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A mostrar mensagens de Maio, 2009

Os bares e a descompressão

Daniela trabalhava num Call Center, um emprego duro e esgotante com registos de produtividade, exigências, metas a cumprir - não se ganhava muito e tinha-se de dar o litro. A pressão era tanta que havia muitos que não aguentavam e se despediam, ou então, arrepiavam caminho na rotina diária com medicação aconselhada por amigos ou farmacêuticos. Daniela e alguns colegas mais chegados conseguiram arranjar um barómetro para a sala onde trabalhavam. Com ele, tinham logo a noção de como estava a pressão do ar, e se a situação permitia beber um café sem grandes preocupações ou se, pelo contrário, era melhor prevenirem-se e tomar um comprimido para os nervos. O Call Center trabalhava das nove da manhã às onze da noite. Num dia em que estivera a cumprir o último turno, Daniela apercebeu-se no regresso a casa que tinha esquecido a carteira no emprego. Voltou às pressas. As luzes estavam quase todas apagadas e já todos tinham saído menos o segurança de serviço. Pediu-lhe ajuda e ele acompanhou-a…
A laranja grande, exuberantemente laranja, moveu-se um ou dois milímetros depois de muito se debater na base da pirâmide de frutos, a sua proeza agitou os outros, que se moveram, rodaram e deslizaram de forma quase imperceptível a olho nu. Nem todos os frutos o conseguiram, o que se traduziu por exalações agressivas dos seus sucos internos, e no caso do limão, por um fio de sumo ácido libertado por um corte mínimo na casca, e que castigou os frutos sob si. A crueldade do limão levou a novas reacções manifestadas pelo movimento e aromas daqueles espécimes, enquanto, no topo da pirâmide, as rubras cerejas e as uvas luzidias pareciam indiferentes a toda essa batalha, na sua beatitude de frutos dominantes e sobranceiros. Igualmente indiferente a tudo isso mantinha-se o artista, posicionado a uns três metros desse centro de mesa, ignorando tudo e mais preocupado com as linhas e matizes da natureza-morta que pintava.

Anóni-mato

"Como já te tinha dito, os teus poemas não estão muito maus" - considerou o meu amigo - "Só precisas de reconhecimento, eles e tu precisam de ser lidos, criticados, louvados, vomitados". - O que é que me aconselhas? - Põe-te em campo e tenta atingir a Fama. As coisas ficam mais fáceis dessa forma! Acatei o conselho. Meti o meu original numa mochila, junto com duas caixas de cartuchos e um apito-chamariz, preparei a minha caçadeira e pus-me em campo. Parei o meu carro na berma de um paúl, e embrenhei-me num labirinto de charcos e canaviais. Devia ter calçado as minhas botas de cano alto porque o chão estava cheio de lama, mas lembrei-me que depois da caçada, a fama me daria com que comprar umas botas novas e até, contratar um engraxador a tempo inteiro. Com a experiência que adquirira na caça aos patos, preparei a caça à Fama. Construí um pequeno abrigo com caniços cortados e colocados em cunha, acocorei-me debaixo deles e soprei no apito-chamariz, com força, uma e uma…

erpmeS

Um fim de tarde e os dois sentados na esguia sombra dum cipreste-do-Mediterrâneo, junto ao caminho no meio das ervas que conduzia à praia isolada, muito procurada pelos nudistas. Estiveram um pouco a namorar e, como começasse a passar muitas pessoas para a praia, não se sentiram tão à-vontade e dedicaram-se a comer a merenda que haviam trazido de casa. Enquanto cortava uma talhada de melão, ela lembrou-se de perguntar: - Achas que o nosso amor é para sempre? - Claro, amor, vai durar mais do que esta árvore, tenho a certeza. Ela sorriu, satisfeita, e com o bico da faca com que cortara o melão, gravou um coração redondinho na casca da árvore, e as iniciais dos nomes deles. Beijaram-se com os rostos colados à árvore, como que para solenizar aquelas palavras. Arrumaram a tralha, e fizeram-se ao caminho, à procura do crepúsculo sobre o mar ou de um lugar qualquer, mesmo sem o mar no horizonte, onde tivessem alguma privacidade. Naquele instante, uma solitária nuvem escura no céu desferiu um ra…

Danos maiores

Rosário, cigana e indigente, tentava vender pensos adesivos aos motoristas quando eles paravam junto aos semáforos, poucos os compravam e os pensos nunca davam grande dinheiro, e nem serviam para grande coisa porque eram pequenos (o mesmo pensou a primeira pessoa que a socorreu, quando os viu esvoaçar à volta do corpo de Rosário depois do atropelamento).

