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A culpa do mensageiro

Trino era um jovem esforçado, começara nos estábulos do castelo a cuidar e alimentar as montadas do senhor feudal, e não tardou a ser reconhecido o seu mérito, e Trino subiu uns degraus na vida, passando a ocupar-se dos pombos-correio na torre mais alta do castelo. Era um trabalho igualmente árduo e de responsabilidade. Alimentava os pombos e mudava-lhes a palha para que os bichos não lhes pegassem. Quando ouvia o bater de asas no alto da torre corria a receber o pombo-correio que chegava, para, também a correr, levar a nova mensagem aos seus amos. Era também ele quem estava encarregue de prender as mensagens enviadas aos pombos e soltá-los nos céus. 
Com todos os seus deveres e afazeres, Trino ainda arranjou tempo para projectar e construir uma engenhoca que imaginara. Visto de fora, parecia um mero caixote de lixo, daqueles de lata com tampa, mas quando esta era levantada, o seu interior revelava-se de uma grande complexidade - um sistema de veios-parafuso que eram rodados do exterior por intermédio de manivelas de cabo de madeira. Dispostos diagonalmente uns em relação aos outros, e a curta distância - não mais do que três dedos entre as arestas das lâminas dos parafusos - as manivelas que as accionavam estam unidas entre si por um cordame tenso embebido em betume, de modo que puxando o cordame, as manivelas rodavam em conjunto em sentido inverso na ordem em que estavam dispostas, e com elas, os veios-parafuso no interior da engrenagem. Não pensem vocês que esta invenção de Trino era um capricho ocioso porque, sendo o moço uma pessoa muito objectiva e prática, não desperdiçaria o seu tempo numa coisa que não tivesse uma utilidade clara. A sua invenção destinava-se a dilacerar e moer os pombos que eram destinados a serem aniquilados, e isso era feito com muita diligência pelo moço de estábulos promovido a pombeiro-mor. Trino não colocava ali os pombos chegados com correio, nem os pombos velhos ou estropiados, nem mesmo os que quase haviam sido devorados por parasitas. Uma e só uma classe de pombos tinham esse fim - aqueles que chegavam com mensagens não solicitadas nem desejadas, que esvoaçavam e sacudiam-se nos ares como se dançassem ao som de jingles publicitários, e que, numa linguagem, no mínimo, anacrónica, formavam aquilo que hoje designamos por Spam.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...