INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Os bares e a descompressão

Daniela trabalhava num Call Center, um emprego duro e esgotante com registos de produtividade, exigências, metas a cumprir - não se ganhava muito e tinha-se de dar o litro. A pressão era tanta que havia muitos que não aguentavam e se despediam, ou então, arrepiavam caminho na rotina diária com medicação aconselhada por amigos ou farmacêuticos. Daniela e alguns colegas mais chegados conseguiram arranjar um barómetro para a sala onde trabalhavam. Com ele, tinham logo a noção de como estava a pressão do ar, e se a situação permitia beber um café sem grandes preocupações ou se, pelo contrário, era melhor prevenirem-se e tomar um comprimido para os nervos. O Call Center trabalhava das nove da manhã às onze da noite. Num dia em que estivera a cumprir o último turno, Daniela apercebeu-se no regresso a casa que tinha esquecido a carteira no emprego. Voltou às pressas. As luzes estavam quase todas apagadas e já todos tinham saído menos o segurança de serviço. Pediu-lhe ajuda e ele acompanhou-a, e qual não foi o espanto dos dois quando, ao entrarem na sala, a pressão ser tão baixa que o ar ascendia em colunas verticais, fazendo as suas roupas agitarem-se num cálido turbilhão.
A laranja grande, exuberantemente laranja, moveu-se um ou dois milímetros depois de muito se debater na base da pirâmide de frutos, a sua proeza agitou os outros, que se moveram, rodaram e deslizaram de forma quase imperceptível a olho nu. Nem todos os frutos o conseguiram, o que se traduziu por exalações agressivas dos seus sucos internos, e no caso do limão, por um fio de sumo ácido libertado por um corte mínimo na casca, e que castigou os frutos sob si. A crueldade do limão levou a novas reacções manifestadas pelo movimento e aromas daqueles espécimes, enquanto, no topo da pirâmide, as rubras cerejas e as uvas luzidias pareciam indiferentes a toda essa batalha, na sua beatitude de frutos dominantes e sobranceiros.
Igualmente indiferente a tudo isso mantinha-se o artista, posicionado a uns três metros desse centro de mesa, ignorando tudo e mais preocupado com as linhas e matizes da natureza-morta que pintava.

Anóni-mato

"Como já te tinha dito, os teus poemas não estão muito maus" - considerou o meu amigo - "Só precisas de reconhecimento, eles e tu precisam de ser lidos, criticados, louvados, vomitados".
- O que é que me aconselhas?
- Põe-te em campo e tenta atingir a Fama. As coisas ficam mais fáceis dessa forma!
Acatei o conselho. Meti o meu original numa mochila, junto com duas caixas de cartuchos e um apito-chamariz, preparei a minha caçadeira e pus-me em campo.
Parei o meu carro na berma de um paúl, e embrenhei-me num labirinto de charcos e canaviais. Devia ter calçado as minhas botas de cano alto porque o chão estava cheio de lama, mas lembrei-me que depois da caçada, a fama me daria com que comprar umas botas novas e até, contratar um engraxador a tempo inteiro. Com a experiência que adquirira na caça aos patos, preparei a caça à Fama. Construí um pequeno abrigo com caniços cortados e colocados em cunha, acocorei-me debaixo deles e soprei no apito-chamariz, com força, uma e uma segunda vez. Mal ouvi um grasnido em resposta, pousei o apito e fiquei à coca. E a ave apareceu, agitando as asas enormes sobre as plumas dos caniços. Disparei um tiro certeiro que atingiu a cabeça, pulverizando quatro dos cento e trinta e oito olhos da criatura, mas foi suficiente, ela rodou no espaço e despenhou-se no meio de um charco. Recarreguei a arma e aproximei-me dela com cuidado. Estava a agonizar, os olhos abriam e fechavam repetidamente, da mesma forma que os lóbulos aguçados das suas inúmeras orelhas se retorciam em espiral. Que coisa mais feia, pensei, nem sei porque é que tanta gente tenta apanhá-la. Antes que se afundasse na lama, retirei-a dali e arrastei-a até ao carro. Enfiei-a na bagageira e levei-a para casa. Ainda pelo caminho, liguei ao meu amigo e, quando lá cheguei, já ele lá estava, com um bigode postiço e um chapéu à Humphrey Bogart. Com algum secretismo, aproximou-se, olhamos os dois em redor, e como não estivesse ninguém, abri a bagageira. Ele abriu a boca de espanto.
- Mataste-a!!
- Não foi o que disseste?
- Não! Disse para a atingires - numa asa, numa pata, em qualquer sítio menos na cabeça. A ideia era teres a ave em cativeiro, mesmo ferida. Durante o sequestro, empanturravas a ave com os teus versos e quando a soltasses, tinhas a vida feita.
- Assim não me serve de nada, pois não?
- Podes experimentar cozinhá-la, mas dizem que a carne é intragável, deve ser por causa da tinta. Ou então enterra-a em qualquer lado e fica resolvido, é isso que fazem á Fama depois dela morrer.
Senti-me frustrado, não me apetecia ir á procura de uma outra ave hedionda como aquela. Chamei o meu amigo quando ele já se afastava.
- Sabes - disse-lhe - acho que vou seguir o teu conselho inicial e tentar integrar um júri literário, e assim pertencer a um circuito fechado de lisonja e recomendação. Engorda-se logo a Fama sem ter de andar a apanhá-la.

erpmeS

Um fim de tarde e os dois sentados na esguia sombra dum cipreste-do-Mediterrâneo, junto ao caminho no meio das ervas que conduzia à praia isolada, muito procurada pelos nudistas. Estiveram um pouco a namorar e, como começasse a passar muitas pessoas para a praia, não se sentiram tão à-vontade e dedicaram-se a comer a merenda que haviam trazido de casa. Enquanto cortava uma talhada de melão, ela lembrou-se de perguntar:
- Achas que o nosso amor é para sempre?
- Claro, amor, vai durar mais do que esta árvore, tenho a certeza.
Ela sorriu, satisfeita, e com o bico da faca com que cortara o melão, gravou um coração redondinho na casca da árvore, e as iniciais dos nomes deles. Beijaram-se com os rostos colados à árvore, como que para solenizar aquelas palavras. Arrumaram a tralha, e fizeram-se ao caminho, à procura do crepúsculo sobre o mar ou de um lugar qualquer, mesmo sem o mar no horizonte, onde tivessem alguma privacidade. Naquele instante, uma solitária nuvem escura no céu desferiu um raio que cortou em dois o cipreste, reduzindo o tronco a um coto fumegante.
- Amor! Viste aquilo, amor?
O amor dela não prestara atenção, e nem estava por perto - avantajara a passada ao seguir a cadência ritmada do andar de uma morena, vestida apenas com a roupa que Deus lhe dera.

