Anóni-mato

"Como já te tinha dito, os teus poemas não estão muito maus" - considerou o meu amigo - "Só precisas de reconhecimento, eles e tu precisam de ser lidos, criticados, louvados, vomitados".
- O que é que me aconselhas?
- Põe-te em campo e tenta atingir a Fama. As coisas ficam mais fáceis dessa forma!
Acatei o conselho. Meti o meu original numa mochila, junto com duas caixas de cartuchos e um apito-chamariz, preparei a minha caçadeira e pus-me em campo.
Parei o meu carro na berma de um paúl, e embrenhei-me num labirinto de charcos e canaviais. Devia ter calçado as minhas botas de cano alto porque o chão estava cheio de lama, mas lembrei-me que depois da caçada, a fama me daria com que comprar umas botas novas e até, contratar um engraxador a tempo inteiro. Com a experiência que adquirira na caça aos patos, preparei a caça à Fama. Construí um pequeno abrigo com caniços cortados e colocados em cunha, acocorei-me debaixo deles e soprei no apito-chamariz, com força, uma e uma segunda vez. Mal ouvi um grasnido em resposta, pousei o apito e fiquei à coca. E a ave apareceu, agitando as asas enormes sobre as plumas dos caniços. Disparei um tiro certeiro que atingiu a cabeça, pulverizando quatro dos cento e trinta e oito olhos da criatura, mas foi suficiente, ela rodou no espaço e despenhou-se no meio de um charco. Recarreguei a arma e aproximei-me dela com cuidado. Estava a agonizar, os olhos abriam e fechavam repetidamente, da mesma forma que os lóbulos aguçados das suas inúmeras orelhas se retorciam em espiral. Que coisa mais feia, pensei, nem sei porque é que tanta gente tenta apanhá-la. Antes que se afundasse na lama, retirei-a dali e arrastei-a até ao carro. Enfiei-a na bagageira e levei-a para casa. Ainda pelo caminho, liguei ao meu amigo e, quando lá cheguei, já ele lá estava, com um bigode postiço e um chapéu à Humphrey Bogart. Com algum secretismo, aproximou-se, olhamos os dois em redor, e como não estivesse ninguém, abri a bagageira. Ele abriu a boca de espanto.
- Mataste-a!!
- Não foi o que disseste?
- Não! Disse para a atingires - numa asa, numa pata, em qualquer sítio menos na cabeça. A ideia era teres a ave em cativeiro, mesmo ferida. Durante o sequestro, empanturravas a ave com os teus versos e quando a soltasses, tinhas a vida feita.
- Assim não me serve de nada, pois não?
- Podes experimentar cozinhá-la, mas dizem que a carne é intragável, deve ser por causa da tinta. Ou então enterra-a em qualquer lado e fica resolvido, é isso que fazem á Fama depois dela morrer.
Senti-me frustrado, não me apetecia ir á procura de uma outra ave hedionda como aquela. Chamei o meu amigo quando ele já se afastava.
- Sabes - disse-lhe - acho que vou seguir o teu conselho inicial e tentar integrar um júri literário, e assim pertencer a um circuito fechado de lisonja e recomendação. Engorda-se logo a Fama sem ter de andar a apanhá-la.

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