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A mostrar mensagens de Junho, 2009
Abri a porta,e era uma sereia, uma sereia mesmo, com rabo de peixe e cabelos de algas,convidei-a a entrar, e acomodou-se na minha sala, deixando atrás de si um rasto de molho de manteiga, atentei no seu rabo de peixe, era estranho, parecia cortado em postas largas, sobrepostas. Tentei conversar com a sereia, mas em vão, porque a sua voz era como o murmúrio dos búzios, doce e longínquo como o mar, e ela desinteressou-se e amuou, e penteava os longos cabelos com os dedos dobrados, retirando para o tapete da sala, troços de salsa e ervas aromáticas. Não sei quanto tempo permaneceu na minha sala, a sereia, nem como saiu, mas deixou-me convencido de que comer salmão á noite, pode ser indigesto para os sonhos.

Pardal do terrado

Já velho e alquebrado, o pardal de telhado descobriu o paraíso na terra - o quintal largo de uma casa onde os donos mantinham uma gaiola grande para caturras, assente em esguios pilares de ferro. As aves foçavam nas sementes e pedacitos de fruta que os donos lhe davam, e uma parte substancial dessa comida caía para o chão pelos interstícios da gaiola, onde o nosso pardal se alimentava com ânsias, agitando as asas meio depenadas. O pardal era já velho, com os membros lassos e os sentidos embotados. Umas vezes comia das sementes das caturras, outras, das suas fezes, mas proteína nunca faltava.

Mesmo a meio da ceia (um autêntico festim de vísceras e carne em sangue), o seu amigo perguntou-lhe:- Acreditas, por fim, na vida depois da morte? - Sim! - anuiu o zombie - mas chamares a isto vida, revela que conservas a tua pródiga ironia.

m.o.

Criar uma criança exige dos pais, amplos recursos e processos imaginativos. Os pais do Diogo desde cedo se aperceberam de que o rapaz tinha um carácter obstinado e difícil, só fazia o que queria, e tinha em pouca conta a vontade ou a autoridade dos outros. Conseguiram-lhe acompanhamento psicológico, na mesma altura em que a mãe do Diogo descobriu, por um acaso, as virtudes da psicologia negativa - sempre que queria que o Diogo fizesse alguma coisa, dava-lhe ordens para realizar o acto oposto. Diogo, não comas a sopa! - e ele comia, mais tarde, Diogo, não te atrevas a arrumar o quarto! - e ele não descansava enquanto o quarto não ficava num brinco; ou, Diogo, não estudes para as provas! - e o Diogo corria a embrenhar-se nos seus livros e cadernos. Entretanto, os sucessivos psicólogos que o acompanharam durante anos, começaram finalmente a obter resultados, e o Diogo começou a revelar-se uma pessoa mais receptiva e enquadrada, mudança de que a mãe não se apercebeu, tão acostumada que es…

Reprovado

- Você mete nojo, mais ainda, dá-me vontade de vomitar. Não sei como é que a Cátia consegue viver consigo. - A sua filha não se importa, e até me acha muito útil, suspeito, que é por ser bulímica...

Dada a crise económica, o que tende a prosperar são as casas de penhores, as pessoas com necessidade de dinheiro vivo vão lá e empenham quase tudo o que conseguem, livros, jóias, quadros, urnas funerárias, órgãos. A D. Genoveva, após realizar dinheiro empenhando todo o recheio da casa, tentou empenhar o marido, mas este negou-se. Ser posto no prego, era algo que afrontava a sua virilidade.
Onde existam palavras e mensagens, a ironia e o absurdo prosperam como ervas viçosas nos claustros em ruínas, ou a galgar as paredes como a hera para povoar os nichos vazios de ícones.

Supervivências

(É triste, mas esmagadoramente simples: os amigos passam, as amizades ficam).

