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Ascensão

Um distúrbio ósseo de infância - talvez genético - fizera crescer o osso da cana do nariz, como uma ponte entre a ponta do nariz e o alto da cabeça.
À medida que os anos passavam, os seus olhos tomaram uma configuração estranha, não alojados nas órbitas, mas lateralizados e planos como os olhos dos peixes. Quando atingiu a idade adulta, e os hormónios de crescimento estabilizaram, ele achou que as surpresas tinham acabado, mas não. O que a princípio parecia apenas um sinal no meio da testa, abriu-se num pequeno olho sem pupila, baço como um espelho fumado, mas ele conseguia ver por ele, a princípio de modo confuso enquanto a ligação entre esse olho e o cérebro ainda estava fresca, mas aos poucos, a sua faculdade acessória de visão foi-se tornando mais e mais apurada até poder encerrar os olhos laterais durante horas a fio, por não precisar deles. O olho na testa também conseguia ver no escuro, com tanta nitidez como numa planície recendendo com a luz perfumada do carro de Hélio.
Quando as transformações cessaram, o jovem estava já resignado com o seu destino. Não! Não era diferente dos outros, como a princípio acreditara e mantivera a esperança. Mas também não sentia vergonha pelo seu estado, nem ninguém o humilhava por isso, antes o recebiam de braços abertos, felizes por reconhecer um dos seus.
Quando o acharam digno de integrar a sociedade dos adultos, foi-lhe oferecido um colar de contas de turquesa com miniaturas em prata de uma bigorna e uma picadeira. Com ele ao pescoço, e invocando a protecção das divindades do mundo inferior, começou a acompanhar os outros ciclopes no seu trabalho sombrio nas galerias das minas.


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...