Coerência

Com evidência, rezam as estatísticas, morrem mais pessoas na cama do que nas ruas. Afonso Gualdos da Câmara, como homem excêntrico que sempre foi, pareceu querer confirmar e contrariar as estatísticas de uma só vez: morreu debaixo de uma cama, esmagado por ela enquanto descarregava um camião de mudanças estacionado na rua.

Asteróide 324 (ante-história)

Com cuidado, o menino louro manobrou a sua nave espacial por entre os troncos de árvores calcinadas e aterrisou-a numa clareira na floresta, também ela, uma mancha negra e cinzenta. Desceu por uma rampa metálica e embrenhou-se pela floresta, afundando as suas botas no triste manto de cinzas. Ocultou-se atrás de uma árvore quando ouviu o som de disparos e vozes. Conseguia ficar muito tempo assim, escondido sem ninguém o ver, e o que via fê-lo desejar não estar ali, viu homens e máquinas a cortar as árvores e a arrastá-las para o rio, e viu um grupo de caçadores com as suas presas - animais bravios e domésticos, ovelhas e cobras, raposas e linces, como se quisessem acabar com o que restava de vida naquele lugar. E quando sentiu que era seguro sair do seu esconderijo, voltou às pressas para a nave, pensativo e angustiado. Quando ia subir pela rampa, viu algo que o fez deter-se. O vórtice de vento que a sua nave causara ao pousar desenhara uma pequena clareira dentro da clareira, um espaç…

Milonga de Albornoz - Tata Cedrón Trío (letra de Jorge Luis Borges)

Milonga de Albornoz(Jorge Luis Borges)

Alguien ya contó los días.
Alguien ya sabe la hora.

Alguien para Quien no hay

ni premuras ni demora.

Albornoz pasa silbando

una milonga entrerriana;

bajo el ala del chambergo

sus ojos ven la mañana.



La mañana de este día

del ochocientos noventa;

en el bajo del Retiro

ya le han perdido la cuenta

de amores y de trucadas

hasta el alba y de entreveros

a fierro con los sargentos,

con propios y forasteros.



Se la tienen bien jurada

más de un taura y más de un pillo;

en una esquina del sur

lo está esperando un cuchillo.

No un cuchillo sino tres

antes de clarear el día,

se le vinieron encima

y el hombre se defendía.



Un acero entró en el pecho,

ni se le movió la cara;

Alejo Albornoz murió

como si no le importara.

Pienso que le gustaría

saber que hoy anda su historia

Como uma noite em Buenos Aires

Ruiva, parece provocadora como uma cortesã e, ao mesmo tempo, ostenta o sorriso inocente de uma criança anterior ao mundo, e a todo o engenho e perfídia que este nos inocula. Está sozinha, sentada a uma mesa, vestida de negro, e faz rodar entre os seus dedos as pérolas (ou talvez fossem contas) baças de um colar, entoando entredentes a milonga repetitiva dançada numa noite antiga. O rapaz, que a estuda há horas, ganha coragem, arqueia os seus ombros como se fosse pegar nos cornos de um touro e aproxima-se dela, fazendo soar o tacão das suas botas nos mosaicos do chão. - Posso pagar-lhe uma bebida? Ela não responde, olha através dele e continua a murmurar a sua cantiga íntima. O rapaz desanima, e volta ao balcão do bar. Pede um uísque, que o bar-tender avia sem hesitar. - Ela vem aqui todos as noites - confia o bar-tender, notando o seu desalento - eu acho que ela é louca, ou então, deve estar à espera de alguém. - Talvez um amante - supõe o rapaz - se ela é louca, talvez já não se lembre …
Imagem
Tempo e espaço são sinónimos, pelo que uma ilha deserta, sem nada nem ninguém, é como um tempo vazio, sem horas nem tempo. Naufragar numa ilha deserta, pode ser encontrar o lugar onde o tempo parou. (E isso não assusta aqueles que amam a sua solidão).