Panaceia

O médico, que era um tipo simpático, receitou-lhe pílulas Longevitat, para viver mais anos; o pior, é que não as conseguiu aviar em nenhuma farmácia - só tinham um medicamento genérico, as pílulas Longevus, que provocavam insónias e concediam dias mais longos.

um dia de Domingo

É cómodo e conveniente adiar a vida, deixar para outro dia as decisões e gestos e mudanças que são vitais e urgentes.Amanhã!Amanhã pedirei desculpa, construirei, irei conseguir um tempo para brincar com o meu filho, e conviver com os amigos, um tempo para procurar respostas para as questões que nos consomem em lume brando, amanhã declararei o meu amor, anulando o acaso e a dissipação...Amanhã será a mudança, amanhã terei vagar e talento para equilibrar o eixo do cosmos e limpar a alma, amanhã os ventos serão a favor, e a oportunidade dourada aguarda na curva do caminho.Amanhã! Ou num outro dia, mas não hoje, que os astros não nos favorecem, e as linhas da mão, e as folhas de chá no fundo da chávena.Amanhã ou num outro dia, mas não hoje, que hoje, não existe a coragem.

Até já!

Esta postagem de vida efémera serve para assinalar que este blogue acaba de entrar em pausa, por uns dias, mais coisa, menos coisa, o tempo necessário para colocar uns traços nos tês e uns pontos nos is, tudo dependendo do tempo que isso possa levar, e da distância a que encontrarei os tês e os is. (Por vezes é necessária uma pausa para repor todo o processo, sobretudo, quando expirou o corrector ortográfico. Paz à sua alma!).

Doença cumulativa

O doutor Jekill olhou em redor, desconfiado, e como não visse nada de assustador, colocou-se em cima de uma caixa de fruta, aclarou a voz e proclamou para os transeuntes que passavam: - Estou curado!! - Não! Nós é que nos escondemos! - responderam, em uníssono, dezenas de vozes que pareciam sair das árvores de Hyde Park.

e/ou/e/ou

As primeiras letras destas palavras, aproximam-nas: leproso e lépido. Suponhamos uma relação - o leproso sentiu-se lépido! E logo nos assalta uma dúvida, porque o leproso se sentiria lépido, afortunado? É comum (e errado) pensar-se que os leprosos, e os estropiados, também os doentes terminais e os que se sentem pontualmente seduzidos pela ideia de morte...pensar-se, que essas pessoas são infelizes a tempo inteiro, que não possuem momentos de felicidade ou ternura, que não as comoverá um olhar, uma paixão, uma música ou uma boa notícia que os toma de surpresa, ou um devaneio insignificante e doce como cozinhar uma refeição ou arrumar uns velhos discos de música. Mas o leproso? Será mesmo? Aqui cedemos, procura-se um argumento, o leproso seguia por uma estrada poeirenta apoiado num cajado e com a roupa espessa e áspera a ocultar as suas chagas, e encontrou Cristo, ou um dos seus discípulos, ou até Zoroastro, e esse ou um destes o curou dos seus males, e o leproso deixou de ser leproso …

Por uma unha negra

Colocou as mãos sobre o volante, as duas, como é natural, porque está no plural, o volante do carro é um volante ordinário, vulgar, preto, redondo, de perfil oval, com a buzina ao centro no lugar onde se exibe o logótipo da marca, as suas mãos também eram vulgares, curtas e largas, com pêlos bravios nas costas dos dedos e entre os diversos tarsos, no pulso esquerdo o osso estava um pouco deformado como se quisesse sair pela pele, as suas unhas tinham sido cortadas recentemente e não tinham nada que se lhes apontasse, à excepção de uma mancha esbranquiçada no zona onde irrompiam da pele, que uma namorada doutros tempos lhe dissera ser da carência de cálcio, ou sódio, não se lembrava bem. Que mais podia dizer sobre as mãos? Usava um relógio, dos antigos, de corda, com três ponteiros de dimensões e velocidades diferentes, era um Omega, presente de aniversário, um relógio que caprichosamente deixara de andar quando parara o carro uns quilómetros antes para comprar o jornal. Sempre trabalh…

Os novos óbolos

Após muitos projectos gorados, e intenções que nem chegaram ao papel, construiu-se por fim a nova ponte, enorme, moderna e resplandecente, brilhando mesmo na metade posterior da ponte, habitualmente imersa na escuridão. A inauguração foi feita com pompa, e na presença de notáveis e dignatários de ambos os lados. Não se fez uma travessia inaugural da ponte por todos acharem que era supérflua, mas ninguém tinha dúvidas de que a obra tinha mérito e utilidade, iria por fim a longos desvios e travessias morosas e acabar com burocracias e intermediários. Enquanto no tabuleiro da ponte se sucediam os discursos e os acepipes, sob um dos seus arcos um velho pedia esmola, era Caronte, o barqueiro do mundo dos mortos, inconformado por se ver assim, atirado para o desemprego, após tantos anos de trabalho dedicado.

