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Lar, doce lar

- A nossa mãe está ficando xexé - enunciou Adelmira, a abrir o convénio familiar - não é bem xexé, já não é auto-suficiente, vem as senhoras limpar a casa e dar-lhe de comer, mas nem isso lhe chega, quer atenção, quer que nós estejamos presentes, pergunta por todos, convoca todos os netos, chama-os pelos nomes, recrimina-nos a todos quando não aparecemos lá há sete dias ou sete meses, aquela memória de elefante deixa-nos a todos doidos. É angustiante. Eu acho que ela deveria ir para um Lar de Idosos.
- É uma ideia que desagrada a todos - continuou António, o marido de Adelmira - tirá-la da casinha onde sempre viveu, com os retratos antigos e o relógio de cuco na parede, a cama de colchão de palha, o cadeirão onde o marido dormia as sestas e onde ela se recosta como se fosse adormecer sobre o seu peito.
- Poesias - retomou Adelmira - ela já não está capaz de viver sozinha. Vem muitas vezes a minha casa porque estou mais perto, mas também não posso tê-la lá a viver, nem nenhum de vocês. Todos temos a nossa vida organizada, vivemos em função dos nossos filhos e netos. A velhota tem de ir para um Lar.
- Concordo - assentiu Aníbal, um dos irmãos, homem de poucas falas -  Onde?
- Há aquele lar excelente no Sobreiro, já lá fui, é muito asseado, as empregadas mimam os velhotes, e eles tem um espaço grande no exterior para andarem ou sentarem-se nos bancos.
- No Sobreiro? - reagiu Helena, como qualquer um deles poderia ter feito - Sabes o que chamam ao Lar do Sobreiro? O matadouro! Os velhos que vão para lá morrem em menos de seis meses. Não quero mandar a minha avó para lá, é o mesmo que assinar uma sentença de morte.
Adelmira soltou um suspiro fundo.
- Helena, minha filha, não podemos crer em tudo o que o povo diz, e a decisão pertence a mim e aos meus irmãos, foi a nós que ela criou e cabe-nos a nós cuidar dela nos seus últimos dias. Conheço essa alcunha do matadouro, todos conhecemos, mas tenho a certeza de que é uma calúnia levantada por algum Lar concorrente para melhorar o negócio. Eu já lá fui buscar os papéis para começar a tratar das coisas. Algum de vocês se opõe a que ela vá para o matad...desculpem, para o Lar do Sobreiro?
Um silêncio prolongado. Dava para ouvir o bater de asas de uma mosca.
- Acho que...- começou António, meditativo - acho que se a gente levasse para lá o colchão de palha, ela se iria sentir como se estivesse em casa.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...