Um na multidão

O corpo, segundo contam os que estiveram lá dentro, jaz no féretro na salinha apertada de tecto baixo que serve às mil maravilhas para o velório, ainda que usar esse termo possa ser de extremo mau gosto quando pronunciado ao pé dos parentes e amigos do falecido. Como é novidade - está ali um morto de fresco - as pessoas que passam na rua a caminho do emprego ou na volta do supermercado, ao verem tanta gente trajada de negro, entram também para dar o seu contributo à cerimónia ou para confirmar se o morto está mesmo morto e, já agora, apurar se era alguém conhecido. Forma-se espontaneamente uma fila ogival que parte da rua, transita até ao morto e parentalha para regressar de novo à rua entre suspiros e lamentações sobre a injustiça da vida, uma fila ordenada e cívica como um carreirinho de formigas. Dou de caras com esta situação quando, cá fora, os que já por lá passaram fazem o relatório aos que tem intenção de entrar - é muito novo, moço ainda, tem cabelos louros quase brancos, outro…

No futuro

Á hora de ponta, no autocarro voador superlotado, leu uma manchete de um jornal electrónico que um estranho carregava: "Caso raro de longevidade: Mulher no hospital de Lisboa completa hoje cento e cinquenta anos!". Ficou a pensar nisso. Como é que se chega a uma idade dessas? A beber leite de cabra e iogurtes naturais? Comendo cebolas e aipo? Com a prática do ioga? Quanto mais pensava no assunto, mais irrequieto se sentia e, por fim, não conseguiu resistir mais, e antes que o estranho abandonasse o autocarro, pediu-lhe se podia ler o resto do artigo. A resposta era muito simples e vinha no subtítulo: a mulher comatosa estava ligada às máquinas há cem anos.
"E não posso mesmo matá-la?" - perguntou Noé com os olhos fixos no céu carregado, e resistindo a coçar a picada da pulga.

Estímulo e resposta

Estímulo: 1 - Caminhava com a mãe numa tarde chuvosa de Maio, quando um arco-íris coloriu o céu. 2- Teve de perguntar: Mãe! Como é que nasce o arco-íris? 3 - Hesitando entre a feia ciência e o belo folclore, a mãe respondeu: O arco-íris nasce de um pote de ouro enterrado num lugar longínquo!
Resposta: 1 - O mesmo menino passeava na orla de um campo de golfe, num belo dia de sol, no momento exacto em que se iniciou a rega automática e os aspersores começaram a distribuir uma chuva artificial. 2 - Nesse instante, com os repuxos de água entre o menino e o sol, desenhou-se, miraculosamente, um arco-íris à flor da relva.
3 - A mesma mãe do mesmo menino surpreendeu o seu pequeno rebento a esgravatar o solo com as mãos nuas.

Relações peçonhais

Sempre lhe desagradou o feitio e a presença do seu chefe, desde o primeiro momento em que entrou para a firma até à altura em que a doença prolongada o obrigou a retirar-se dela. Não gostou dele às primeiras, nem às segundas, mas, mais para o fim, quando ele estava já nas últimas, conseguia sentir por ele uma piedade epidérmica que beirava a simpatia.

Maria tinha uma família pequena, uma filha e um companheiro que era o pai da sua filha, e os três viviam numa casa pequena, onde também existia um cão que quase se poderia considerar da família. Ainda assim, era uma família pequena, nuclear. Que não durou muito tempo, e explodiu, um pouco mais de meio século depois da explosão de Hiroshima.

handicap euclidiano

A pequena esfera vivia no mundo dos sábios. Os sábios, como ela, também tinham a forma esférica, tal como tudo o que aí existia ou vivia - as casas, as opiniões, as crenças, as certezas, as nuvens. A pequena esfera escolhia desse universo as coisas de que gostava e levava-as para a sua casa esférica, e por elas e por ela mesmo, era capaz de matar ou morrer. A pequena esfera, como todos os sábios do seu mundo, era absolutamente incapaz de ver as coisas de um ângulo diferente.