Pensando melhor

Para não deixar pistas á polícia, calçou umas luvas de borracha e compôs o pedido de resgate, montando-o com letras recortadas do seu diário pessoal. Mas achou que isso não era infalível, e escreveu-o em letra de imprensa nas costas dum aviso de cobrança dos Correios.

Um contabilista no paraíso

Evento social, e a nata da sociedade a conviver nos jardins do milionário sob as objectivas dos fotógrafos. Glamour, perfumes, o céu na terra. Enquanto a orquestra toca junto á piscina e os serviçais transitam com bandejas de prata com bebidas e aperitivos, alguém alerta o dono da casa que há um homem nos jardins a levar coisas. Ele vai pessoalmente verificar, escudado pelos seus seguranças, e vê um sujeito a encher um carrinho de mão com os vasos e anões decorativos dos relvados, e que agora começa a embrulhar em jornal, as taças vazias de vidro que os convidados vão largando pelo jardim. Com receio do escândalo, ele interpela o homem com bons modos. - Eu o conheço de algum lado...mas porque é que você me está tirar estas coisas? - Preciso realizar uma venda de garagem para comprar comida, mas não se preocupe, eu depois digo-lhe quanto consegui por estas peças, para você deduzir nos salários em atraso que me deve há seis meses.

Gramática, ou a morte do imperador

Perante a multidão revoltada que pedia pão em frente ao palácio, armada de gadanhas e fuzis, o imperador gritou-lhes de uma varanda: "Não hão pão para vocês!". E isso foi um grave erro de concordãncia.

Deslize

"Os homens não choram" - repetiu para si mesmo, enquanto arrumava numa arca no sótão, as bonecas e vestidinhos da sua infância de menina.

Crise pessoal

Quando a família e todos os amigos se juntaram em casa da aniversariante, já havia sinais de que aquela não iria ser uma festa de aniversário comum, os dígitos daquele dia haviam sido recortados em todos os calendários espalhados nas paredes da casa, e, sem que o pudessem saber, também havia sido apagado o dia no calendário do ambiente de trabalho do Pc, e no relógio electrónico do pulso da homenageada. Para coroar essas prenúncios, a aniversariante não compareceu à sua própria festa e não deu sinais, nem foi decantada com os angustiados telefonemas para hospitais e esquadras da polícia. Finalmente, apareceu, poucos minutos depois da meia-noite, airosa e sorridente, com o cabelo arranjado e as unhas pintadas. Os poucos que ainda se haviam aguentado pela casa, podiam afirmar que os anos pareciam não passar por ela.
Julgou que os tempos eram outros, que as mentalidades e as pessoas haviam mudado, mas para seu infortúnio, o jovem emigrante acabou por ir parar a uma pacata vila nos Estados Unidos onde América ainda se escrevia AmériKKKa.

Boda

Esquecera-se do que tinha que dizer, á tangente, porque a palavra estava mesmo ali, na ponta da língua. Foi um pouco chocante ver aquela bela mulher diante do altar e em plena cerimónia, a puxar pela língua do noivo para a soltar.

Grande finale

Trago-vos um vídeo baseado numa gravura de Escher, e que resulta numa bela história em imagens.

Vestígios

A porta do armazém foi aberta, com um chiar das velhas dobradiças de latão, e o velho de boné e uniforme de revisor, deu-lhe passagem e tranquilizou-a. - Está á vontade, minha senhora, leve o tempo que precisar! Ela olhou por cima do ombro o cais da estação de comboios, depois, adiantou dois passos e entrou no armazém mergulhado na penumbra. Sentiu o peso dos objectos e volumes que repousavam nas estantes, e sentiu-se, de repente, mais velha e mais cansada. Tapou as narinas com um lenço enquanto não se habituava ao cheiro a mofo e às partículas de pó que dançavam no ar à sua passagem. Reconheceu o lugar onde tinha suspendido a busca na véspera, um ponto inconfundível da segunda estante assinalado por uma boneca loura de vestido vermelho, em pé sobre a estante como um fulvo ponto de exclamação. Recomeçou a partir daí, a examinar os objectos, tomava-os nas mãos, ao tacto, via-lhes os ângulos, os detalhes, cheirava-os, rodavam nas suas mãos imaculadas, eram abertos, ou abertos os seus segr…