Danos maiores

Rosário, cigana e indigente, tentava vender pensos adesivos aos motoristas quando eles paravam junto aos semáforos, poucos os compravam e os pensos nunca davam grande dinheiro, e nem serviam para grande coisa porque eram pequenos (o mesmo pensou a primeira pessoa que a socorreu, quando os viu esvoaçar à volta do corpo de Rosário depois do atropelamento).

Coerência

Com evidência, rezam as estatísticas, morrem mais pessoas na cama do que nas ruas. Afonso Gualdos da Câmara, como homem excêntrico que sempre foi, pareceu querer confirmar e contrariar as estatísticas de uma só vez: morreu debaixo de uma cama, esmagado por ela enquanto descarregava um camião de mudanças estacionado na rua.

Asteróide 324 (ante-história)

Com cuidado, o menino louro manobrou a sua nave espacial por entre os troncos de árvores calcinadas e aterrisou-a numa clareira na floresta, também ela, uma mancha negra e cinzenta. Desceu por uma rampa metálica e embrenhou-se pela floresta, afundando as suas botas no triste manto de cinzas. Ocultou-se atrás de uma árvore quando ouviu o som de disparos e vozes. Conseguia ficar muito tempo assim, escondido sem ninguém o ver, e o que via fê-lo desejar não estar ali, viu homens e máquinas a cortar as árvores e a arrastá-las para o rio, e viu um grupo de caçadores com as suas presas - animais bravios e domésticos, ovelhas e cobras, raposas e linces, como se quisessem acabar com o que restava de vida naquele lugar. E quando sentiu que era seguro sair do seu esconderijo, voltou às pressas para a nave, pensativo e angustiado. Quando ia subir pela rampa, viu algo que o fez deter-se. O vórtice de vento que a sua nave causara ao pousar desenhara uma pequena clareira dentro da clareira, um espaço liberto com o feitio de um ninho onde podia ver a terra humuosa e as ervas que rebentavam novamente. No seu planeta, a essas ervas arrancava-as com determinação por as achar inúteis e danosas, mas ali, formavam a única nota verde dum mundo de desolação, o mais ínfimo e vigoroso sinal de esperança. Como via agora as ervas com um outro olhar, o Principezinho achou que também aquele mundo podia mudar, aqueles homens podiam mudar, logo que deixassem de ver as coisas e as criaturas como se estivessem fora deles, desconhecendo, como acontecia, que estavam vinculados a elas por um recíproco elo de pertença. Permanecendo nas suas divagações, mas menos angustiado, o menino embarcou na sua nave, e retomou a sua viagem, no mesmo instante em que, no outro lado do planeta, um avião se despenhava no deserto, e o seu piloto se via num mundo sem ervas e sem vida, onde dificilmente encontraria alguém com quem falar, a menos, que esse alguém viesse das estrelas.

Milonga de Albornoz - Tata Cedrón Trío (letra de Jorge Luis Borges)



Milonga de Albornoz
(Jorge Luis Borges)

Alguien ya contó los días.

Alguien ya sabe la hora.

Alguien para Quien no hay

ni premuras ni demora.

Albornoz pasa silbando

una milonga entrerriana;

bajo el ala del chambergo

sus ojos ven la mañana.



La mañana de este día

del ochocientos noventa;

en el bajo del Retiro

ya le han perdido la cuenta

de amores y de trucadas

hasta el alba y de entreveros

a fierro con los sargentos,

con propios y forasteros.



Se la tienen bien jurada

más de un taura y más de un pillo;

en una esquina del sur

lo está esperando un cuchillo.

No un cuchillo sino tres

antes de clarear el día,

se le vinieron encima

y el hombre se defendía.



Un acero entró en el pecho,

ni se le movió la cara;

Alejo Albornoz murió

como si no le importara.

Pienso que le gustaría

saber que hoy anda su historia

en una milonga. El tiempo

es olvido y es memoria.


Como uma noite em Buenos Aires

Ruiva, parece provocadora como uma cortesã e, ao mesmo tempo, ostenta o sorriso inocente de uma criança anterior ao mundo, e a todo o engenho e perfídia que este nos inocula. Está sozinha, sentada a uma mesa, vestida de negro, e faz rodar entre os seus dedos as pérolas (ou talvez fossem contas) baças de um colar, entoando entredentes a milonga repetitiva dançada numa noite antiga. O rapaz, que a estuda há horas, ganha coragem, arqueia os seus ombros como se fosse pegar nos cornos de um touro e aproxima-se dela, fazendo soar o tacão das suas botas nos mosaicos do chão.
- Posso pagar-lhe uma bebida?
Ela não responde, olha através dele e continua a murmurar a sua cantiga íntima. O rapaz desanima, e volta ao balcão do bar. Pede um uísque, que o bar-tender avia sem hesitar.
- Ela vem aqui todos as noites - confia o bar-tender, notando o seu desalento - eu acho que ela é louca, ou então, deve estar à espera de alguém.
- Talvez um amante - supõe o rapaz - se ela é louca, talvez já não se lembre muito bem de como ele era. Talvez se eu...
- O que é que você está a magicar?
Mas o rapaz não responde, não tem tempo, obedece a um rasgo de inspiração. Em passos decididos, vence a distância entre os dois e sem pronunciar palavra, segura-a pelos ombros, levanta-a da cadeira e beija-a nos lábios com força.
Ela abre muito os olhos, como se acordasse, os lábios pintados de rubro exclamam:
- Voltaste, por fim!
E antes que o rapaz desfrute do sabor da vitória, ela exibe a lâmina de um punhal que tirara da carteira, e crava-o no seu ventre.

Tempo e espaço são sinónimos, pelo que uma ilha deserta, sem nada nem ninguém, é como um tempo vazio, sem horas nem tempo.
Naufragar numa ilha deserta, pode ser encontrar o lugar onde o tempo parou.
(E isso não assusta aqueles que amam a sua solidão).

