Crise geral

Fausto decidiu vender a alma ao diabo, deram-lhe uma senha, e teve de esperar pela sua vez. A fila de pretendentes dava várias voltas em espiral ao quarteirão, e foi-se distraindo a mirá-los. Candidatos a actores, candidatos a escritores, candidatos a candidatos, empresários, tecnocratas, donas-de-casa, estudantes, compradores compulsivos, senhores da guerra, desempregados, políticos de terra pequena, vendedores de bíblias...Num instante, a fila compôs-se atrás de si, com mais e mais pessoas a tentar vender a alma. E a fila não andava, devia haver muito regateio nos primeiros lugares, e depois, depois acabou tudo. Uma voz nos altifalantes expôs o impasse: contrariando as leis da oferta e da procura, ninguém parecia disposto a baixar o preço da alma apesar da oferta excessiva, pelo que o comércio se declarava indefinidamente suspenso, para não se esvaziarem os cofres.
Fausto sentiu frustração e indignação pelo anúncio, mas dispersou com o resto da multidão. Ao seu lado, uma adolescente roendo cartões de crédito caducados, rosnava com raiva: "Cofres vazios, uma ova! O tipo deve querer que a gente dê a alma em vez de a vender, logo a alma, que é o nosso bem mais precioso!!".

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