote de madeira, com o olhar a afunilar-se pela janela diminuta da cave. A praça está deserta, e chove. Felizmente que já não se ouvem tiros nem explosões porque é sinal de que houve tréguas, mas, ao mesmo tempo, inibe o cálculo tranquilizador da distância que os separa dos contendores. Os olhos pesam, e esfrega-os com os nós dos dedos. Todos dormem, a mulher, as crianças, o casal de idosos do terceiro esquerdo, abraçados numa ternura sem idade. A sua consciência oscila na margem lodosa do abismo e, finalmente, o cansaço vence e mergulha, os olhos fecham-se, quase no exacto momento em que a janela se anima com sombras, de homens fardados com armas.
Glosa:

Um dia é igual a outro, não há entre um e outro uma porta estanque que os divida, diferencie, como a um deserto de uma floresta tropical, o que havia de bom é que dormia sempre bem, profunda e repousadamente, e durante o sono, sonhava, sabia disso porque acordava com fiapos do sonho na retina como se fora franjas de nuvens. Quando estava acordada, não sonhava, desconhecia o que fossem sonhos de vida, projectos, anseios, também nunca soubera o que era isso a que chamavam amor, e isso nunca a impedira de respirar ou sentir desejo ou fome. Mas houve uma fase na sua vida em que isso a assustou um pouco, a época em que a juventude começara a fenecer e viu-se perante a contingência de não haver mais nada, e nada a alcançar. Lembrava-se que nesse tempo chegara mesmo a ter insónias, pensava e matutava nas coisas até lhe doer a cabeça, adormecia a custo e quando acordava, sentia os olhos húmidos como se os tivesse lavado num riacho de águas salgadas. Andou assim nessa angústia indefinida durante quase dez anos, com muitas dúvidas e oscilações de humor, a aceitar coisas terríveis com um estoicismo surpreendente, e ao mesmo tempo, vendo-se a atingir o desespero com situações insignificantes e inofensivas. Quando entrou na casa dos cinquenta, as suas angústias e dúvidas deixaram de pesar tanto, e a sua vida começou lentamente a resolver-se; ano após ano descobriu que conseguia sentir-se bem nos gestos e rotinas mais triviais, como estar horas sentada no alpendre da sua casa a admirar os melros a alimentarem-se na cerejeira grande das traseiras, ou empregar o seu tempo em volta da pequena horta que mantinha, atando às canas os tomateiros em crescimento, ou admirando com satisfação as flores amarelas dos pepineiros, raiando como pequenos sóis sobre a terra castanha. Havia pequeninas coisas que valiam a pena e que sobressaíam da aparente e fria uniformidade do mundo, como se ela se tivesse tornado um garimpeiro a joeirar a areia do leito de um riacho, agitando a peneira para soltar a areia sem valor e encontrar o brilho do ouro. Quase sem dar por isso, voltou a dormir bem, de ciência tranquila, como se houvesse tempo para tudo e os dias não fossem mais feios por serem sempre iguais.


Mote:

«A melancolia é uma tristeza que ficou mais leve»
(Italo Calvino)

O mentor

Desenho anatómico executado por Leonardo Da Vinci (Royal Library, Castelo de Windsor)                 - Acorda, meu pequeno! Vais c...