Um na multidão

O corpo, segundo contam os que estiveram lá dentro, jaz no féretro na salinha apertada de tecto baixo que serve às mil maravilhas para o velório, ainda que usar esse termo possa ser de extremo mau gosto quando pronunciado ao pé dos parentes e amigos do falecido.
Como é novidade - está ali um morto de fresco - as pessoas que passam na rua a caminho do emprego ou na volta do supermercado, ao verem tanta gente trajada de negro, entram também para dar o seu contributo à cerimónia ou para confirmar se o morto está mesmo morto e, já agora, apurar se era alguém conhecido.
Forma-se espontaneamente uma fila ogival que parte da rua, transita até ao morto e parentalha para regressar de novo à rua entre suspiros e lamentações sobre a injustiça da vida, uma fila ordenada e cívica como um carreirinho de formigas. Dou de caras com esta situação quando, cá fora, os que já por lá passaram fazem o relatório aos que tem intenção de entrar - é muito novo, moço ainda, tem cabelos louros quase brancos, outro discorda, os cabelos são brancos mesmo, iria jurar que é aquele velhadas que trabalhava no meu Banco, uma outra testemunha, uma mulher, não querendo dar-se por achada, apesar de ter desmaiado com o cheiro das velas, guincha mais alto que os outros - era uma mulher, eu bem vi, vocês são é cegos, só uma mulher é capaz de ver outra mulher tal como ela é. Enquanto se debate e discute o género, a idade e o aspecto de quem está estendido no caixão, os curiosos continuam a afluir e eu também decido entrar na liça e tomo o meu lugar na fila.
A dita fila anda muito devagar, as pessoas gostam de prolongar aquilo que lhes dá prazer, e a morte dos outros é uma fonte de prazer tântrico, como uma celebração em câmara lenta da circunstância de ainda não ter chegado a nossa vez. E para servir os seus propósitos, fazem render o acto, apertam a mão ou abraçam todos os que se mostram lacrimosos ou descoroçoados, e proferem banalidades de circunstância. Quase meia-hora depois de ter cedido ao impulso de participar também no velório, chega a minha vez de descrever o passeio junto ao féretro. Reconheço os meus pais, sentados dum lado e doutro do caixão, e Ana a minha companheira, sentada num banquinho encostado a este. Todos eles têm olhos de choro, e desvio o olhar porque não gosto de os ver chorar, mas não sinto tristeza, seria uma frustração, eterna, se os surpreendesse a dançar em cima do caixão.


No futuro

Á hora de ponta, no autocarro voador superlotado, leu uma manchete de um jornal electrónico que um estranho carregava: "Caso raro de longevidade: Mulher no hospital de Lisboa completa hoje cento e cinquenta anos!".
Ficou a pensar nisso. Como é que se chega a uma idade dessas? A beber leite de cabra e iogurtes naturais? Comendo cebolas e aipo? Com a prática do ioga?
Quanto mais pensava no assunto, mais irrequieto se sentia e, por fim, não conseguiu resistir mais, e antes que o estranho abandonasse o autocarro, pediu-lhe se podia ler o resto do artigo.
A resposta era muito simples e vinha no subtítulo: a mulher comatosa estava ligada às máquinas há cem anos.
"E não posso mesmo matá-la?" - perguntou Noé com os olhos fixos no céu carregado, e resistindo a coçar a picada da pulga.

Estímulo e resposta

Estímulo:
1 - Caminhava com a mãe numa tarde chuvosa de Maio, quando um arco-íris coloriu o céu.
2- Teve de perguntar: Mãe! Como é que nasce o arco-íris?
3 - Hesitando entre a feia ciência e o belo folclore, a mãe respondeu: O arco-íris nasce de um pote de ouro enterrado num lugar longínquo!

Resposta:
1 - O mesmo menino passeava na orla de um campo de golfe, num belo dia de sol, no momento exacto em que se iniciou a rega automática e os aspersores começaram a distribuir uma chuva artificial.
2 - Nesse instante, com os repuxos de água entre o menino e o sol, desenhou-se, miraculosamente, um arco-íris à flor da relva.

3 - A mesma mãe do mesmo menino surpreendeu o seu pequeno rebento a esgravatar o solo com as mãos nuas.

Relações peçonhais

Sempre lhe desagradou o feitio e a presença do seu chefe, desde o primeiro momento em que entrou para a firma até à altura em que a doença prolongada o obrigou a retirar-se dela. Não gostou dele às primeiras, nem às segundas, mas, mais para o fim, quando ele estava já nas últimas, conseguia sentir por ele uma piedade epidérmica que beirava a simpatia.

Maria tinha uma família pequena, uma filha e um companheiro que era o pai da sua filha, e os três viviam numa casa pequena, onde também existia um cão que quase se poderia considerar da família. Ainda assim, era uma família pequena, nuclear. Que não durou muito tempo, e explodiu, um pouco mais de meio século depois da explosão de Hiroshima.

handicap euclidiano

A pequena esfera vivia no mundo dos sábios. Os sábios, como ela, também tinham a forma esférica, tal como tudo o que aí existia ou vivia - as casas, as opiniões, as crenças, as certezas, as nuvens. A pequena esfera escolhia desse universo as coisas de que gostava e levava-as para a sua casa esférica, e por elas e por ela mesmo, era capaz de matar ou morrer. A pequena esfera, como todos os sábios do seu mundo, era absolutamente incapaz de ver as coisas de um ângulo diferente.

Educar

- Pai, não é preciso corrigir-me de novo. Está bem?
- Porquê? É missão sagrada de qualquer pai corrigir os filhos, para que eles falem correctamente e sem erros.
- Mas isto é um exagero!
- Ouviste o que disseste? Pronuncias exagero como ezsagero. Não achas grave?
- Mas hoje é um dia de festa, quero divertir-me e não, ter-te sempre a zunir ao meu ouvido como o gafanhoto do Pinóquio.
- Eu sei que é dia de festa, mas lá porque estão a celebrar o teu jubileu como professor universitário, achas que devo suspender a minha incumbência como pai?

A toca

Um tapete roído, o saco de plástico no chão da sala, estraçalhado pelos dentes brincalhões. Ela era assim, não sabia estar quieta, esperando as horas passar, mas também não se deveria ter animais dentro de casa, era o que o seu médico sempre dizia. Foi à sua procura, seguindo o seu rasto de diabruras. Um poça de mijo num canto das escadas, outro tapete sacudido pelos dentes, uns fios beje do tapete na borda da banheira onde deveria ter estado apoiada, depois remexera na terra do vaso, e deixara marcas no chão, as pistas conduziam sempre ao mesmo lugar, ao quarto dos fundos. Abriu para trás a porta entreaberta, e sentiu uma tristeza fria no peito. Aquele quarto tinha ficado bonito, apesar da escuridão conseguia vislumbrar os móveis pintados de cor creme com puxadores rosa, e colagens de fantasia nas gavetas e portas. Sentou-se pesadamente na cama, sabia que ela estava ali. Ouvia a sua respiração, arfante como a de um animal cansado e com sede. Não foi preciso esperar muito para a ver aparecer. A medo. A princípio, apenas a cabeça emergiu do roupeiro, e ali ficou imóvel, com os olhos fixos em si, como se o estivesse a estudar, depois foi-se aproximando, lentamente, de quatro, os punhos cerrados como patas. Parou junto a si, cheirando a perna das suas calças, analisando, catalogando mentalmente o seu odor. Aproveitou a oportunidade e afagou os seus cabelos fartos, desgrenhados, e sentiu que as suas resistências, o seu medo, desapareciam. A filha deitou-se de lado no chão, com a cabeça apoiada nos seus pés. E ele esfregou os olhos, limpando, extinguindo, uma lágrima teimosa.

