A objectiva no objecto

Na ossatura de uma casa, nenhum objecto é igual a qualquer outro objecto, como os ossos das nossas vértebras. Uma mesa não é igual a outra mesa, uma porta e uma janela não são iguais a outra porta e janela, mesmo que tenham o mesmo tamanho, e sido feitos dos mesmos materiais e com as mesmas mãos. 

Na minha casa, isso é especialmente notório nas portas, nenhuma porta se comporta da mesma forma que outra, e mudam de comportamento consoante as usamos para abrir ou fechar. Já pensei, porque penso muito e ando sempre à procura de explicações, que isso é originado pelo maior ou menor uso (e desgaste) que fazemos delas, pelas irregularidades do chão e outros defeitos de construção da casa, e até pela maior secura ou humidade do ar em virtude de haver ou não por perto torneiras a serem usadas. Mas eu falo nisso, porque é uma ideia que já deixei para trás. Agora, apesar de não ser um fabulista, acredito que as portas, entre todos os objectos do mundo, são os mais propensos a manifestarem intenções quase humanas e a terem um carácter próprio e individualizado.

Quando me ausento em viagem, no regresso, ao abrir a fechadura da porta de entrada da casa, ela soa com uma musicalidade alegre nos seus requebros mecânicos, da mesma forma que, tenho a certeza e a memória dela me ter soado triste no momento em que a fechei para empreender viagem, como se isso fosse possível, mas é assim que ela me soa, como um cão que tivéssemos em casa e que reagisse afectuosamente às nossas partidas e chegadas. Nos dias correntes, a porta de entrada da casa possui um comportamento comedido, circunstancial, como se o som da sua fechadura e das suas dobradiças soasse como um rotineiro "Até já!" ou um "Já de volta?". 

No interior da casa, e repito-me, as portas têm comportamentos diferentes. Algumas nunca são fechadas, porque delimitam lugares de passagem, e como ficam abertas, parecem em hibernação, como se aguardassem num sono vegetal que nós os resgatemos da inanição. 

Outras portas são apenas encostadas, quando delimitamos alguma privacidade na nossa higiene ou sensualidade, embora isto seja uma redundância de palavras porque a sensualidade também é higiénica porque nos purifica e nos faz sentir melhor, com os tecidos tonificados e o coração a bater melhor, e até a vista se aclara e vemos mais longe. E aqui há um dado adquirido: a porta do meu quarto tem o som das minhas noites, tal como a porta da cozinha, onde tomo a primeira refeição do dia, e a última, soa como um eco fiel do que irá ser, ou do que foi o meu dia.

De toda a forma, nenhuma das portas de dentro da casa é trancada à chave, a menos que tenha de me ausentar por um longo período de tempo - e isso só para aborrecer eventuais intrusos - e aí todas as fechaduras são trancadas e cada porta, mais do que cada divisão, respira e transpira de forma peculiar. No quotidiano, as chaves de todas as portas interiores, estão embrulhadas num ninho de segredos dentro de uma pequena arca de sândalo - elas que conspirem, não quero nem imaginar!

Também tenho notado que há duas portas na minha casa que revelam uma natureza excepcional.

A que dá para a cave tem sempre um som quase lúgubre ao abrir e fechar, embora não haja motivos para isso. É uma cave normal, bem iluminada, que serve de casa das máquinas, arrecadação e adega. O chão é pavimentado, e assisti às várias etapas da sua construção, pelo que não creio que haja lá algum cadáver enterrado; só pode ser por ser o lugar mais baixo da casa, quase integralmente abaixo do nível do chão, onde circulam as energias contraditórias de uma negligente orientação da casa, que não teve em conta os paralelos e meridianos magnéticos, ou as linhas de força dos veios metálicos e cursos de água subterrâneos. É esse desconforto que a porta me parece transmitir - é como quando uma pessoa adormece numa posição retorcida e incómoda e tem sonhos correspondentes, retorcidos e atribulados. O som da porta da cave trai esse queixume benevolente da terra que a envolve.

A outra porta que tenho de referir é a da sua correspondente no alto, a porta do sótão. É um sótão pequeno ao jeito de uma água-furtada, angular como um chapéu sob os planetas e as estrelas. Tem duas pequenas janelas na placa que abrem para o telhado. A madeira e os metais da porta do sótão dão-me uma sensação de conforto e intimidade, soam como um velho amigo que não vemos há algum tempo, ou o murmúrio de um lago onde nadam docilmente as nossas memórias e impressões. Durante algum tempo, foi ali que eu guardei os meus livros (poucos, sempre muito poucos) e onde me retirava para procurar ler ou escrever, depois, mudei as minhas coisas para outra divisão mais perto do meu quarto, mas o sótão conserva essa atmosfera de refúgio e de devaneio. As estantes quase esvaziadas mantém a sua dignidade, e os sofás acolhem o meu repouso como antes. Por vezes, só ali é que consigo trabalhar, sento-me à secretária e escrevinho numa folha ou bloco de papéis, ou leio um livro que ficara por ler e ali deixara para as ocasiões. Também não tenho televisão no sótão, não preciso e não quero, apenas um mini-HiFi e muitos discos, que ouço consoante o meu estado de espírito. Quando o meu cansaço é maior do que muito, sei, e o som dessa porta também mo lembra, que só tenho uma coisa a fazer - atravesso a janela do sótão e vou-me sentar um pouco no telhado da casa. É uma terapia fantástica. Encosto-me á chaminé ou reclino-me sobre as telhas e fico a ver as pessoas e as casas, pequeninas, e a paisagem maior e mais perene do que elas. Os problemas esvaem-se como células malignas empurradas pelo corropio das ruas, e eu e a casa ficamos suspensos das nuvens ou das flutuações da linha do horizonte. Como uma porta aberta, e sem chaves.

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