Educar

- Pai, não é preciso corrigir-me de novo. Está bem?
- Porquê? É missão sagrada de qualquer pai corrigir os filhos, para que eles falem correctamente e sem erros. - Mas isto é um exagero! - Ouviste o que disseste? Pronuncias exagero como ezsagero. Não achas grave? - Mas hoje é um dia de festa, quero divertir-me e não, ter-te sempre a zunir ao meu ouvido como o gafanhoto do Pinóquio. - Eu sei que é dia de festa, mas lá porque estão a celebrar o teu jubileu como professor universitário, achas que devo suspender a minha incumbência como pai?

A toca

Um tapete roído, o saco de plástico no chão da sala, estraçalhado pelos dentes brincalhões. Ela era assim, não sabia estar quieta, esperando as horas passar, mas também não se deveria ter animais dentro de casa, era o que o seu médico sempre dizia. Foi à sua procura, seguindo o seu rasto de diabruras. Um poça de mijo num canto das escadas, outro tapete sacudido pelos dentes, uns fios beje do tapete na borda da banheira onde deveria ter estado apoiada, depois remexera na terra do vaso, e deixara marcas no chão, as pistas conduziam sempre ao mesmo lugar, ao quarto dos fundos. Abriu para trás a porta entreaberta, e sentiu uma tristeza fria no peito. Aquele quarto tinha ficado bonito, apesar da escuridão conseguia vislumbrar os móveis pintados de cor creme com puxadores rosa, e colagens de fantasia nas gavetas e portas. Sentou-se pesadamente na cama, sabia que ela estava ali. Ouvia a sua respiração, arfante como a de um animal cansado e com sede. Não foi preciso esperar muito para a ver a…

Lar, doce lar

- A nossa mãe está ficando xexé - enunciou Adelmira, a abrir o convénio familiar - não é bem xexé, já não é auto-suficiente, vem as senhoras limpar a casa e dar-lhe de comer, mas nem isso lhe chega, quer atenção, quer que nós estejamos presentes, pergunta por todos, convoca todos os netos, chama-os pelos nomes, recrimina-nos a todos quando não aparecemos lá há sete dias ou sete meses, aquela memória de elefante deixa-nos a todos doidos. É angustiante. Eu acho que ela deveria ir para um Lar de Idosos.
- É uma ideia que desagrada a todos - continuou António, o marido de Adelmira - tirá-la da casinha onde sempre viveu, com os retratos antigos e o relógio de cuco na parede, a cama de colchão de palha, o cadeirão onde o marido dormia as sestas e onde ela se recosta como se fosse adormecer sobre o seu peito. - Poesias - retomou Adelmira - ela já não está capaz de viver sozinha. Vem muitas vezes a minha casa porque estou mais perto, mas também não posso tê-la lá a viver, nem nenhum de vocês. T…

A objectiva no objecto

Na ossatura de uma casa, nenhum objecto é igual a qualquer outro objecto, como os ossos das nossas vértebras. Uma mesa não é igual a outra mesa, uma porta e uma janela não são iguais a outra porta e janela, mesmo que tenham o mesmo tamanho, e sido feitos dos mesmos materiais e com as mesmas mãos. 

Na minha casa, isso é especialmente notório nas portas, nenhuma porta se comporta da mesma forma que outra, e mudam de comportamento consoante as usamos para abrir ou fechar. Já pensei, porque penso muito e ando sempre à procura de explicações, que isso é originado pelo maior ou menor uso (e desgaste) que fazemos delas, pelas irregularidades do chão e outros defeitos de construção da casa, e até pela maior secura ou humidade do ar em virtude de haver ou não por perto torneiras a serem usadas. Mas eu falo nisso, porque é uma ideia que já deixei para trás. Agora, apesar de não ser um fabulista, acredito que as portas, entre todos os objectos do mundo, são os mais propensos a manifestarem intenç…