Lar, doce lar

- A nossa mãe está ficando xexé - enunciou Adelmira, a abrir o convénio familiar - não é bem xexé, já não é auto-suficiente, vem as senhoras limpar a casa e dar-lhe de comer, mas nem isso lhe chega, quer atenção, quer que nós estejamos presentes, pergunta por todos, convoca todos os netos, chama-os pelos nomes, recrimina-nos a todos quando não aparecemos lá há sete dias ou sete meses, aquela memória de elefante deixa-nos a todos doidos. É angustiante. Eu acho que ela deveria ir para um Lar de Idosos.
- É uma ideia que desagrada a todos - continuou António, o marido de Adelmira - tirá-la da casinha onde sempre viveu, com os retratos antigos e o relógio de cuco na parede, a cama de colchão de palha, o cadeirão onde o marido dormia as sestas e onde ela se recosta como se fosse adormecer sobre o seu peito.
- Poesias - retomou Adelmira - ela já não está capaz de viver sozinha. Vem muitas vezes a minha casa porque estou mais perto, mas também não posso tê-la lá a viver, nem nenhum de vocês. Todos temos a nossa vida organizada, vivemos em função dos nossos filhos e netos. A velhota tem de ir para um Lar.
- Concordo - assentiu Aníbal, um dos irmãos, homem de poucas falas -  Onde?
- Há aquele lar excelente no Sobreiro, já lá fui, é muito asseado, as empregadas mimam os velhotes, e eles tem um espaço grande no exterior para andarem ou sentarem-se nos bancos.
- No Sobreiro? - reagiu Helena, como qualquer um deles poderia ter feito - Sabes o que chamam ao Lar do Sobreiro? O matadouro! Os velhos que vão para lá morrem em menos de seis meses. Não quero mandar a minha avó para lá, é o mesmo que assinar uma sentença de morte.
Adelmira soltou um suspiro fundo.
- Helena, minha filha, não podemos crer em tudo o que o povo diz, e a decisão pertence a mim e aos meus irmãos, foi a nós que ela criou e cabe-nos a nós cuidar dela nos seus últimos dias. Conheço essa alcunha do matadouro, todos conhecemos, mas tenho a certeza de que é uma calúnia levantada por algum Lar concorrente para melhorar o negócio. Eu já lá fui buscar os papéis para começar a tratar das coisas. Algum de vocês se opõe a que ela vá para o matad...desculpem, para o Lar do Sobreiro?
Um silêncio prolongado. Dava para ouvir o bater de asas de uma mosca.
- Acho que...- começou António, meditativo - acho que se a gente levasse para lá o colchão de palha, ela se iria sentir como se estivesse em casa.

A objectiva no objecto

Na ossatura de uma casa, nenhum objecto é igual a qualquer outro objecto, como os ossos das nossas vértebras. Uma mesa não é igual a outra mesa, uma porta e uma janela não são iguais a outra porta e janela, mesmo que tenham o mesmo tamanho, e sido feitos dos mesmos materiais e com as mesmas mãos. 

Na minha casa, isso é especialmente notório nas portas, nenhuma porta se comporta da mesma forma que outra, e mudam de comportamento consoante as usamos para abrir ou fechar. Já pensei, porque penso muito e ando sempre à procura de explicações, que isso é originado pelo maior ou menor uso (e desgaste) que fazemos delas, pelas irregularidades do chão e outros defeitos de construção da casa, e até pela maior secura ou humidade do ar em virtude de haver ou não por perto torneiras a serem usadas. Mas eu falo nisso, porque é uma ideia que já deixei para trás. Agora, apesar de não ser um fabulista, acredito que as portas, entre todos os objectos do mundo, são os mais propensos a manifestarem intenções quase humanas e a terem um carácter próprio e individualizado.

Quando me ausento em viagem, no regresso, ao abrir a fechadura da porta de entrada da casa, ela soa com uma musicalidade alegre nos seus requebros mecânicos, da mesma forma que, tenho a certeza e a memória dela me ter soado triste no momento em que a fechei para empreender viagem, como se isso fosse possível, mas é assim que ela me soa, como um cão que tivéssemos em casa e que reagisse afectuosamente às nossas partidas e chegadas. Nos dias correntes, a porta de entrada da casa possui um comportamento comedido, circunstancial, como se o som da sua fechadura e das suas dobradiças soasse como um rotineiro "Até já!" ou um "Já de volta?". 

No interior da casa, e repito-me, as portas têm comportamentos diferentes. Algumas nunca são fechadas, porque delimitam lugares de passagem, e como ficam abertas, parecem em hibernação, como se aguardassem num sono vegetal que nós os resgatemos da inanição. 

Outras portas são apenas encostadas, quando delimitamos alguma privacidade na nossa higiene ou sensualidade, embora isto seja uma redundância de palavras porque a sensualidade também é higiénica porque nos purifica e nos faz sentir melhor, com os tecidos tonificados e o coração a bater melhor, e até a vista se aclara e vemos mais longe. E aqui há um dado adquirido: a porta do meu quarto tem o som das minhas noites, tal como a porta da cozinha, onde tomo a primeira refeição do dia, e a última, soa como um eco fiel do que irá ser, ou do que foi o meu dia.

De toda a forma, nenhuma das portas de dentro da casa é trancada à chave, a menos que tenha de me ausentar por um longo período de tempo - e isso só para aborrecer eventuais intrusos - e aí todas as fechaduras são trancadas e cada porta, mais do que cada divisão, respira e transpira de forma peculiar. No quotidiano, as chaves de todas as portas interiores, estão embrulhadas num ninho de segredos dentro de uma pequena arca de sândalo - elas que conspirem, não quero nem imaginar!

Também tenho notado que há duas portas na minha casa que revelam uma natureza excepcional.

A que dá para a cave tem sempre um som quase lúgubre ao abrir e fechar, embora não haja motivos para isso. É uma cave normal, bem iluminada, que serve de casa das máquinas, arrecadação e adega. O chão é pavimentado, e assisti às várias etapas da sua construção, pelo que não creio que haja lá algum cadáver enterrado; só pode ser por ser o lugar mais baixo da casa, quase integralmente abaixo do nível do chão, onde circulam as energias contraditórias de uma negligente orientação da casa, que não teve em conta os paralelos e meridianos magnéticos, ou as linhas de força dos veios metálicos e cursos de água subterrâneos. É esse desconforto que a porta me parece transmitir - é como quando uma pessoa adormece numa posição retorcida e incómoda e tem sonhos correspondentes, retorcidos e atribulados. O som da porta da cave trai esse queixume benevolente da terra que a envolve.

