Arcana Quedam

Apesar da chuva, os vendedores de antiguidades e velharias compareceram à mesma na sua feira mensal no Parque da cidade. Alguns ergueram protecções improvisadas sobre os seus haveres - oleados e manga plástica, esticados e suspensos por paus, e varolas de árvores cortadas, ou pregos comedidamente pregados na árvores em volta. Algumas pedras enlameadas compunham o arranjo, precavendo contra a brisa que soprava da banda do lago. Como que para premiar a coragem e o esforço, os compradores e curiosos também compareceram, enfiados nos seus Kispos e gabardinas, ou terçando chapéus de chuva nas passagens mais estreitas. Como se fosse um soalheiro dia de Primavera, o negócio fez-se à mesma, e eu, que vinha a medo de não encontrar nada de jeito, constatei com satisfação que não faltava nenhum dos alfarrabistas onde eu habitualmente esquadrinhava os livros, para os comprar ou pelo simples prazer da devassa. Na minha banca de eleição, o vendedor torceu o nariz, entre divertido e comprometido, quando eu folheei um dos livros expostos.
- O que é que se passa, Morais, ainda não tem preço?
- Não, não é isso, estava para o ler, mas leve-o, porque está no seu direito!
Encolhi os ombros e devolvi-o ao lugar de onde o retirara. Escolhi dois que me agradavam, e pegara num terceiro quando topei novamente a expressão ambígua do Morais. Talvez fosse da chuva, mas o Morais não estava mesmo inspirado para vender.
- O que é que foi desta vez, Morais, também tem anseios de o ler antes de o deixar partir.
- Não me leve a mal, amigo, mas esse não posso mesmo deixá-lo levar, porque não tem preço - e mal acabou de falar, fez-me um sinal para me aproximar como se me quisesse fazer uma confidência.
Dei a volta à banca, furtando-me às goteiras nas dobras do oleado, e pus-me ao lado dele.
- Esse livro é único, no verdadeiro sentido. O homem que o escreveu nos anos vinte era alquimista, e imprimiu meia-dúzia de exemplares numa tipografia. É um guia para a composição do Lapis ou Pedra Filosofal, a tintura mítica que se diz não só converter os metais como possibilitar a eterna juventude. Ao contrário de outros tratados alquimistas, neste não encontra uma floresta de símbolos e alegorias, mas linguagem clara, objectiva, científica. Estes exemplares não se destinavam a serem vendidos, mas transmitidos de mão em mão, de um iniciado para um amador da alquimia. Este em particular, foi subtraído a esse destino, porque foi vendido com outros bens na altura em que o seu possuidor faleceu, e andou em bolandas até eu o reconhecer, porque já me haviam inteirado da lenda.
- E está aqui para ser entregue em mãos a quem o merecer possuir?
- Sim, é mais ou menos isso, não sei como, mas acho que reconhecerei, de alguma forma, a quem o devo entregar. Talvez essa pessoa me faça uma pergunta especial sobre hermetismo, ou me fala do laboratório alquímico que mantém na cave da sua casa, não sei, mas estou confiante em que me surgirá uma pista.
- Isso é muito rebuscado, Morais. Além de eu não acreditar na Alquimia, porque acho que esta foi apenas o estádio pueril, ingénuo, da nossa Química, fica-me uma questão de peso - se o livro está escrito em linguagem não-hermética, porque é que você não empreendeu pessoalmente a composição do Lapis, de modo a ficar rico e regressar à sua juventude? 
- Se não acredita em alquimia, também não acreditará que isso nunca resultaria comigo, porque eu comprei o livro, e ele não me foi destinado. Mas falando de homem vivido para homem vivido, não ando nisto por perseguir o ouro, e quem é que quer viver para sempre num mundo podre e asqueroso como o nosso?


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