INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Um na multidão

O corpo, segundo contam os que estiveram lá dentro, jaz no féretro na salinha apertada de tecto baixo que serve às mil maravilhas para o velório, ainda que usar esse termo possa ser de extremo mau gosto quando pronunciado ao pé dos parentes e amigos do falecido.
Como é novidade - está ali um morto de fresco - as pessoas que passam na rua a caminho do emprego ou na volta do supermercado, ao verem tanta gente trajada de negro, entram também para dar o seu contributo à cerimónia ou para confirmar se o morto está mesmo morto e, já agora, apurar se era alguém conhecido.
Forma-se espontaneamente uma fila ogival que parte da rua, transita até ao morto e parentalha para regressar de novo à rua entre suspiros e lamentações sobre a injustiça da vida, uma fila ordenada e cívica como um carreirinho de formigas. Dou de caras com esta situação quando, cá fora, os que já por lá passaram fazem o relatório aos que tem intenção de entrar - é muito novo, moço ainda, tem cabelos louros quase brancos, outro discorda, os cabelos são brancos mesmo, iria jurar que é aquele velhadas que trabalhava no meu Banco, uma outra testemunha, uma mulher, não querendo dar-se por achada, apesar de ter desmaiado com o cheiro das velas, guincha mais alto que os outros - era uma mulher, eu bem vi, vocês são é cegos, só uma mulher é capaz de ver outra mulher tal como ela é. Enquanto se debate e discute o género, a idade e o aspecto de quem está estendido no caixão, os curiosos continuam a afluir e eu também decido entrar na liça e tomo o meu lugar na fila.
A dita fila anda muito devagar, as pessoas gostam de prolongar aquilo que lhes dá prazer, e a morte dos outros é uma fonte de prazer tântrico, como uma celebração em câmara lenta da circunstância de ainda não ter chegado a nossa vez. E para servir os seus propósitos, fazem render o acto, apertam a mão ou abraçam todos os que se mostram lacrimosos ou descoroçoados, e proferem banalidades de circunstância. Quase meia-hora depois de ter cedido ao impulso de participar também no velório, chega a minha vez de descrever o passeio junto ao féretro. Reconheço os meus pais, sentados dum lado e doutro do caixão, e Ana a minha companheira, sentada num banquinho encostado a este. Todos eles têm olhos de choro, e desvio o olhar porque não gosto de os ver chorar, mas não sinto tristeza, seria uma frustração, eterna, se os surpreendesse a dançar em cima do caixão.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...