A outra porta que tenho de referir é a da sua correspondente no alto, a porta do sótão. É um sótão pequeno ao jeito de uma água-furtada, angular como um chapéu sob os planetas e as estrelas. Tem duas pequenas janelas na placa que abrem para o telhado. A madeira e os metais da porta do sótão dão-me uma sensação de conforto e intimidade, soam como um velho amigo que não vemos há algum tempo, ou o murmúrio de um lago onde nadam docilmente as nossas memórias e impressões. Durante algum tempo, foi ali que eu guardei os meus livros (poucos, sempre muito poucos) e onde me retirava para procurar ler ou escrever, depois, mudei as minhas coisas para outra divisão mais perto do meu quarto, mas o sótão conserva essa atmosfera de refúgio e de devaneio. As estantes quase esvaziadas mantém a sua dignidade, e os sofás acolhem o meu repouso como antes. Por vezes, só ali é que consigo trabalhar, sento-me à secretária e escrevinho numa folha ou bloco de papéis, ou leio um livro que ficara por ler e ali deixara para as ocasiões. Também não tenho televisão no sótão, não preciso e não quero, apenas um mini-HiFi e muitos discos, que ouço consoante o meu estado de espírito. Quando o meu cansaço é maior do que muito, sei, e o som dessa porta também mo lembra, que só tenho uma coisa a fazer - atravesso a janela do sótão e vou-me sentar um pouco no telhado da casa. É uma terapia fantástica. Encosto-me á chaminé ou reclino-me sobre as telhas e fico a ver as pessoas e as casas, pequeninas, e a paisagem maior e mais perene do que elas. Os problemas esvaem-se como células malignas empurradas pelo corropio das ruas, e eu e a casa ficamos suspensos das nuvens ou das flutuações da linha do horizonte. Como uma porta aberta, e sem chaves.

Crise geral

Fausto decidiu vender a alma ao diabo, deram-lhe uma senha, e teve de esperar pela sua vez. A fila de pretendentes dava várias voltas em espiral ao quarteirão, e foi-se distraindo a mirá-los. Candidatos a actores, candidatos a escritores, candidatos a candidatos, empresários, tecnocratas, donas-de-casa, estudantes, compradores compulsivos, senhores da guerra, desempregados, políticos de terra pequena, vendedores de bíblias...Num instante, a fila compôs-se atrás de si, com mais e mais pessoas a tentar vender a alma. E a fila não andava, devia haver muito regateio nos primeiros lugares, e depois, depois acabou tudo. Uma voz nos altifalantes expôs o impasse: contrariando as leis da oferta e da procura, ninguém parecia disposto a baixar o preço da alma apesar da oferta excessiva, pelo que o comércio se declarava indefinidamente suspenso, para não se esvaziarem os cofres.
Fausto sentiu frustração e indignação pelo anúncio, mas dispersou com o resto da multidão. Ao seu lado, uma adolescente roendo cartões de crédito caducados, rosnava com raiva: "Cofres vazios, uma ova! O tipo deve querer que a gente dê a alma em vez de a vender, logo a alma, que é o nosso bem mais precioso!!".


A sua relação teve um fim trágico: ele matou-a. Mas como gostava de finais felizes, desenhou um sorriso post-mortem nos seus lábios frios.

O exorcista

Apesar dos gritos agudos que ressoavam pela casa como o eco de um látego, aquele bater na porta chamou a atenção de todos. A mãe da jovem corre a abrir, um padre perfilava-se na soleira sob a chuva incessante, tinha o rosto envelhecido, e segurava um missal e um rosário nas mãos.
- Como é que ela está?
- Continua possessa, vomita um líquido verde, fala línguas estranhas, e roda o pescoço.
- No sentido dos ponteiros do relógio ou no sentido inverso?
- Gira no sentido dos ponteiros do relógio, e depois retoma a posição inicial, fazendo-a girar em sentido contrário, talvez para acertar as horas.
- E comeu alguma coisa verde à refeição?
- Refeições, padre - esparregado, três refeições seguidas, mas não vejo porque haveria de fazer mal, é de verduras da nossa horta orgânica, colhidas pelas suas próprias mãos.
- E as línguas estranhas? Tem alguma suspeita do que seja? Aramaico? Latim? Português?
- Se é português, não entendo, mas também não entendo a minha filha desde que ela nasceu. É como as mensagens dela de telemóvel, são tantas as abreviaturas que me abrevia o entendimento, e não pesco nada.
O padre suspirou, subiu as escadas e foi vê-la sob o olhar apreensivo dos pais. Não se ouvia som algum lá em cima. Os segundos escorreram como horas e por fim, o sacerdote desceu os degraus.
- Então padre? Está mesmo possessa a nossa filhinha?
- Não, tal como não estava das outras vezes. Ela tem algum distúrbio gástrico, delira por causa da febre e roda a cabeça para um lado e para o outro porque também tem prurido na nuca. 
- Nunca imaginamos isso, senhor padre, mas também é verdade que o senhor já foi médico. Talvez pudesse aproveitar, já que está aqui, e aconselhar alguma coisa para ela tomar...
- Está bem, mas para a próxima cobro-vos o dinheiro da consulta e o do táxi.
- Senhor padre, isso não seria próprio de um homem de Deus!!

Num bar

- O que é que você faz na vida?
- Sou escritor!
- Escritor mesmo? De profissão, com obras publicadas e críticas entusiásticas?
- Não, escrevo umas coisitas quando me dá na gana. Trabalho numa fábrica de silicone, encho bisnagas para colagem de vidros e outros materiais.
- Então porque é que diz que é escritor? Tem vergonha do que faz?
- Não, estava cansado de ouvir as mulheres queixarem-se dos seus seios pequenos!

Lacuna

O jovem sacerdote elevou a voz para a assembleia.
- Antes de dar por concluído esta cerimónia matrimonial, resta-me perguntar, se algum dos presentes se opõe a este matrimónio? Se sim, que fale agora, ou se cale para todo o sempre.
Uma mulher grávida na primeira fila levantou-se de um salto, e gesticulou nervosamente, apontando o noivo, ao mesmo tempo que com a outra mão esfregava a barriga.
- Desculpe-me minha senhora, mas no Seminário não nos ensinam linguagem gestual. E como ninguém se pronuncia, declaro-vos marido e mulher!

Ver

O caravaneiro encontrou no meio duns rochedos do deserto, um eremita que o povo dizia ter muitos poderes e conhecer os segredos da magia. Ofereceu-lhe tâmaras e odres cheios de água para lhe agradar.
- O que desejas de mim? - perguntou o eremita.
- Os meus caminhos são caminhos de areia onde nada permanece, não tenho mulher nem filhos, não tenho fortuna, e nem os camelos que conduzo me pertencem. Dizem-me que vives aqui para escutar as vozes dos profetas do passado e que possuis meios para agir sobre as coisas. Só desejava ter uma visão mágica durante uma semana, com a qual conseguisse ver através das coisas e perscrutar as montanhas e planícies em busca de tesouros escondidos e minas de ouro esquecidas. Bastava-me uma semana para reunir a fortuna de um sultão e ser o mais feliz dos homens.
- É só isso que desejas? Ser-te-á concedido!
O caravaneiro sentiu uma luz tomar-lhe a vista e, nesse instante, todos os véus da matéria se tornaram fluidos e podia ver através das pedras e das montanhas. E partiu, impaciente por reunir riquezas.
Ao fim de uma semana, o mesmo caravaneiro voltou ao mesmo lugar, e sentou-se ao lado do eremita.
- Conseguiste o que procuravas? - perguntou este.
- Não sabia o que tu consideravas tesouros escondidos. Sim, vi ânforas enterradas cheias de moedas de ouro e jóias preciosas, e minas esquecidas de paredes de luz dourada, mas também vi mortos, muitos mortos, todos os que foram enterrados na terra. Os mortos que vi tiraram-me a vontade de esgravatar a terra para resgatar os tesouros. Percebo agora, que cada pessoa é um tesouro e que eu sou um homem rico por ainda ter vivos os meus pais e os meus irmãos, e os amigos que tornam menos agreste a minha existência.
- E já não queres nada de mim?
- Se me achares digno, gostaria que me ensinasses a ouvir as vozes dos profetas que os outros afirmam que já morreram. 
- Se é só isso que desejas, ajudar-te-ei a procurar!