Crise geral

Fausto decidiu vender a alma ao diabo, deram-lhe uma senha, e teve de esperar pela sua vez. A fila de pretendentes dava várias voltas em espiral ao quarteirão, e foi-se distraindo a mirá-los. Candidatos a actores, candidatos a escritores, candidatos a candidatos, empresários, tecnocratas, donas-de-casa, estudantes, compradores compulsivos, senhores da guerra, desempregados, políticos de terra pequena, vendedores de bíblias...Num instante, a fila compôs-se atrás de si, com mais e mais pessoas a tentar vender a alma. E a fila não andava, devia haver muito regateio nos primeiros lugares, e depois, depois acabou tudo. Uma voz nos altifalantes expôs o impasse: contrariando as leis da oferta e da procura, ninguém parecia disposto a baixar o preço da alma apesar da oferta excessiva, pelo que o comércio se declarava indefinidamente suspenso, para não se esvaziarem os cofres.
Fausto sentiu frustração e indignação pelo anúncio, mas dispersou com o resto da multidão. Ao seu lado, uma adolescente …
A sua relação teve um fim trágico: ele matou-a. Mas como gostava de finais felizes, desenhou um sorriso post-mortem nos seus lábios frios.

O exorcista

Apesar dos gritos agudos que ressoavam pela casa como o eco de um látego, aquele bater na porta chamou a atenção de todos. A mãe da jovem corre a abrir, um padre perfilava-se na soleira sob a chuva incessante, tinha o rosto envelhecido, e segurava um missal e um rosário nas mãos.
- Como é que ela está? - Continua possessa, vomita um líquido verde, fala línguas estranhas, e roda o pescoço. - No sentido dos ponteiros do relógio ou no sentido inverso? - Gira no sentido dos ponteiros do relógio, e depois retoma a posição inicial, fazendo-a girar em sentido contrário, talvez para acertar as horas. - E comeu alguma coisa verde à refeição? - Refeições, padre - esparregado, três refeições seguidas, mas não vejo porque haveria de fazer mal, é de verduras da nossa horta orgânica, colhidas pelas suas próprias mãos. - E as línguas estranhas? Tem alguma suspeita do que seja? Aramaico? Latim? Português? - Se é português, não entendo, mas também não entendo a minha filha desde que ela nasceu. É como as mens…

Num bar

- O que é que você faz na vida?
- Sou escritor! - Escritor mesmo? De profissão, com obras publicadas e críticas entusiásticas? - Não, escrevo umas coisitas quando me dá na gana. Trabalho numa fábrica de silicone, encho bisnagas para colagem de vidros e outros materiais. - Então porque é que diz que é escritor? Tem vergonha do que faz? - Não, estava cansado de ouvir as mulheres queixarem-se dos seus seios pequenos!

Lacuna

O jovem sacerdote elevou a voz para a assembleia.
- Antes de dar por concluído esta cerimónia matrimonial, resta-me perguntar, se algum dos presentes se opõe a este matrimónio? Se sim, que fale agora, ou se cale para todo o sempre. Uma mulher grávida na primeira fila levantou-se de um salto, e gesticulou nervosamente, apontando o noivo, ao mesmo tempo que com a outra mão esfregava a barriga. - Desculpe-me minha senhora, mas no Seminário não nos ensinam linguagem gestual. E como ninguém se pronuncia, declaro-vos marido e mulher!

Ver

O caravaneiro encontrou no meio duns rochedos do deserto, um eremita que o povo dizia ter muitos poderes e conhecer os segredos da magia. Ofereceu-lhe tâmaras e odres cheios de água para lhe agradar.
- O que desejas de mim? - perguntou o eremita. - Os meus caminhos são caminhos de areia onde nada permanece, não tenho mulher nem filhos, não tenho fortuna, e nem os camelos que conduzo me pertencem. Dizem-me que vives aqui para escutar as vozes dos profetas do passado e que possuis meios para agir sobre as coisas. Só desejava ter uma visão mágica durante uma semana, com a qual conseguisse ver através das coisas e perscrutar as montanhas e planícies em busca de tesouros escondidos e minas de ouro esquecidas. Bastava-me uma semana para reunir a fortuna de um sultão e ser o mais feliz dos homens. - É só isso que desejas? Ser-te-á concedido! O caravaneiro sentiu uma luz tomar-lhe a vista e, nesse instante, todos os véus da matéria se tornaram fluidos e podia ver através das pedras e das montanha…

