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Afectuosa mente

Ponham-nos numa lâmina de vidro, ou num espectrógrafo, os afectos, e nem assim estaremos certos do que são, ou que elementos ou fotões os compõem, comportam-se como fios de seda, bolas de sabão, os afectos, e algodão em rama num túnel de vento, raízes de sequóias, ou alicerces de ferro e concreto, são afectos e desafectam todas as definições, carregamos um afecto toda a vida e um dia descobrimos que ele nunca esteve lá, ou vivemos convencidos de que ele não existe, e trazemos um para casa no regresso como uma moeda esquecida num bolso, ou uma pluma microscópica pousada no cabelo. Mas como tudo na natureza, o afecto tem de ter peso, massa, valor atómico, tal como peso, massa e valor atómico é mister que possua a sua sombra, porque a sombra do afecto dura tanto ou mais do que ele, e já o afecto não existe ou ainda não chegou a existir, e é a sua sombra que veste a pele da memória, e do sonho.

3 comentários:

  1. Ah! quantos afetos entraram em minha vida através de sua sombra!
    Que lindo este seu texto!

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  2. Só à segunda leitura é que "vi" o título... :-)

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  3. sonhar o afecto é já vivê-lo, mesmo quando ele se debate num teatro de sombras

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Rainha

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