Dejà Vu

"Já estive aqui!" - foi a primeira coisa que pensou quando se viu naquele corredor estreito de paredes prateadas, então sentiu uma pancada forte nas costas e foi lançado para cima, chocou uma, duas, três vezes, contra molas amortecidas por bandas elásticas enquanto se acendia nas paredes uma cadência sequencial de luzes e números, voltou deslizar ou cair, não sabia, e foi de novo empurrado de um lado para o outro, chocando e sendo repelido por outras molas revestidas por elásticos, e desta vez sentiu uma pequena descarga eléctrica que o sacudiu todo, aquilo não estava bem, estava a dar contacto, mas não teve tempo de se demorar nesses pensamentos, porque rolou de novo por um declive, em direcção a um buraco negro. "Já estive aqui - repetiu - já vivi isto!". Abaixo de si, duas paletas prateadas agitavam-se freneticamente tentando atingi-lo, mas passou bem no meio das duas e directo ao buraco. Enquanto caía no abismo, sentiu a máquina estremecer quando a mão do adolescente deu um murro no céu de vidro.
O miúdo, continuou a praguejar e a gritar, aos murros e pontapés à máquina de flipper, agora que a última bola havia sido engolida pela estúpida da máquina.

A culpa do mensageiro

Trino era um jovem esforçado, começara nos estábulos do castelo a cuidar e alimentar as montadas do senhor feudal, e não tardou a ser reconhecido o seu mérito, e Trino subiu uns degraus na vida, passando a ocupar-se dos pombos-correio na torre mais alta do castelo. Era um trabalho igualmente árduo e de responsabilidade. Alimentava os pombos e mudava-lhes a palha para que os bichos não lhes pegassem. Quando ouvia o bater de asas no alto da torre corria a receber o pombo-correio que chegava, para, também a correr, levar a nova mensagem aos seus amos. Era também ele quem estava encarregue de prender as mensagens enviadas aos pombos e soltá-los nos céus. 
Com todos os seus deveres e afazeres, Trino ainda arranjou tempo para projectar e construir uma engenhoca que imaginara. Visto de fora, parecia um mero caixote de lixo, daqueles de lata com tampa, mas quando esta era levantada, o seu interior revelava-se de uma grande complexidade - um sistema de veios-parafuso que eram rodados do exterior por intermédio de manivelas de cabo de madeira. Dispostos diagonalmente uns em relação aos outros, e a curta distância - não mais do que três dedos entre as arestas das lâminas dos parafusos - as manivelas que as accionavam estam unidas entre si por um cordame tenso embebido em betume, de modo que puxando o cordame, as manivelas rodavam em conjunto em sentido inverso na ordem em que estavam dispostas, e com elas, os veios-parafuso no interior da engrenagem. Não pensem vocês que esta invenção de Trino era um capricho ocioso porque, sendo o moço uma pessoa muito objectiva e prática, não desperdiçaria o seu tempo numa coisa que não tivesse uma utilidade clara. A sua invenção destinava-se a dilacerar e moer os pombos que eram destinados a serem aniquilados, e isso era feito com muita diligência pelo moço de estábulos promovido a pombeiro-mor. Trino não colocava ali os pombos chegados com correio, nem os pombos velhos ou estropiados, nem mesmo os que quase haviam sido devorados por parasitas. Uma e só uma classe de pombos tinham esse fim - aqueles que chegavam com mensagens não solicitadas nem desejadas, que esvoaçavam e sacudiam-se nos ares como se dançassem ao som de jingles publicitários, e que, numa linguagem, no mínimo, anacrónica, formavam aquilo que hoje designamos por Spam.

Afectuosa mente

Ponham-nos numa lâmina de vidro, ou num espectrógrafo, os afectos, e nem assim estaremos certos do que são, ou que elementos ou fotões os compõem, comportam-se como fios de seda, bolas de sabão, os afectos, e algodão em rama num túnel de vento, raízes de sequóias, ou alicerces de ferro e concreto, são afectos e desafectam todas as definições, carregamos um afecto toda a vida e um dia descobrimos que ele nunca esteve lá, ou vivemos convencidos de que ele não existe, e trazemos um para casa no regresso como uma moeda esquecida num bolso, ou uma pluma microscópica pousada no cabelo. Mas como tudo na natureza, o afecto tem de ter peso, massa, valor atómico, tal como peso, massa e valor atómico é mister que possua a sua sombra, porque a sombra do afecto dura tanto ou mais do que ele, e já o afecto não existe ou ainda não chegou a existir, e é a sua sombra que veste a pele da memória, e do sonho.
Retirado do Químicamente Impuro, um Weblog com muita e boa ficção curta de uma multitude de autores, transcrevo um conto de Jordi Cebrián que não me importaria de ter escrito (;). 
Se quiserem conhecer melhor este autor, experimentem descobrir os seus contos de cem palavras.


«Prohibido tener leones»
de Jordi Cebrián

Se convocó una reunión de vecinos para prohibir tener leones en las casas. Algunos replicaron que nadie tenía leones ni pensaban tenerlos, pero el presidente argumentó que en estos casos es mejor prevenir que curar y que nunca se sabe. Aprobada la moción, se pidió luego una inspección casa por casa para verificar que, en efecto, no hubiera leones. Muchos alegaron su derecho a la intimidad pero, por prudencia, se autorizaron las inspecciones. Esta tarde el presidente ha de venir a mi casa y he de mostrarle todas las habitaciones, incluso la del fondo, justo hoy que no ha comido.