Dejà Vu

"Já estive aqui!" - foi a primeira coisa que pensou quando se viu naquele corredor estreito de paredes prateadas, então sentiu uma pancada forte nas costas e foi lançado para cima, chocou uma, duas, três vezes, contra molas amortecidas por bandas elásticas enquanto se acendia nas paredes uma cadência sequencial de luzes e números, voltou deslizar ou cair, não sabia, e foi de novo empurrado de um lado para o outro, chocando e sendo repelido por outras molas revestidas por elásticos, e desta vez sentiu uma pequena descarga eléctrica que o sacudiu todo, aquilo não estava bem, estava a dar contacto, mas não teve tempo de se demorar nesses pensamentos, porque rolou de novo por um declive, em direcção a um buraco negro. "Já estive aqui - repetiu - já vivi isto!". Abaixo de si, duas paletas prateadas agitavam-se freneticamente tentando atingi-lo, mas passou bem no meio das duas e directo ao buraco. Enquanto caía no abismo, sentiu a máquina estremecer quando a mão do adole…

A culpa do mensageiro

Trino era um jovem esforçado, começara nos estábulos do castelo a cuidar e alimentar as montadas do senhor feudal, e não tardou a ser reconhecido o seu mérito, e Trino subiu uns degraus na vida, passando a ocupar-se dos pombos-correio na torre mais alta do castelo. Era um trabalho igualmente árduo e de responsabilidade. Alimentava os pombos e mudava-lhes a palha para que os bichos não lhes pegassem. Quando ouvia o bater de asas no alto da torre corria a receber o pombo-correio que chegava, para, também a correr, levar a nova mensagem aos seus amos. Era também ele quem estava encarregue de prender as mensagens enviadas aos pombos e soltá-los nos céus. 
Com todos os seus deveres e afazeres, Trino ainda arranjou tempo para projectar e construir uma engenhoca que imaginara. Visto de fora, parecia um mero caixote de lixo, daqueles de lata com tampa, mas quando esta era levantada, o seu interior revelava-se de uma grande complexidade - um sistema de veios-parafuso que eram rodados do exterio…

Afectuosa mente

Ponham-nos numa lâmina de vidro, ou num espectrógrafo, os afectos, e nem assim estaremos certos do que são, ou que elementos ou fotões os compõem, comportam-se como fios de seda, bolas de sabão, os afectos, e algodão em rama num túnel de vento, raízes de sequóias, ou alicerces de ferro e concreto, são afectos e desafectam todas as definições, carregamos um afecto toda a vida e um dia descobrimos que ele nunca esteve lá, ou vivemos convencidos de que ele não existe, e trazemos um para casa no regresso como uma moeda esquecida num bolso, ou uma pluma microscópica pousada no cabelo. Mas como tudo na natureza, o afecto tem de ter peso, massa, valor atómico, tal como peso, massa e valor atómico é mister que possua a sua sombra, porque a sombra do afecto dura tanto ou mais do que ele, e já o afecto não existe ou ainda não chegou a existir, e é a sua sombra que veste a pele da memória, e do sonho.
Retirado do Químicamente Impuro, um Weblog com muita e boa ficção curta de uma multitude de autores, transcrevo um conto de Jordi Cebrián que não me importaria de ter escrito (;).  Se quiserem conhecer melhor este autor, experimentem descobrir os seus contos de cem palavras.


«Prohibido tener leones» de Jordi Cebrián
Se convocó una reunión de vecinos para prohibir tener leones en las casas. Algunos replicaron que nadie tenía leones ni pensaban tenerlos, pero el presidente argumentó que en estos casos es mejor prevenir que curar y que nunca se sabe. Aprobada la moción, se pidió luego una inspección casa por casa para verificar que, en efecto, no hubiera leones. Muchos alegaron su derecho a la intimidad pero, por prudencia, se autorizaron las inspecciones. Esta tarde el presidente ha de venir a mi casa y he de mostrarle todas las habitaciones, incluso la del fondo, justo hoy que no ha comido.

