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A toca

Um tapete roído, o saco de plástico no chão da sala, estraçalhado pelos dentes brincalhões. Ela era assim, não sabia estar quieta, esperando as horas passar, mas também não se deveria ter animais dentro de casa, era o que o seu médico sempre dizia. Foi à sua procura, seguindo o seu rasto de diabruras. Um poça de mijo num canto das escadas, outro tapete sacudido pelos dentes, uns fios beje do tapete na borda da banheira onde deveria ter estado apoiada, depois remexera na terra do vaso, e deixara marcas no chão, as pistas conduziam sempre ao mesmo lugar, ao quarto dos fundos. Abriu para trás a porta entreaberta, e sentiu uma tristeza fria no peito. Aquele quarto tinha ficado bonito, apesar da escuridão conseguia vislumbrar os móveis pintados de cor creme com puxadores rosa, e colagens de fantasia nas gavetas e portas. Sentou-se pesadamente na cama, sabia que ela estava ali. Ouvia a sua respiração, arfante como a de um animal cansado e com sede. Não foi preciso esperar muito para a ver aparecer. A medo. A princípio, apenas a cabeça emergiu do roupeiro, e ali ficou imóvel, com os olhos fixos em si, como se o estivesse a estudar, depois foi-se aproximando, lentamente, de quatro, os punhos cerrados como patas. Parou junto a si, cheirando a perna das suas calças, analisando, catalogando mentalmente o seu odor. Aproveitou a oportunidade e afagou os seus cabelos fartos, desgrenhados, e sentiu que as suas resistências, o seu medo, desapareciam. A filha deitou-se de lado no chão, com a cabeça apoiada nos seus pés. E ele esfregou os olhos, limpando, extinguindo, uma lágrima teimosa.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...