Arcana Quedam

Apesar da chuva, os vendedores de antiguidades e velharias compareceram à mesma na sua feira mensal no Parque da cidade. Alguns ergueram protecções improvisadas sobre os seus haveres - oleados e manga plástica, esticados e suspensos por paus, e varolas de árvores cortadas, ou pregos comedidamente pregados na árvores em volta. Algumas pedras enlameadas compunham o arranjo, precavendo contra a brisa que soprava da banda do lago. Como que para premiar a coragem e o esforço, os compradores e curiosos também compareceram, enfiados nos seus Kispos e gabardinas, ou terçando chapéus de chuva nas passagens mais estreitas. Como se fosse um soalheiro dia de Primavera, o negócio fez-se à mesma, e eu, que vinha a medo de não encontrar nada de jeito, constatei com satisfação que não faltava nenhum dos alfarrabistas onde eu habitualmente esquadrinhava os livros, para os comprar ou pelo simples prazer da devassa. Na minha banca de eleição, o vendedor torceu o nariz, entre divertido e comprometido, quando eu folheei um dos livros expostos.
- O que é que se passa, Morais, ainda não tem preço?
- Não, não é isso, estava para o ler, mas leve-o, porque está no seu direito!
Encolhi os ombros e devolvi-o ao lugar de onde o retirara. Escolhi dois que me agradavam, e pegara num terceiro quando topei novamente a expressão ambígua do Morais. Talvez fosse da chuva, mas o Morais não estava mesmo inspirado para vender.
- O que é que foi desta vez, Morais, também tem anseios de o ler antes de o deixar partir.
- Não me leve a mal, amigo, mas esse não posso mesmo deixá-lo levar, porque não tem preço - e mal acabou de falar, fez-me um sinal para me aproximar como se me quisesse fazer uma confidência.
Dei a volta à banca, furtando-me às goteiras nas dobras do oleado, e pus-me ao lado dele.
- Esse livro é único, no verdadeiro sentido. O homem que o escreveu nos anos vinte era alquimista, e imprimiu meia-dúzia de exemplares numa tipografia. É um guia para a composição do Lapis ou Pedra Filosofal, a tintura mítica que se diz não só converter os metais como possibilitar a eterna juventude. Ao contrário de outros tratados alquimistas, neste não encontra uma floresta de símbolos e alegorias, mas linguagem clara, objectiva, científica. Estes exemplares não se destinavam a serem vendidos, mas transmitidos de mão em mão, de um iniciado para um amador da alquimia. Este em particular, foi subtraído a esse destino, porque foi vendido com outros bens na altura em que o seu possuidor faleceu, e andou em bolandas até eu o reconhecer, porque já me haviam inteirado da lenda.
- E está aqui para ser entregue em mãos a quem o merecer possuir?
- Sim, é mais ou menos isso, não sei como, mas acho que reconhecerei, de alguma forma, a quem o devo entregar. Talvez essa pessoa me faça uma pergunta especial sobre hermetismo, ou me fala do laboratório alquímico que mantém na cave da sua casa, não sei, mas estou confiante em que me surgirá uma pista.
- Isso é muito rebuscado, Morais. Além de eu não acreditar na Alquimia, porque acho que esta foi apenas o estádio pueril, ingénuo, da nossa Química, fica-me uma questão de peso - se o livro está escrito em linguagem não-hermética, porque é que você não empreendeu pessoalmente a composição do Lapis, de modo a ficar rico e regressar à sua juventude? 
- Se não acredita em alquimia, também não acreditará que isso nunca resultaria comigo, porque eu comprei o livro, e ele não me foi destinado. Mas falando de homem vivido para homem vivido, não ando nisto por perseguir o ouro, e quem é que quer viver para sempre num mundo podre e asqueroso como o nosso?


Geração utube

Foi num ápice que aprendeu a gerir a dinâmica interactiva do U-Tube. Começou com um vídeo inocente com uma mosca a agonizar na campânula formada por um copo de borco cheio de fumo de tabaco; o sucesso da iniciativa estimulou a sua veia artística e filmou aranhiços a serem queimados pelo morrão aceso de um cigarro; colegas de escola apedrejados por um cúmplice, e uma professora a arder depois de lhe ter estilhaçado na cabeça um cocktail molotof. Então, no auge da sua carreira de cineasta, virou-se para produções mais pessoais e intimistas - lacerações nos seus próprios braços e pernas com lâminas de serrote, facas e roscas de escápula - mas estas não tiveram o acolhimento nem o sucesso com que contava, mas, apesar da frustração que sentia, e desejando recuperar a fama anterior na senda que agora escolhera, encenou e filmou o seu próprio suicídio, lento e com requintes masoquistas, que um amigo deveria publicar na web. Pena que a bateria tenha acabado logo aos primeiros segundos da peça...

Ascensão

Um distúrbio ósseo de infância - talvez genético - fizera crescer o osso da cana do nariz, como uma ponte entre a ponta do nariz e o alto da cabeça.
À medida que os anos passavam, os seus olhos tomaram uma configuração estranha, não alojados nas órbitas, mas lateralizados e planos como os olhos dos peixes. Quando atingiu a idade adulta, e os hormónios de crescimento estabilizaram, ele achou que as surpresas tinham acabado, mas não. O que a princípio parecia apenas um sinal no meio da testa, abriu-se num pequeno olho sem pupila, baço como um espelho fumado, mas ele conseguia ver por ele, a princípio de modo confuso enquanto a ligação entre esse olho e o cérebro ainda estava fresca, mas aos poucos, a sua faculdade acessória de visão foi-se tornando mais e mais apurada até poder encerrar os olhos laterais durante horas a fio, por não precisar deles. O olho na testa também conseguia ver no escuro, com tanta nitidez como numa planície recendendo com a luz perfumada do carro de Hélio.
Quando as transformações cessaram, o jovem estava já resignado com o seu destino. Não! Não era diferente dos outros, como a princípio acreditara e mantivera a esperança. Mas também não sentia vergonha pelo seu estado, nem ninguém o humilhava por isso, antes o recebiam de braços abertos, felizes por reconhecer um dos seus.
Quando o acharam digno de integrar a sociedade dos adultos, foi-lhe oferecido um colar de contas de turquesa com miniaturas em prata de uma bigorna e uma picadeira. Com ele ao pescoço, e invocando a protecção das divindades do mundo inferior, começou a acompanhar os outros ciclopes no seu trabalho sombrio nas galerias das minas.


Justa

Para o cenário do duelo, foi escolhido uma clareira no bosque. As volutas de nevoeiro teimavam em humedecer as raízes descobertas das árvores. O juiz do duelo abriu a caixa de madeira com as duas armas, e elas foram entregues depois de serem lançadas sortes, então, os dois cavalheiros londrinos, de costas um para o outro, ergueram as armas à espera da contagem de passos, com o braço armado na vertical, e o outro enviesado com o punho a dar firmeza ao pulso que segurava a vida e a morte. 
- Um!
- Dois! (Dois? Ou será ainda um?).
- Três! (O quê?).
- Quatro! (Este não percebi mesmo!).
- Cinco! (Em quantos irá?).
- Seis! (Treis?).
Um tiro ressoou na paz do bosque, um tiro solitário e certeiro.
Foi remédio santo, nunca mais teve problemas de ouvido!