Sonho

Romeu entra na cripta e descobre Julieta aparentemente morta, desesperado, bebe veneno e cai morto ao seu lado, então Julieta acorda do seu letargo e tenta beber o veneno dos seus lábios para morrer também, então, é Shakespeare que acorda como se tivesse a garganta em chamas, dirige-se a uma bacia e cospe com insistência, em seguida bebe um longo gole de água, e só assim consegue sossegar o ardor daquela paixão.

Lembrado

Na frente da batalha, o porta-bandeira caiu, com o coração trespassado por um tiro de mosquete. O general olha em volta, e chama um soldado de cavalaria do meio das suas forças. - Tu, chega aqui, a bandeira fica-te confiada, e lembra-te, ela é mais importante do que a tua vida e todos os sacrifícios são poucos!! - Sim, meu general! Empunhou a bandeira e juntou-se aos outros cavaleiros que compunham a formação para a carga, adiantando o seu cavalo por se sentir orgulhoso por carregar a bandeira. Ao toque de clarim, a carga começou, investindo contra o regimento de infantaria que erguera uma barreira de sabres, lanças e tiros de mosquete. Enquanto cavalgava, um tiro desfez-lhe o osso do ombro, e passou a bandeira para o outro braço e continuou, um sabre cortou-lhe uma perna, e um outro sabre, a outra, uma nova espadeirada levou-lhe metade do peito, e um tiro arrancou-lhe uma orelha e um dos olhos, mas continuava a erguer a bandeira, e cerrou os dentes sobre o seu cabo, momentos antes de um …
- Sinto a vista direita muito esquisita, como se tivesse areia lá dentro - relatou á sua fêmea. - Deves estar com alguma conjuntivite. Devias por alguma coisa na vista, umas gotas, ou assim... - E achas que é uma coisa fácil de conseguir? - lembrou a toupeira.

Esquecido

Na tenda que a antropóloga montara no luxuriante planalto africano, apareceu diante dela um homem de aspecto simiesco, atarracado, com o corpo todo coberto de pêlos, as mandíbulas largas de dentes salientes, e o crânio oblongo com protuberância occipital. - Eu sou oelo perdido! - apresentou-se. - O que tu és, é um caso perdido! Não sei como consegues arranjar uma namorada com esse aspecto.

Noite cerrada e ele vela ajoelhado sobre um caixote de madeira, com o olhar a afunilar-se pela janela diminuta da cave. A praça está deserta, e chove. Felizmente que já não se ouvem tiros nem explosões porque é sinal de que houve tréguas, mas, ao mesmo tempo, inibe o cálculo tranquilizador da distância que os separa dos contendores. Os olhos pesam, e esfrega-os com os nós dos dedos. Todos dormem, a mulher, as crianças, o casal de idosos do terceiro esquerdo, abraçados numa ternura sem idade. A sua consciência oscila na margem lodosa do abismo e, finalmente, o cansaço vence e mergulha, os olhos fecham-se, quase no exacto momento em que a janela se anima com sombras, de homens fardados com armas.
Glosa:
Um dia é igual a outro, não há entre um e outro uma porta estanque que os divida, diferencie, como a um deserto de uma floresta tropical, o que havia de bom é que dormia sempre bem, profunda e repousadamente, e durante o sono, sonhava, sabia disso porque acordava com fiapos do sonho na retina como se fora franjas de nuvens. Quando estava acordada, não sonhava, desconhecia o que fossem sonhos de vida, projectos, anseios, também nunca soubera o que era isso a que chamavam amor, e isso nunca a impedira de respirar ou sentir desejo ou fome. Mas houve uma fase na sua vida em que isso a assustou um pouco, a época em que a juventude começara a fenecer e viu-se perante a contingência de não haver mais nada, e nada a alcançar. Lembrava-se que nesse tempo chegara mesmo a ter insónias, pensava e matutava nas coisas até lhe doer a cabeça, adormecia a custo e quando acordava, sentia os olhos húmidos como se os tivesse lavado num riacho de águas salgadas. Andou assim nessa angústia indefinida…

Pocoyo