Como uma noite em Buenos Aires

Ruiva, parece provocadora como uma cortesã e, ao mesmo tempo, ostenta o sorriso inocente de uma criança anterior ao mundo, e a todo o engenho e perfídia que este nos inocula. Está sozinha, sentada a uma mesa, vestida de negro, e faz rodar entre os seus dedos as pérolas (ou talvez fossem contas) baças de um colar, entoando entredentes a milonga repetitiva dançada numa noite antiga. O rapaz, que a estuda há horas, ganha coragem, arqueia os seus ombros como se fosse pegar nos cornos de um touro e aproxima-se dela, fazendo soar o tacão das suas botas nos mosaicos do chão.
- Posso pagar-lhe uma bebida?
Ela não responde, olha através dele e continua a murmurar a sua cantiga íntima. O rapaz desanima, e volta ao balcão do bar. Pede um uísque, que o bar-tender avia sem hesitar.
- Ela vem aqui todos as noites - confia o bar-tender, notando o seu desalento - eu acho que ela é louca, ou então, deve estar à espera de alguém.
- Talvez um amante - supõe o rapaz - se ela é louca, talvez já não se lembre muito bem de como ele era. Talvez se eu...
- O que é que você está a magicar?
Mas o rapaz não responde, não tem tempo, obedece a um rasgo de inspiração. Em passos decididos, vence a distância entre os dois e sem pronunciar palavra, segura-a pelos ombros, levanta-a da cadeira e beija-a nos lábios com força.
Ela abre muito os olhos, como se acordasse, os lábios pintados de rubro exclamam:
- Voltaste, por fim!
E antes que o rapaz desfrute do sabor da vitória, ela exibe a lâmina de um punhal que tirara da carteira, e crava-o no seu ventre.

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