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Asteróide 324 (ante-história)

Com cuidado, o menino louro manobrou a sua nave espacial por entre os troncos de árvores calcinadas e aterrisou-a numa clareira na floresta, também ela, uma mancha negra e cinzenta. Desceu por uma rampa metálica e embrenhou-se pela floresta, afundando as suas botas no triste manto de cinzas. Ocultou-se atrás de uma árvore quando ouviu o som de disparos e vozes. Conseguia ficar muito tempo assim, escondido sem ninguém o ver, e o que via fê-lo desejar não estar ali, viu homens e máquinas a cortar as árvores e a arrastá-las para o rio, e viu um grupo de caçadores com as suas presas - animais bravios e domésticos, ovelhas e cobras, raposas e linces, como se quisessem acabar com o que restava de vida naquele lugar. E quando sentiu que era seguro sair do seu esconderijo, voltou às pressas para a nave, pensativo e angustiado. Quando ia subir pela rampa, viu algo que o fez deter-se. O vórtice de vento que a sua nave causara ao pousar desenhara uma pequena clareira dentro da clareira, um espaço liberto com o feitio de um ninho onde podia ver a terra humuosa e as ervas que rebentavam novamente. No seu planeta, a essas ervas arrancava-as com determinação por as achar inúteis e danosas, mas ali, formavam a única nota verde dum mundo de desolação, o mais ínfimo e vigoroso sinal de esperança. Como via agora as ervas com um outro olhar, o Principezinho achou que também aquele mundo podia mudar, aqueles homens podiam mudar, logo que deixassem de ver as coisas e as criaturas como se estivessem fora deles, desconhecendo, como acontecia, que estavam vinculados a elas por um recíproco elo de pertença. Permanecendo nas suas divagações, mas menos angustiado, o menino embarcou na sua nave, e retomou a sua viagem, no mesmo instante em que, no outro lado do planeta, um avião se despenhava no deserto, e o seu piloto se via num mundo sem ervas e sem vida, onde dificilmente encontraria alguém com quem falar, a menos, que esse alguém viesse das estrelas.

1 comentário:

  1. Lindo! Exupéry gostaria , com certeza... Creio até que gostou muito!

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