Arcana Quedam

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Apesar da chuva, os vendedores de antiguidades e velharias compareceram à mesma na sua feira mensal no Parque da cidade. Alguns ergueram protecções improvisadas sobre os seus haveres - oleados e manga plástica, esticados e suspensos por paus, e varolas de árvores cortadas, ou pregos comedidamente pregados na árvores em volta. Algumas pedras enlameadas compunham o arranjo, precavendo contra a brisa que soprava da banda do lago. Como que para premiar a coragem e o esforço, os compradores e curiosos também compareceram, enfiados nos seus Kispos e gabardinas, ou terçando chapéus de chuva nas passagens mais estreitas. Como se fosse um soalheiro dia de Primavera, o negócio fez-se à mesma, e eu, que vinha a medo de não encontrar nada de jeito, constatei com satisfação que não faltava nenhum dos alfarrabistas onde eu habitualmente esquadrinhava os livros, para os comprar ou pelo simples prazer da devassa. Na minha banca de eleição, o vendedor torceu o nariz, entre divertido e comprometido, qu…

Geração utube

Foi num ápice que aprendeu a gerir a dinâmica interactiva do U-Tube. Começou com um vídeo inocente com uma mosca a agonizar na campânula formada por um copo de borco cheio de fumo de tabaco; o sucesso da iniciativa estimulou a sua veia artística e filmou aranhiços a serem queimados pelo morrão aceso de um cigarro; colegas de escola apedrejados por um cúmplice, e uma professora a arder depois de lhe ter estilhaçado na cabeça um cocktail molotof. Então, no auge da sua carreira de cineasta, virou-se para produções mais pessoais e intimistas - lacerações nos seus próprios braços e pernas com lâminas de serrote, facas e roscas de escápula - mas estas não tiveram o acolhimento nem o sucesso com que contava, mas, apesar da frustração que sentia, e desejando recuperar a fama anterior na senda que agora escolhera, encenou e filmou o seu próprio suicídio, lento e com requintes masoquistas, que um amigo deveria publicar na web. Pena que a bateria tenha acabado logo aos primeiros segundos da peça…

Ascensão

Um distúrbio ósseo de infância - talvez genético - fizera crescer o osso da cana do nariz, como uma ponte entre a ponta do nariz e o alto da cabeça.
À medida que os anos passavam, os seus olhos tomaram uma configuração estranha, não alojados nas órbitas, mas lateralizados e planos como os olhos dos peixes. Quando atingiu a idade adulta, e os hormónios de crescimento estabilizaram, ele achou que as surpresas tinham acabado, mas não. O que a princípio parecia apenas um sinal no meio da testa, abriu-se num pequeno olho sem pupila, baço como um espelho fumado, mas ele conseguia ver por ele, a princípio de modo confuso enquanto a ligação entre esse olho e o cérebro ainda estava fresca, mas aos poucos, a sua faculdade acessória de visão foi-se tornando mais e mais apurada até poder encerrar os olhos laterais durante horas a fio, por não precisar deles. O olho na testa também conseguia ver no escuro, com tanta nitidez como numa planície recendendo com a luz perfumada do carro de Hélio.
Quando …

Justa

Para o cenário do duelo, foi escolhido uma clareira no bosque. As volutas de nevoeiro teimavam em humedecer as raízes descobertas das árvores. O juiz do duelo abriu a caixa de madeira com as duas armas, e elas foram entregues depois de serem lançadas sortes, então, os dois cavalheiros londrinos, de costas um para o outro, ergueram as armas à espera da contagem de passos, com o braço armado na vertical, e o outro enviesado com o punho a dar firmeza ao pulso que segurava a vida e a morte. 
- Um! - Dois! (Dois? Ou será ainda um?). - Três! (O quê?). - Quatro! (Este não percebi mesmo!). - Cinco! (Em quantos irá?). - Seis! (Treis?). Um tiro ressoou na paz do bosque, um tiro solitário e certeiro. Foi remédio santo, nunca mais teve problemas de ouvido!