Lugar errado

- Com licença! Desculpe! Com licença! - ia pedindo, à medida que abria caminho entre as filas de cadeiras até um lugar vazio.
Finalmente, conseguiu sentar-se. O pequeno auditório na penumbra estava cheio, a conferência prometia. No palco, podia ler-se duas palavras projectadas no ecrã: Vimalakirti-Nirdesa. Um dos conferencistas tomou a palavra.
- Podemos começar por aqui, vou ler um trecho desta obra - «Magníficas jóias e ornamentos cobrem as pessoas; vestidas com a túnica da Humildade e cobertas com a cabeleira de flores da Mente Profunda. As suas riquezas são os Sete Tesouros da Mente, que crescem ao serem ensinados a outrem» - fez uma pausa, e inquiriu - alguém faz ideia do que sejam os Sete Tesouros da Mente?
O retardatário esticou o braço:
- Ãã, vontade de vencer, vontade de poder, de sucesso, de acumular riqueza, de prevalecer sobre os outros. Disse cinco, não foi? Para mim, deve ser uma espécie de O Segredo à budista, para conseguirmos toda a riqueza e conforto a que temos direito. Eu quero mesmo aprender isso!!
- Não, os Sete Tesouros da Mente são a confiança, a ética ou moralidade, a generosa disposição para ouvir, a humildade para consigo mesmo, a humildade para com os outros, o desapego e a sabedoria. O que é que você acha disso?
- Acho que me enganei na conferência! Com licença! Desculpe! Com licença! Desculpe!


Perdida

Sem saber quem era ou que nome tinha, encontrou-se sentada num banco de jardim às primeiras horas do dia, as roupas um pouco rasgadas, as faces ainda humedecidas pelas lágrimas. Um polícia encaminhou-a para a esquadra (suspeitava de trauma causado por violação).
Fizeram-lhe perguntas, mas em vão, ela não se lembrava de nada nem de ninguém, parecia nunca ter tido casa, parentes, ruas, ou animais de estimação. O seu rosto não coincidia com o das pessoas dadas como desaparecidas nos últimos dias e, coisa inaudita, não conseguiram recolher as suas impressões digitais. Parecia uma pessoa sem passado nem futuro, uma aparição momentânea no fio do tempo, e quando a psicóloga da esquadra tentava decifrar aquele enigma, apareceu alguém a reclamá-la. Era um escritor, aquela mulher pertencia-lhe, como não sabia bem o que fazer com ela, perdera-a de vista. Perante o espanto de todos, ela reconheceu-o e tratou-o com deferência, como a um pai; e aceitando o casaco que ele colocava sobre os seus ombros, saíram os dois da esquadra, o escritor e a sua personagem.

KT

Os seus correligionários afirmavam com orgulho que ele era um dinossauro da política; os seus adversários, esperavam o asteróide que o levaria à extinção.

Url

O dot não tem fome, mas o dot come.

Cúmulo

O meu primo João é a pessoa mais nervosa que alguma vez conheci. Em dada altura, cometeu a proeza de ter um ataque de ansiedade diante de uma estátua de Buda (diga-se de passagem, que também estavam lá uns talibans a disparar sobre a estátua).


Aproverbiado

Para bom enten, meia palavra basta.

Compinchas

Encontrei o meu colega Luís na entrada do Pub, estava com uns amigos.
- Estás sozinho? Estes tipos foram meus colegas quando eu trabalhava na Consultora. Vem para a nossa mesa, é pessoal porreiro.
O Luís apresentou-me aos outros, sentamo-nos todos a uma mesa no meio da atmosfera enevoada de fumo, e começaram a aterrar na mesa os tabuleiros com aperitivos e canecas de cerveja. A música ambiente era um nojo, mas ninguém parecia ligar.
- Jantamos todos juntos uma vez por ano, para por a escrita em dia - confidenciou o Luís, enquanto se desenrolava uma das histórias do grupo.
- ... quando estávamos a subir as escadas, é que o Matos decidiu verificar a minha peta, e baixou a cabeça para verificar se a Mariana do escritório trazia ou não cuecas, bem, naquele momento ela olha para trás e vê o Matos a querer espreitar por baixo das saias, e manda-lhe um coice no nariz com o tacão alto, que fez o Matos rolar pelas escadas aos gritos.
Gargalhada em coro, limpam-se algumas lágrimas de riso com as mãos ásperas do sal dos aperitivos.
- E quando chegamos à conclusão que o Matos nunca tinha estado com uma mulher e decidimos levá-lo a uma casa de putas. Lembram-se da cena? Nós sentados a uma mesa como agora, a beber uma cerveja, e elas sentadas no outro lado da sala, todas escancaradas, à espera que nós escolhêssemos uma delas. E o Matos, que ainda não se tinha apercebido onde nós estávamos, começou a fazer olhinhos para uma, e diz-me ele, muito baixinho, eu acho que hoje ainda vou engatar uma mulher. E digo eu: se precisares de dinheiro eu empresto-te, é só disso que elas estão à espera. Aí é que o tãtã topou, bebeu o resto da cerveja e diz-me com o ar mais sério do mundo: nunca pagarei para estar com uma mulher, se alguma for para a cama comigo, se não for por gostar de mim, pelo menos será por querer estar comigo.
- O Matos era mesmo um ponto. Lembram-se quando ele andou apaixonado por aquela miúda de dezoito anos que lá trabalhou no Verão? Nós convencemos o Matos a convidá-la para irem ao cinema ao fim de semana, o tipo lá foi a pretexto de tirar uma fotocópia e convidou-a, a gaguejar. Quando ela aceitou, o Matos veio pedir-me conselho. Digo-lhe eu, olha, pá, uma miúda como esta gosta de pessoas sensíveis e diferentes, nada melhor para a impressionar do que levares alguma coisa de diferente, como umas calças de suspensórios ou um boné com ursinhos. O que ele não sabia é que eu tinha pedido à Ana para dar a entender á miúda que o Matos era pedófilo. Ela ficou muito desiludida, e não foi. O Matos ficou duas horas à porta do cinema á espera dela, com umas calças de suspensórios e um ió-ió na mão. Duas horas naquele figurão! Tive pena de não estar lá para gozar o prato.
Uma nova gargalhada geral, e mais pedidos de cervejas. Uma e outra história se esgarçou em volta dos arrotos e das fugidas para o urinol, e sempre com o Matos como protagonista principal.
- E daquela vez no jantar da firma, em que a Ana decidiu sondar o Matos sobre as suas teorias sobre sexo. A Ana pergunta-lhe se ele sabia o que era o sexo oral, o Matos fez uma careta, e pôs-se a discorrer, bem, oral é da boca, sexo oral, deve ser a gente falar de sexo, não é? E vai logo a Ana - Então, estás a ter sexo oral comigo e eu ainda não senti nada! 
Mais uma gargalhada, e eu aproveitei para interpelar o Luís, que mastigava uma mão-cheia de amendoins.
- Vocês falam sempre do Matos no pretérito. O que é que aconteceu, ele morreu?
- N...não, O M..at...os não mo...rreu...foi o único que desistiu destes jantares....

 

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...