Lugar errado

- Com licença! Desculpe! Com licença! - ia pedindo, à medida que abria caminho entre as filas de cadeiras até um lugar vazio.
Finalmente, conseguiu sentar-se. O pequeno auditório na penumbra estava cheio, a conferência prometia. No palco, podia ler-se duas palavras projectadas no ecrã: Vimalakirti-Nirdesa. Um dos conferencistas tomou a palavra. - Podemos começar por aqui, vou ler um trecho desta obra - «Magníficas jóias e ornamentos cobrem as pessoas; vestidas com a túnica da Humildade e cobertas com a cabeleira de flores da Mente Profunda. As suas riquezas são os Sete Tesouros da Mente, que crescem ao serem ensinados a outrem» - fez uma pausa, e inquiriu - alguém faz ideia do que sejam os Sete Tesouros da Mente? O retardatário esticou o braço: - Ãã, vontade de vencer, vontade de poder, de sucesso, de acumular riqueza, de prevalecer sobre os outros. Disse cinco, não foi? Para mim, deve ser uma espécie de O Segredo à budista, para conseguirmos toda a riqueza e conforto a que temos direito.…

Perdida

Sem saber quem era ou que nome tinha, encontrou-se sentada num banco de jardim às primeiras horas do dia, as roupas um pouco rasgadas, as faces ainda humedecidas pelas lágrimas. Um polícia encaminhou-a para a esquadra (suspeitava de trauma causado por violação).
Fizeram-lhe perguntas, mas em vão, ela não se lembrava de nada nem de ninguém, parecia nunca ter tido casa, parentes, ruas, ou animais de estimação. O seu rosto não coincidia com o das pessoas dadas como desaparecidas nos últimos dias e, coisa inaudita, não conseguiram recolher as suas impressões digitais. Parecia uma pessoa sem passado nem futuro, uma aparição momentânea no fio do tempo, e quando a psicóloga da esquadra tentava decifrar aquele enigma, apareceu alguém a reclamá-la. Era um escritor, aquela mulher pertencia-lhe, como não sabia bem o que fazer com ela, perdera-a de vista. Perante o espanto de todos, ela reconheceu-o e tratou-o com deferência, como a um pai; e aceitando o casaco que ele colocava sobre os seus ombro…

KT

Os seus correligionários afirmavam com orgulho que ele era um dinossauro da política; os seus adversários, esperavam o asteróide que o levaria à extinção.

Url

O dot não tem fome, mas o dot come.

Cúmulo

O meu primo João é a pessoa mais nervosa que alguma vez conheci. Em dada altura, cometeu a proeza de ter um ataque de ansiedade diante de uma estátua de Buda (diga-se de passagem, que também estavam lá uns talibans a disparar sobre a estátua).


Aproverbiado

Para bom enten, meia palavra basta.

Compinchas

Encontrei o meu colega Luís na entrada do Pub, estava com uns amigos.
- Estás sozinho? Estes tipos foram meus colegas quando eu trabalhava na Consultora. Vem para a nossa mesa, é pessoal porreiro. O Luís apresentou-me aos outros, sentamo-nos todos a uma mesa no meio da atmosfera enevoada de fumo, e começaram a aterrar na mesa os tabuleiros com aperitivos e canecas de cerveja. A música ambiente era um nojo, mas ninguém parecia ligar. - Jantamos todos juntos uma vez por ano, para por a escrita em dia - confidenciou o Luís, enquanto se desenrolava uma das histórias do grupo. - ... quando estávamos a subir as escadas, é que o Matos decidiu verificar a minha peta, e baixou a cabeça para verificar se a Mariana do escritório trazia ou não cuecas, bem, naquele momento ela olha para trás e vê o Matos a querer espreitar por baixo das saias, e manda-lhe um coice no nariz com o tacão alto, que fez o Matos rolar pelas escadas aos gritos. Gargalhada em coro, limpam-se algumas lágrimas de riso com as mão…